Ontem, 23, no mesmo dia em que conversava com uma amiga antropóloga sobre as relações raciais no Brasil, um ato de racismo (e tantos outros certamente desconhecidos) acontecia em Salvador. O episódio, relatado a posterior pela mãe da criança, dilacera novamente essa ferida temida e nem sempre ocultada da nossa sociedade. Minha amiga, na ocasião, contava da experiência impactante de ser confrontada com essa realidade em Brasília - ela é baiana, mas mora nesse lugar -, e do fato de ter sido impelida pela faca de dois gumes Unb-Branquitude a se recolocar na posição de mulher negra. Ou de, pelo menos, tentar entender-se dentro de uma determinada realidade regida sobre um determinado fenômeno.
Descontando um pouco o ranço de militância e o calor do momento (tanto o simbólico, oriundo da raiva da notícia, quanto o material, já que Salvador se aquece novamente), a verdade é que, nesse país, sempre que surge um conflito ou impasse e a nossa capacidade de vigilância epistemológica identifica o racismo estruturante no cerne do problema, as pessoa torcem o nariz e se afugentam do bicho papão que é o debate sobre raça. Pode ser qualquer coisa, menos racismo. Não interessa se é um negro da periferia versus um branco da classe alta discutindo, sei lá, no trânsito. Nunca haverá nessa passagem o recorte racial, só ditames normais de um cotidiano agitado de qualquer metrópole.
Na universidade, espaço que uma dúzia de babacas embevecidos consideram o berço da liberdade e da resistência contra o mundo cruel e burguês, é extremamente comum a reprodução das relações racistas. Dentro da sala de aula, inclusive, costuma vir apimentada com doses indigestas de sexismo e de discriminação por gênero. Minha amiga relatava o episódio de um professor branco, muito bem financeiramente, de formação acadêmica européia, que, apesar dos traços inequívocos de competência, se relacionava quase que "naturalmente" com os alunos de semelhante matriz sóciocultural. Alunos cujo pertencimento etnicossocial incidia sobre a classe média, intelectualizada nos moldes europeus, com vivências semelhantes a do referido professor. Com esse setor, a abertura e o diálogo eram mais intensos. Enquanto isso, no fundo da sala, três ou quatro jovens negros da periferia, cotistas, assistiam as aulas de forma impassível, acompanhando os conteúdos, os textos, mas sem se pronunciar publicamente na disciplina em questão. As suas vivências não tinham eco nem poder de fogo nem diálogo sobre o que estava sendo exposto, logo silenciavam-se.
Daí, surgem algumas considerações ardilosas, mas necessárias: existe um conflito racial nesse contexto? Existe. Racismo estruturante? Sim. As pessoas, em geral, achariam isso? Não. Na verdade, a leitura hegemônica se pauta em questões de afinidade, de interesse acadêmico, de compromisso com os estudos e com a participação, e todos aqueles argumentos meritocráticos dos espaços universitários que conhecemos. Todos, evidentemente, exalando cheiro de opressão. Nesse caso, por exemplo, a cor da pele, ao longa da trajetória de cada um, foi fator determinante para que algumas experiências fossem vividas e outras não, foi também aglutinando e dispersando determinados laços sociais, excluindo de contexto para submeter em outros, etc. Então, o fato dos jovens negros estarem a parte na sala não é normal, não pode ser naturalizado. Tem uma história por trás disso, existe um passado que permitiu ao professor e ao grupo de alunos da frente uma formação mais robusta, do ponto de vista acadêmico, e aos três jovens não. Mas eles estão lá dentro, inseridos, e sua própria existência já é uma provocação e uma forma declarada de subversão histórica.
Para não falar no caso da menina negra que foi segunda colocada em todas as etapas da seleção de mestrado e perdeu exata e coincidentemente na entrevista com a banca examidadora e outros casos da UNB e do país, reproduzo o episódio de discriminação racial num Salão de Beleza aqui em Salvador, onde a maioria esmagadora é negra e onde racismo só existe na cabeça das pessoas. Das pessoas negras, claro. E de cabelos trançados.
SALÃO DE BELEZA NEGA-SE A CORTAR CABELO DE CRIANÇA NEGRA
Funcionários do “Salão Fascínio”, localizado no andar térreo do Shopping Itaigara, em Salvador, recusaram-se hoje, dia 23 de setembro, a cortar o cabelo de uma criança negra, de seis anos, recomendando a mãe que “passasse a máquina”, pois aquele cabelo “não dava para ser cortado, nem desembaraçado”. A mãe da criança, a jornalista Márcia Guena, acusou os funcionários e a dona do salão de racismo e logo procurou a administração do shopping para formalizar a denúncia. Neste caso configura-se um duplo crime por tratar-se de racismo e de violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por expor uma criança a uma situação vexatória.
Acompanhado da mãe, o menino M.S.G.S.O. entrou no salão por volta das 18:30, do dia 23 de setembro, quando Guena solicitou ao único funcionário homem do salão, para quem foi indicada pela atendente Selma (a qual foi identificada como dona do salão), um corte estilo “black”, mas não muito alto. O funcionário então respondeu que para “aquele cabelo” só dava para “passar a máquina”. A mãe então disse: “eu não solicitei que passem a máquina, mas que cortem o cabelo do meu filho. Eu já indiquei o corte que desejo”. O atendente repetiu: ”só dá pra passar a máquina”. Guena retirou a criança da cadeira e saiu imediatamente do salão para não expor a criança a uma discussão motivada pelo racismo explícito. Mas diante da violência cometida contra a criança, que foi exposta a uma situação vexatória, e a recusa de cortar o cabelo de um negro, a mãe voltou com a finalidade de procurar a gerente e formalizar a denúncia de racismo.
Ao retornar, Guena disse para Selma que a recusa em cortar o cabelo de seu filho configurava-se racismo, um crime inafiançável e que iria formalizar a denúncia junto ao Ministério Público. Selma, identificada como Maria Tavares de Oliveira, contestou dizendo que a mãe estava errada e que seus funcionários disseram que não sabiam cortar o cabelo da criança e que seria muito difícil desembaraçá-lo. Por isso, só poderiam passar a máquina, insistindo na resposta inicial do funcionário.
A mãe retirou-se do local e procurou a administração do Shopping. Guena foi recebida por Alda, que se identificou como administradora, e reconheceu a gravidade do problema, confirmando tratar-se sim de uma situação de racismo. Imediatamente ligou para Selma (Maria Tavares Oliveira) reclamando da forma como foi realizado o atendimento.
CONTATOS:
Márcia Guena (mãe) – 8788 9991
Aspri (pai) – 8876 4445
Alda (administradora do shopping Itaigara) 99812452 ou 32708900
Salão Fascínio – Selma (Maria Tavares de Oliveira)
Trecho da resposta da socióloga Vilma Reis, militante do movimento negro:
"Eles querem nos pisar e contar com o nosso silêncio, nossa complacência. Minha i
rmã, tem gente que acha que somos exageradas, esquisitas, barulhentas e que
não é mais preciso falar do racismo e nossas feridas abertas na sociedade,
mas quando vivemos e saimos para cortar o cabelo, fazer pós graduação,
entrar no banco o racismo informa que mora ao lado...Diga a seu filho que
você está com ele e que nossos ancestrais não dormem...Eles não passarão!" .

Um comentário:
Excelente leitura.
Abraços a todos.
Márcia Guena
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