Gonzaguinha para encerrar os posts desse mês de setembro. Piro com ele falando "Calma, calma, muita calma". Tem sido emblemático nesses dias beligerantes em que tudo é uma questão de pegar o sonho e partir. Ou isso ou uma vida renegada. Às vezes penso que o moço tirou o coração espremeu, torceu, bateu, saculejou e gritou. O que saiu, virou canção. Gonzaguinha é só isso para mim. E isso tudo é muito, sem dúvidas.
O primeiro atingiu a pálpebra esquerda, trazendo-lhe o desconforto de estar no mundo. O outro caiu vertiginosamente contra a estrada que seguia. Vendo-o se transformar em nada, se desfazendo diante daquilo que poderia ser a imensidão, sentiu o infortúnio de rasgar-se em vida. E agora que existia, poderia contar algumas histórias
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
A alma repleta de chão
A escuridão não me preocupa. Me preocupa a luz. A escuridão é apenas a ausência de luz. Mas a ausência sim me preocupa. A preocupação não. Me é indiferente. No entanto, a indiferença me preocupa muitíssimo. Considero-a uma atitude vergonhosa. Ainda que a vergonha não me preocupe. Antes sim me preocupava. Mas pra mim dá no mesmo o antes e o depois; minha vida não é um desenvolvimento tendente a nada. Por isso, o nada não me tira o sono. O sono, em compensação, é algo que, sim, me interessa. Às vezes passo toda a noite acordado pensando nele. Não chego a nenhuma conclusão, mas as conclusões me exasperam. Prefiro os pontos de partida. Não pelas partidas; pelos pontos. Sempre trato de acumular pontos. Não pelos pontos em si; pela acumulação. A acumulação entendida como uma coisa só, não como um cúmulo de outras. Os cúmulos eu, se pudesse, os desagregaria. As coisas têm que ir separadas; não juntas. Juntas formam outras coisas, e isso traz complicações. Não que eu tenha medo às complicações. O que me assusta é o simples. O simples não se sabe de onde sai; aí é onde está o mistério. Ainda que os mistérios, por sorte, não me interessam. Me interessa a sorte. Que desgraça. Porque a sorte sempre é escassa. E se dissesse que não me preocupa a escassez, mentiria. Mas mentir não me preocupa. O que me preocupa é a verdade. Quando minto não tenho problema; posso dizer qualquer coisa. Ainda que seja verdade, não importa, porque digo de mentira. Mas quando falo a verdade, tenho que andar com mais cuidado. Por via das dúvidas, nesses casos digo o mínimo possível. E depois me desdigo, para cobrir as duas possibilidades. Mas não é que me queira cobrir. Eu faço tudo exposto à tempestade. E se não há lua, melhor. Eu gosto da escuridão. A escuridão não me preocupa. Me preocupa a luz. A escuridão é apenas a ausência de luz. Mas a ausência sim me preocupa. A preocupação não. Me é indiferente.
Leo Masliah - La obscuridad
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Eu faço tudo exposto à tempestade
Setembro rodou num instante e num instante que não me permitiu o dar-se conta. A verdade é que tentar negar o meu direito de decidir, por não quer fazer tantas escolhas e enfrentar tantas conseqüências das quais não tenho controle, tem me assustado. Na minha frente, vejo gente sendo atropelada sem reação. É uma plataforma em que o trem não poderá partir porque lhe faltam trilhos a serem percorridos. Olhando para os dias de ontem, hoje e a amanhã, é que se nota que a vida não dá nem a certeza da morte, só da decisão.
A agenda comprada no começo do ano funcionou até julho. Não tenho disposição para organização de atividades, cronogramas e horários absolutamente rígidos dividindo o que você faz e o que você é ou o que você gostaria de ser. Quando me submeti a esse modelo, estudei história com o mesmo afinco que matemática, passei no vestibular e entrei na universidade. Segmentar a vida assim me parece agora empobrecedor – embora não restam dúvidas de que, nesse mundo, quem assim o faz tenha um presente e um futuro mais certo. Dessa dignidade, suja pelas vaidades, pelas fantasias e pela falta daquilo que é mais verdadeiro, não respiro.
Agora vou seguindo assim. Tentando planejar alguns passos, descobrindo gostos, me bagunçado todos os dias para não cair na adaptação de mim mesmo. Refazendo-me com o cotidiano das grandes cidades que parece quebrar você ao meio impiedosamente. Aqui, por qualquer mínimo detalhe, já sou a pessoa mais vulnerável do mundo. E a sensação de desamparo, aquele sabor cruel de que no fim das contas é só você com e contra você mesmo, tentam me apagar nas primeiras esquinas. É nessas horas que a vontade de chorar e desistir de tantas coisas, simplesmente porque elas não têm tanta importância, me abraçam de forma calorosa.
Tenho repousado meus olhos sobre A Vida Está em Outro Lugar. Pela necessidade de fulga, talvez. Ou pela absoluta convicção de que a obedecer de forma é-assim-mesmo o que aí está me parece um sinal de morte anunciada. Não se levam apenas os nossos dias, mas a nossa humanidade, a liberdade que aqui dentro insiste em querer correr mundo, em inventar saveiros e em partir. Apesar das ondas calmas ou violentas jogarem contra a imensidão, há sempre uma corda puxando o barco de volta para o ancoradouro. É dessa volta, da repetição desmesurada, que tenho medo.
Li há pouco o relato de um querido amigo vivendo nas montanhas – talvez escreva agora por ele. Queria, às vezes, ser forasteiro de mim. Abandonar essa máquina que me engendra e me faz ser e me movimentar no mundo. É desse risco de existir que quero viver. Dessa sede de ausência que me torna existência e que faz nascer a primavera.
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terça-feira, 28 de setembro de 2010
Elegante e sofisticado
Cortejo Afro ontem, dia 27, fez o céu mudar de cor. Teve caruru, teve samba-reggae, gente cheia de leveza e uma alegria improvável para qualquer segunda-feira. Não me ajudou a tomar decisão alguma, mas lavou a alma e deixou todo mundo com um gosto ávido de verão na boca. Vivo na cidade mais barroca do mundo, tiroteio&confusão são estados de espírito permanentes.
O Cortejo volta para Teca Batista em novembro.
|Foto: A bateria que faz qualquer um sentir o coração de Salvador|
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Tereza Batista
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Cotas na UFRGS
"Quando o negro fala, lá vem o negro reclamando. Agora, quando é o branco, está sendo politicamente correto", açoitou sob lágrimas Margareth Menezes num Festival de Verão da vida qualquer. Bem Maga, a gente concorda em 98% dos casos. O texto que segue faz parte dos 2% que nos sobram. Se tem preguiça de ler todo - eu sei que tem- vou destacar a parte mais importante. É a que mostra como os brancos, mesmo sem se darem conta, são naturalmente privilegiados somente por serem....brancos. Eu sei que é o segundo texto sobre racismo em menos de, sei lá, 5 dias. Mas, nesse período, deu tempo de ir à praia, ir ao samba, dançar na Confraria, ir ao teatro e até de namorar.
Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Ter, 14 de Setembro de 2010 01:22 Educacao - Cotas no STF
Ter, 14 de Setembro de 2010 01:22 Educacao - Cotas no STF
Este texto é um manifesto escrito e subscrito por brancos que compõem a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele é uma retumbante admissão pública, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclusão estrutural de negros e indígenas dos benefícios e espaços de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, é produzida uma teia de privilégios a nós brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa convivência. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando não queremos ser. O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. É pelo reconhecimento destes privilégios que marcam toda nossa existência, mesmo que nós brancos não os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprovação de Ações afirmativas de Reparação às populações negras e indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.
A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje?
O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!
Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?
No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.
A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje?
O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!
Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?
Vamos apresentar uma breve listinha de circunstâncias em nossas vidas que expõem nossos privilégios de brancos e que, embora não percebêssemos, embora os víssemos apenas como relações naturais para nós, por sermos pessoas normais e "de bem", foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por não serem vivenciados também por negros e indígenas, seu resultado é fazer com que seja tão desproporcional o número destas populações dentro da UFRGS, por exemplo):
1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele não faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no ônibus, nas lojas, etc;
2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manutenção de um emprego;
3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu salário fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma função;
4) Posso ligar a televisão e ver pessoas de minha raça em grande número e muitas em posições sociais confortáveis e que me dão perspectivas para o futuro;
5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas da minha raça;
6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a história dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais segurança de quem sou e pra onde posso ir;
7) Nunca precisei ouvir que no meu estado não existiam pessoas da minha raça; 8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele;
9) Já fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha raça fosse um elemento que reforçasse minha possível condenação;
10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha raça posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura;
11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha raça;
12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de "brincadeira";
13) Sempre tive professores da minha raça;
14) Nunca me senti minoria em termos da minha raça, em nenhuma situação;
15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci até hoje eram da mesma raça que eu;
16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranqüilo de que ninguém relacionará isso com minha raça;
17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ninguém ligue isso a minha raça;
18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui forçado a falar em nome de minha raça, carregando nas costas o peso de representar 45% da população brasileira; 19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha infância, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo;
20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele não seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou estágio;
21) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão racial" não serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal;
22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convicção de que a cor da minha pele não fará com que meu tratamento sofra dificuldades;
23) Posso fazer minhas atividades seguro de que não experienciarei sentimentos de rejeição a minha raça.
Esta realidade destroça meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida não foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha raça, assim como fechadas a outras pessoas. A opção de falar ou não em privilégios dos brancos já é um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privilégios dos brancos são estruturais, as ações contra o racismo devem ser também estruturais. Racismo não é preconceito: racismo é preconceito mais poder. Se não forçarmos mudanças nas relações e posições de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou não vai "cortar na própria pele" o racismo que até hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu próximo vestibular? Se mantivermos o vestibular "cego às desigualdades raciais" estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que nós mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.
Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!
Fonte: Sociologia
Leia materia completa: Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. | Portal Geledés
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domingo, 26 de setembro de 2010
Roberta Campos
Cada vez mais encantado pela voz de Roberta Campos. Como coloca vídeo do youtube aqui? Tiops, clicando na imagem acima vai pra lá. Mas queria no formatinho certo de vídeo mesmo.
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Quando se lembra de Mim,
Roberta Campos
Cade a DRT?
Psicólogo de boteco é um tipo que deveria integrar a lista de animais em extinção. Durante todos esses dias, em que um certo ar de novidade anda me dizendo que sair dessa cidade equivale a não voltar pro sertão, percebi o quanto eles se reproduzem. São radicais do pouco. Gente que dá pitacos excessivos na sua vida, buscando de forma primorosa tazer a tradução de você para, advinhem, você. Com a pretensão de aluno que nunca estudava e nunca entendia por que ia parar na recuperação, essas pessoas são os paladinos da experiência vivida, da superação de todos os dramas e conflitos que a humanidade pode trazer a alguém. Precisam ser categóricas e, ao mesmo tempo, fingir algum tipo de conhecimento que só elas possuem - possuem não, alcançaram. Não precisa nem conhcer sua trajetória, basta pegar algum comentário e proferir frases incertas como "Eu sei o que é isso", "Essa é a fase X da vida", "Eu sei como você se sente", "Como você mudou", etc&tal.
Em geral, psicológos de boteco não entendem nada, não estão entendendo nada e só querem matar o velhote inimigo que morreu ontem. Desconfio de qualquer sabichão que tenha lido menos livros que eu. E não tenho receio de pedantismo em relação a esse fato. Depois que não precisa mais do que duas ou três frases trocadas para perceber que o psicólogo é uma pessoa insegura, cheia de problemas banais no qual ele vê grande importância, tem pouco conteúdo, não sabem argumentar e se afugentam no personagem esperto e interessante que eles criaram de si para fugir de qualquer discussão que se estenda para além das suas trivialidades. Sofrem da síndrome contemporânea de suicídio: por qualquer coisa dizem "quero morrer" e vivem a deriva na vida. São vencidos pelo dia mais fácil do mês e acordam sempre pensando em como o café da manhã será repetitivo, tal qual a vida de Maria Fulaninha. Andam com os comparsas. É uma forma de garantir que sua referida e nobre profissão de fato existe e é compartilhada por outros.
O antídoto mais eficaz para qualquer conflito da pós-modernidade é o desprezo. Se vale tudo e todos podem dizer o que querem, então, se abster da fala não só representa dizer algo como algo melhor do que qualquer coisa que pudesse ser dita. Não tem forma mais singular de debochar e de irritar a horda de atrevidos que tentam preencher o seu about me. Virgínia Woolf nos entenderia. E ela nem precisa achar que é Lacan. Nem sentar no Mercado do Peixe, claro.
"Não se pode tomar decisão alguma. E somos cada vez menos capazes de fazer um julgamento. Você acha isso? E depois, nunca sabemos o que sentimos. Estamos todos no escuro. Tentamos descobrir, mas pode imaginar algo mais ridículo do que uma opinião de uma pessoa acerca de outra pessoa? Achamos que sabemos, mas na verdade não sabemos".
VAMOS FALAR DE COISA BOA?
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Virgímia Woolf
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Universidade de Coimbra
Escondi até o dia do resultado. Depois, veio a alegria tipo pula-pula-loucamente-sete-da-manhã-no-quarto. Agora, já é público. Então, meu blog: fui admitido no mestrado em Coimbra. Se eu conseguir o visto e for - há sobre os meus ombros o peso de uma tentativa mal sucedida - serão dois anos out of Salvador. Sem lavagens, sem carnaval, sem acarajé, sem as pessoas, etc e tal. Em compensão, sob os meus pés sujos de terceiro-mundo, a Europa. Vale, né? Vale.
Ps: Queria que eles colocassem logo a matrícula no ar.
Ps2: Já perceberam que virei o louco do blogspot postando mil coisas? Pois, cessam-se as leituras, movem-se os dedos. Há de se entender no futuro.
Das flores e dos temporais
Quando ela partia, era como se o mundo inteiro virasse poeira. Todos os dizeres pareciam apequenados e fatalmente irritantes. Não importava quem os dissesse ou mesmo os seus intuitos e desejos. As coisas faladas agora enchiam o mundo de peso, roubavam-lhe a leveza que ela havia deixado. Se debatendo para não admitir esse momento, lançava-se impiedoso contra todos. Em ataques furiosos daquilo que poderia ser um pouco de mau humor ou rebeldia desconhecida, atacava para sentir a vida. Queria mesmo pensou, era impedir todos, segurá-los pelo braço e lavá-los com alguma humanidade que nele restara. Havia sido, então, somente isso. Um punhado de pessoas desfazendo-se nas miudezas, sendo apagadas por muito pouco, acreditando em suas crenças quase inúteis, sonhando os desvarios de uma loucura completamente apodrecida. Vendo essa barbárie sem rumo, atravessou o outono. Lá ainda era primavera.
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Respeitem meus cabelos, brancos (com ou sem vírgula)
Ontem, 23, no mesmo dia em que conversava com uma amiga antropóloga sobre as relações raciais no Brasil, um ato de racismo (e tantos outros certamente desconhecidos) acontecia em Salvador. O episódio, relatado a posterior pela mãe da criança, dilacera novamente essa ferida temida e nem sempre ocultada da nossa sociedade. Minha amiga, na ocasião, contava da experiência impactante de ser confrontada com essa realidade em Brasília - ela é baiana, mas mora nesse lugar -, e do fato de ter sido impelida pela faca de dois gumes Unb-Branquitude a se recolocar na posição de mulher negra. Ou de, pelo menos, tentar entender-se dentro de uma determinada realidade regida sobre um determinado fenômeno.
Descontando um pouco o ranço de militância e o calor do momento (tanto o simbólico, oriundo da raiva da notícia, quanto o material, já que Salvador se aquece novamente), a verdade é que, nesse país, sempre que surge um conflito ou impasse e a nossa capacidade de vigilância epistemológica identifica o racismo estruturante no cerne do problema, as pessoa torcem o nariz e se afugentam do bicho papão que é o debate sobre raça. Pode ser qualquer coisa, menos racismo. Não interessa se é um negro da periferia versus um branco da classe alta discutindo, sei lá, no trânsito. Nunca haverá nessa passagem o recorte racial, só ditames normais de um cotidiano agitado de qualquer metrópole.
Na universidade, espaço que uma dúzia de babacas embevecidos consideram o berço da liberdade e da resistência contra o mundo cruel e burguês, é extremamente comum a reprodução das relações racistas. Dentro da sala de aula, inclusive, costuma vir apimentada com doses indigestas de sexismo e de discriminação por gênero. Minha amiga relatava o episódio de um professor branco, muito bem financeiramente, de formação acadêmica européia, que, apesar dos traços inequívocos de competência, se relacionava quase que "naturalmente" com os alunos de semelhante matriz sóciocultural. Alunos cujo pertencimento etnicossocial incidia sobre a classe média, intelectualizada nos moldes europeus, com vivências semelhantes a do referido professor. Com esse setor, a abertura e o diálogo eram mais intensos. Enquanto isso, no fundo da sala, três ou quatro jovens negros da periferia, cotistas, assistiam as aulas de forma impassível, acompanhando os conteúdos, os textos, mas sem se pronunciar publicamente na disciplina em questão. As suas vivências não tinham eco nem poder de fogo nem diálogo sobre o que estava sendo exposto, logo silenciavam-se.
Daí, surgem algumas considerações ardilosas, mas necessárias: existe um conflito racial nesse contexto? Existe. Racismo estruturante? Sim. As pessoas, em geral, achariam isso? Não. Na verdade, a leitura hegemônica se pauta em questões de afinidade, de interesse acadêmico, de compromisso com os estudos e com a participação, e todos aqueles argumentos meritocráticos dos espaços universitários que conhecemos. Todos, evidentemente, exalando cheiro de opressão. Nesse caso, por exemplo, a cor da pele, ao longa da trajetória de cada um, foi fator determinante para que algumas experiências fossem vividas e outras não, foi também aglutinando e dispersando determinados laços sociais, excluindo de contexto para submeter em outros, etc. Então, o fato dos jovens negros estarem a parte na sala não é normal, não pode ser naturalizado. Tem uma história por trás disso, existe um passado que permitiu ao professor e ao grupo de alunos da frente uma formação mais robusta, do ponto de vista acadêmico, e aos três jovens não. Mas eles estão lá dentro, inseridos, e sua própria existência já é uma provocação e uma forma declarada de subversão histórica.
Para não falar no caso da menina negra que foi segunda colocada em todas as etapas da seleção de mestrado e perdeu exata e coincidentemente na entrevista com a banca examidadora e outros casos da UNB e do país, reproduzo o episódio de discriminação racial num Salão de Beleza aqui em Salvador, onde a maioria esmagadora é negra e onde racismo só existe na cabeça das pessoas. Das pessoas negras, claro. E de cabelos trançados.
SALÃO DE BELEZA NEGA-SE A CORTAR CABELO DE CRIANÇA NEGRA
Funcionários do “Salão Fascínio”, localizado no andar térreo do Shopping Itaigara, em Salvador, recusaram-se hoje, dia 23 de setembro, a cortar o cabelo de uma criança negra, de seis anos, recomendando a mãe que “passasse a máquina”, pois aquele cabelo “não dava para ser cortado, nem desembaraçado”. A mãe da criança, a jornalista Márcia Guena, acusou os funcionários e a dona do salão de racismo e logo procurou a administração do shopping para formalizar a denúncia. Neste caso configura-se um duplo crime por tratar-se de racismo e de violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por expor uma criança a uma situação vexatória.
Acompanhado da mãe, o menino M.S.G.S.O. entrou no salão por volta das 18:30, do dia 23 de setembro, quando Guena solicitou ao único funcionário homem do salão, para quem foi indicada pela atendente Selma (a qual foi identificada como dona do salão), um corte estilo “black”, mas não muito alto. O funcionário então respondeu que para “aquele cabelo” só dava para “passar a máquina”. A mãe então disse: “eu não solicitei que passem a máquina, mas que cortem o cabelo do meu filho. Eu já indiquei o corte que desejo”. O atendente repetiu: ”só dá pra passar a máquina”. Guena retirou a criança da cadeira e saiu imediatamente do salão para não expor a criança a uma discussão motivada pelo racismo explícito. Mas diante da violência cometida contra a criança, que foi exposta a uma situação vexatória, e a recusa de cortar o cabelo de um negro, a mãe voltou com a finalidade de procurar a gerente e formalizar a denúncia de racismo.
Ao retornar, Guena disse para Selma que a recusa em cortar o cabelo de seu filho configurava-se racismo, um crime inafiançável e que iria formalizar a denúncia junto ao Ministério Público. Selma, identificada como Maria Tavares de Oliveira, contestou dizendo que a mãe estava errada e que seus funcionários disseram que não sabiam cortar o cabelo da criança e que seria muito difícil desembaraçá-lo. Por isso, só poderiam passar a máquina, insistindo na resposta inicial do funcionário.
A mãe retirou-se do local e procurou a administração do Shopping. Guena foi recebida por Alda, que se identificou como administradora, e reconheceu a gravidade do problema, confirmando tratar-se sim de uma situação de racismo. Imediatamente ligou para Selma (Maria Tavares Oliveira) reclamando da forma como foi realizado o atendimento.
CONTATOS:
Márcia Guena (mãe) – 8788 9991
Aspri (pai) – 8876 4445
Alda (administradora do shopping Itaigara) 99812452 ou 32708900
Salão Fascínio – Selma (Maria Tavares de Oliveira)
Trecho da resposta da socióloga Vilma Reis, militante do movimento negro:
"Eles querem nos pisar e contar com o nosso silêncio, nossa complacência. Minha i
rmã, tem gente que acha que somos exageradas, esquisitas, barulhentas e que
não é mais preciso falar do racismo e nossas feridas abertas na sociedade,
mas quando vivemos e saimos para cortar o cabelo, fazer pós graduação,
entrar no banco o racismo informa que mora ao lado...Diga a seu filho que
você está com ele e que nossos ancestrais não dormem...Eles não passarão!" .
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quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Equinócio
O mar esmeralda da Baía e os versos de uma canção quase esquecida na memória, ensina que a vida da gente é assim mesmo: vai e volta, volta e meia, vem e vai. Como a primavera que hoje nos chega, há sempre um cheiro de começo. E é para isso que me rendo. Todos os dias e todas as noites, num jogo ímpar de igualdade.
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Xuxa tinha razão: ajuda eu, ajuda!
Então eu decidi colocar anúncios no blog para ver quantos desavisados ou pessoas caridosas ou, vamos falar a verdade, gente que usa o mouse como se tivesse mal de parkinson, clicariam neles. Durante as primeiras horas, realmente acreditei na possibilidade de algum dia viver do dinheiro dessa página - dá pra se ver que ainda sou um sonhador e que o fato dos sonhos não envelhecerem é um dado preocupante quase sempre. Por quê como poderia ganhar algum trocado nesse site se ele é quase anônimo? Se ele não tem tema, nem periodicidade, nem fidelidade, nem divugação? Se os meus poucos leitores são rechaçados em posts sobre formatura, etc e tal? Pra mim, tudo isso não passava de detalhes logísticos, facilmente superados por qualquer tag popular. E que mesmo os mais bobos dos conteúdos, ou seja, todos, não impediriam os bondosos leitores de passarem mais tempo procurando mais besteiras. Mas sim, nem tudo no mundo está perdido e as pessoas - algumas - ainda tem critérios. Descobri que, fatalmente, o perfil de quem visita esse blog jamais poderia originar cliques insanos na publicidade. Talvez por isso, hoje, tenha faturado a excelente quantia de 2 doláres e garantido o transporte para casa - dependendo da cotação da moeda, claro. Pensando nisso é que, a partir de amanhã, escreverei sobre Família Restart, Pitty, Bundas, Futebol, Fofocas de Salvador e Região. Porque diferente dos leitores que me acompanham, eu não tenho critérios. Tenho contas.
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Unidos da Bancarrota
As solenidades de formatura universitária, em geral, pintam com maestria o cenário do ensino superior no Brasil hoje: massificação da educação, seguida de ausência de educação social e humana, apimentada com doses de histeria e excesso de desencontros. São elas que têm roubado sistematicamente todos os postos de cafonice do mundo - onde quer que eles estejam, independentemente de quem os possua. É a celebração do quase sempre muito pouco e, portanto, da necessidade obrigatória de provocar o exagero. Um recorte de monstruosidade, retalhada por incompetência, falas repetitivas e retrógradas oriundas de gente jovem reunida disposta a ser a turminha que vai aprontar altas diversões na sua noite.
Quando, nesse país, existiam apenas duas ou três universidades por Estado da Federação – perceba que hoje existem duas por bairro - fazia algum sentido expor de forma ostentosa o fato de que você, jovem, esperto, inteligente, realmente participava de um seleto grupo de pessoas. Haveria, a bem da verdade, poucos sorrisos de canto de boca quando sua mãe chorasse pela dificuldade que você enfrentou durante a graduação, ninguém ficaria com vergonha alheia se a Pri, a Juli ou Teu se atirasse no chão agradecendo aos céus por aquele pedaço de papel. Porque, de fato, na parede do escritório de advocacia só você e seu sócio possuíam esse hieróglifo. Mas em 2010, precisa de muita distração e uma super vaidade para não perceber que alguma coisa está, como profetizou Caetano, fora da ordem.
Está fora ritmo há algumas décadas, descompassando-se e vivendo num tempo, mas pensando e agindo como se estivesse em outro. Certo que em 1970 já era ruim fazer solenidades, já se revelava o nosso profundo ranço aristocrático do colonizado vestido de toga européia, num aspecto que definitivamente não combina com a nossa natureza tropical. Apesar disso, em 1970, ter um diploma significava realmente algo muito maior na sua existência material e simbólica do que nesses dias igualmente desleais de agora.
Cabe ressaltar que é ótimo que tenhamos mais universidades – embora esse processo de abertura tenha e continue sendo devastador, oportunista, cruel – e mais jovens formados. Sabemos que a população que migra das péssimas escolas secundaristas para ocupar as cadeiras do nível superior ainda é ínfima. Ínfima não significa inexistente e, sobretudo, ínfimo dentro de um quadro de milhões e milhões nos rende uma multidão. Pra mim, se eu tenho algo que somente 30 pessoas podem ter a cada semestre, até seria motivo de orgulho (até seria porque jamais me orgulharia de algo menor que ter uma ilha na Polinésia Francesa), mas qual é o sentido de eu criar, fantasiar um mundo de dificuldade, seletivo e criterioso sendo que a cada dois meses eu tenha, apenas em Salvador, pelo menos 100, 200, quiçá 400 advogados ou jornalistas ou psicólogos sendo jogados de cara no mercado de trabalho? Pra que eu preciso acreditar que meu filho é o único graduado em engenharia civil se tá estampado em todos os lugares que existem mais 700 deles completando o curso naquele momento?
Se tenho uma graduação concluída, parabéns campeão. Você vai ter um emprego melhor – isso é exceção, que fique claro -, você até poderá fazer concurso para nível superior, etc e tal, e só. Perceba: não serve mais nem pra cela especial. Sentiu 1929 quebrando radicalmente o valor do seu diploma? Daí que, sem sectarismos, acho justo termos alguma felicidade. Nos livramos de faculdade precárias, de metodologias quase sempre aborrecidas de ensino, das xerox ilegíveis, de alguns muitos professores picaretas que se inserem no meio acadêmico e se acomodam no seu conhecimento livresco rasteiro, muita gente se livra dos colegas com déficit mental em etapa avançada, há também quem deixe para trás a sua faculdade caça níquel-shopping Center que cobra até pela água do bebedouro, enterramos de vez tudo isso e por alguns poucos dias acreditamos no samba de Simone: que a vida vai melhorar, que a vida vai melhorar. Sim, tudo isso é motivo de celebração. A questão é: de que tipo?
O Banquete que Platão não queria
Filhos sem nenhum senso de realidade, irmãos e colegas suspeitos prováveis de incendiarem a biblioteca de Alexandria e a Babilônia, pais dispostos a manter as aparências, o figurino (quase sempre muito bregas, vale o destaque), e o personagem “sim, sou classe média, mas sou mais classe média que você”. Eis a fórmula completa para o completo fiasco. Lá se vão 4h de sua vida perdidas entre vídeos toscos de gente bêbada rebolando até o chão – deixa isso guardado pros seus amigos-, tentativas visivelmente forçadas de mostrar o quanto a turma é unida, familiares chorosos, piegas e sempre beligerantes – eles levam cornetas, cartazes indicativos, bombas e confetes pra comemorar o fim da guerra-, professores, reitores e homenageados notadamente constrangidos com tanta efusividade e uma platéia que interpreta os sete anões: tem zangados, tem atchins, tem dungas, sonecas, dengosos, mestres e, sejamos justos, um ou outro feliz.
No cerne dessa perdição ou produção de classe que arrancaria sem transtornos de Gilberto Gil um “desnecessário, Preta, desnecessário”, ficam os produtores da algazarra. Gente que entende tanto de organização, cultura e bons modos quanto eu de física quântica – acho que um pouco menos. Daí esse povo esperto e doido para ganhar dinheiro com a babaquice dos nossos setores médios pretensamente intelectualizados entendeu que só aquilo não enchia os olhos de nenhuma menina - que dirá de uma recém-formada. E re-criaram os famigerados bailes de formatura.
Em geral, nos bailes, a riqueza, poder e ostentação devem aparecer no começo, uma vez que depois da quarta dose de roska não será percebido se a flor é artificial ou se é uma autêntica dama da noite. E assim servem-se o espumante cuja embalagem melhor lembre uma champagne, até que ele acabe. Depois se passa para o Red Label servido de forma periódica que é pra né vocês sabem. Enquanto isso os morangos são misturados com a vodca e a banda começa. Três horas e 90% da festa já desceu do salto, está enrolada em coisas horrorosas, e dançando pagode de tal forma que Léo Santana ficaria com ciúmes.
Agora depois desse tratado, de cunho impessoal, vale salientar, me diz: tem como perder tanto babado, tiroteio e confusão? - N
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Eu vim correndo à frente do sol
Falar da cor dos temporais
Do céu azul, das flores de abril
Do céu azul, das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor,
Estrada de fazer o sonho acontecer
sábado, 18 de setembro de 2010
Eu não posso deixar de dizer
Assim vou deixando de ser aos poucos, me apagando no café da manhã, no galho caído, na curiosidade de qualquer transeunte, na dor de ninguém. Vejo em mim uma vontade cansada de partir, um desejo inescrutável de novidade. Novidade do que sou e de todo o resto.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Configuração
Tive que alterar o layout do blog pra essa coisa semi-bizarra e confusa porque o blogspot está com a página inicial toda desconfigurada. A parte de apresentação, quem sou eu, antecedentes, etc. está toda lá embaixo. Dai, como ainda não descobri o que está acontecendo e como se resolve (Alguém SABE?) adaptei para esse layout. A questão é que as coisas continuam lá embaixo. Não foi uma troca muito vantajosa, eu sei.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Há uma semana
Antes que o relógio pudesse marcar seis horas e que a Ave Maria anunciasse no rádio o repouso do dia, trouxeram a notícia de sua partida. Lá já se reconhecia que tudo sempre é repentino, súbito, e que a morte é por excelência o ato mais dramático dessa peça que vivemos. De repente, ficou ali naquele ventre o desespero se debatendo em grunhidos, um pouco de sangue tentando alimentar uma vida que já não existia. Deitado, tremendo, tal qual ela deve ter tremido, fechando e abrindo os olhinhos como sempre fizera, pensaram juntos em tantas coisas. Ele levantou-se e ela se foi. Não poderiam compreender esse manto invisível que nos cobre e que nos leva ao ser. Diante disso, desse medo, desse não saber, viviam. E para viver também era preciso ir.
domingo, 5 de setembro de 2010
Blogspot confuso
Alguém me explica por que na página de abertura desse blog o perfil, os posts antigos, etc, estão aparecendo lá embaixo e não do lado dos textos? Que ódio.
Difícil é fazer diferente
Depois que as mais de 17 câmeras de última geração instaladas em pontos estratégicos do Madison Square Garden, em Nova York, foram desligadas e que a tsunami da euforia levou para casa os 15 mil pagantes de ontem, dia 4 de setembro, é oportuno (e justo) pensar na carreira de Ivete Sangalo. Falado por 11 em cada 10 veículos de comunicação do país, o espetáculo foi, sem dúvidas, o show mais esperado de 2010. Com tantos elogios e, evidentemente, demonstrações explícitas de puxa-saquismo, Ivete pretendia, com esse trabalho, ser um marco brasileiro dentro da cultura de massa americana – algo feito, dentro de seus respectivos quadrados e gêneros , claro, por outro juazeirense, João Gilberto, nos anos de 1950 com a bossa-nova.
Embora se tentasse recobrar, digamos, a lucidez diante de tantas expectativas e devaneios dos milhões de fãs que tem no Brasil, ninguém, nem Ivete, nem Jesus, nem a Caco de Telha, nem mesmo a TAM, escondia que esse seria o salto mais desafiador de sua carreira e a possibilidade ímpar de abrir as portas, ainda muito restritas para a sua música, no exterior. De fato esse era e continua sendo o desafio imposto e que, a julgar pela noite de ontem, está bem longe de ser superado.
Com investimentos batendo a marca dos R$ 5 milhões (Quantos podem bancar essa cifra?), o show no Madison poderia ter primado pela ousadia, pela inovação. Se foi um risco empregar tanto capital (simbólico e material), que, pelo menos, o risco fosse vivido até a última gota. Se foi um desafio e todas essas incontáveis pessoas coadunaram com a possibilidade de enfrentá-lo que se buscassem saídas mais criativas e mais originais. O que se viu,entretanto, pelos vídeos já lançados na internet, pelas informações presentes nos principais meios na manhã desse domingo, é que Ivete optou pelo mais do mesmo, pelo caminho mais seguro e do retorno garantido.
Feijão com Arroz
Mesmo com todos os efeitos, da cenografia, da montagem e de todo preparo exigido na composição do show, a sua essência foi a mesma que a de outros. As canções, inclusive, se repetiam sucessivamente. Certo que num estilo que ainda se pauta pelo “pula, sai do chão”, música conhecida é o elemento mágico infalível para encher de alegrias mil qualquer televisor. Apesar disso, num cenário em que pouco se cria de novo e que, paralelamente, tanto clama por novidades e tem sede de inovação, a ousadia de dominar o público pela surpresa é o que pode, aparentemente, garantir boas transformações e novas musicalidades. Pelo menos, é isso que se atesta nos últimos 60 anos da música popular brasileira.
Não é que estejamos aqui repetindo os argumentos superficiais, pueris, de que é vendida ao sistema, de que é produto, de que é caça-níquel. Da indústria cultural, nem o Teatro Mágico, que diz sobreviver com bilheteria e venda própria de cd’s, escapa. Isso, creiam, nunca foi necessariamente ruim – exceto para Adorno e para a Teoria Crítica. Tantos outros que se vendem como alternativos são muitos mais submissos e entregues aos ditames do mercado do que Veveta. Até porque sejamos realistas: se existe alguém que pode dizer o que quer e o que não quer fazer, hoje, na música brasileira, esse alguém tem nome e residência fixa no Campo Grande, em Salvador (E, não, não é Gal Costa). Não desmerecendo seu talento, mas é desse contexto que surge a frustração.
Frustração pelo feijão com arroz – já tomando parte aqui do álbum homônimo de Daniela para um inevitável e sempre temida palavra: comparação. Costuma-se dizer, na Bahia, que La Mercury é parâmetro para as demais. Longe das rivalidades levianas e da troca de farpas dos fãs mais ardilosos, as comparações quase sempre precisam aparecer para termos referências. E o que a gente nota é que não ter medo de vaias, não ter receio de críticas dissonantes e de entrar num círculo “onde-queres-leblon-sou-pernambuco” é um passo necessário para a reciclagem do artista e da sua própria arte. Por trazer as velhas fórmulas e inserí-las em algo que só é grandioso pelos valores monetários aplicados, essa virada que Ivete poderia trazer foi, novamente, adiada. A cobrança poderia ser exagerada se esse trabalho não se propusesse a tantas complexidades: é uma mulher, latina, nos Estados Unidos, cantando basicamente em português, num formato diferente das ‘divas americanas’, etc e tal - sendo ela, inclusive, melhor do que a maioria desses produtos esterializados.
Tem seu preço inovar? Claro que sim. Pode sucumbir na sua própria loucura ‘vanguardista’? Pode. Pode desagradar fãs, pode até perdê-los, pode conquistar inimigos? Pode. E ser rotulada de perdida e outras expressões não tão nobres? Certamente será. Mas esse também pode ser um preço justo em nome do compromisso que se tem com a sua arte, com sua criação, com a cultura, enfim, com o seu povo. Quando se tem compromisso com isso, que fique claro.
Talvez o temor de uma aparição discreta ou de uma carreira internacional fugaz tenham impelido para que a sua inserção recaísse sobre a colônia de brasileiros. Não são poucas as tentativas mal-sucedidas de nossos artistas . Vencer uma barreira de preconceitos não é suficiente: é preciso mostrar qualidade, dialogar musicalmente com quem nada entende de sua língua. Desse pecado, por exemplo, padeceu a dupla Sandy & Junior, engolidos pelo desequilibrado tripé da maturidade, da originalidade e da criatividade.
Reinventar as formas
É inegável que a sua trajetória na música brasileira tem sido vitoriosa. Depois de lançar-se solo, no momento em que o Axé Music dava passos vacilantes, Ivete traçou um rápido caminho para o posto de mais importante artista do show business brasileiro. Rápido, nesse caso, é pura modéstia: foi avassalador mesmo. Aproveitando o excelente momento em 2002, com a vitória surpreendente do Brasil na Copa da Coréia e do Japão, cravou nos corações e mentes dos 180 milhões de brasileiros a música Festa. Em seguida, as multidões que a seguiam no carnaval da Bahia, a acompanharam nas maratonas dos estádios brasileiros: primeiro o disco da MTV, na Fonte Nova (último gravado lá antes da demolição) e, logo depois, o DVD Ao Vivo no Maracanã, uma mega produção raramente vista no país. Uma pausa para o suspiro e para a gravidez e veio o singelo Pode Entrar, que entrou no mercado fonográfico superando, em definitivo, qualquer dúvida sobre a força de Ivete. Nesse ínterim, teve ainda o disco infantil gravado com o sempre razoável Saulo Fernandes. Com canções do nível e qualidade de Funk do Xixi, esse álbum é a flecha no calcanhar de qualquer Aquiles e merece cair nas graças da Inquisição.
A apresentação de ontem foi uma etapa importante da carreira de Ivete...da carreira dela aqui no Brasil. Com um nome consolidado e um espaço intocável, Ivete tem todo poder e legitimidade para continuar cantando Sorte Grande, Pererê e afins por todo país. Mas se de fato tem como pretensão ser um artista do mundo, já se viu que, com todo respeito e amor pelo carnaval baiano, ser somente Barra – Ondina ainda é muito pouco para qualquer Big Apple.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
De Janeiro a Janeiro
Como se retoma a vida que se tinha outrora?
Como se continua a viver quando, lá no fundo do coração, se
começa a perceber que não se pode voltar atrás?
Que há coisas que o tempo não cura...
Como se continua a viver quando, lá no fundo do coração, se
começa a perceber que não se pode voltar atrás?
Que há coisas que o tempo não cura...
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