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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cotas na UFRGS


"Quando o negro fala, lá vem o negro reclamando. Agora, quando é o branco, está sendo politicamente correto", açoitou sob lágrimas Margareth Menezes num Festival de Verão da vida qualquer. Bem Maga, a gente concorda em 98% dos casos. O texto que segue faz parte dos 2% que nos sobram. Se tem preguiça de ler todo - eu sei que tem- vou destacar a parte mais importante. É a que mostra como os brancos, mesmo sem se darem conta, são naturalmente privilegiados somente por serem....brancos.  Eu sei que é o segundo texto sobre racismo em menos de, sei lá,  5 dias. Mas, nesse período, deu tempo de ir à praia, ir ao samba, dançar na Confraria, ir ao teatro e até de namorar. 

Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 
Ter, 14 de Setembro de 2010 01:22 Educacao - Cotas no STF
Este texto é um manifesto escrito e subscrito por brancos que compõem a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele é uma retumbante admissão pública, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclusão estrutural de negros e indígenas dos benefícios e espaços de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, é produzida uma teia de privilégios a nós brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa convivência. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando não queremos ser. O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. É pelo reconhecimento destes privilégios que marcam toda nossa existência, mesmo que nós brancos não os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprovação de Ações afirmativas de Reparação às populações negras e indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.

A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje? 

O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!

Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?


Vamos apresentar uma breve listinha de circunstâncias em nossas vidas que expõem nossos privilégios de brancos e que, embora não percebêssemos, embora os víssemos apenas como relações naturais para nós, por sermos pessoas normais e "de bem", foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por não serem vivenciados também por negros e indígenas, seu resultado é fazer com que seja tão desproporcional o número destas populações dentro da UFRGS, por exemplo):                                                                                                      
1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele não faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no ônibus, nas lojas, etc;
2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manutenção de um emprego;
3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu salário fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma função;
4) Posso ligar a televisão e ver pessoas de minha raça em grande número e muitas em posições sociais confortáveis e que me dão perspectivas para o futuro;
5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas da minha raça;
6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a história dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais segurança de quem sou e pra onde posso ir;
7) Nunca precisei ouvir que no meu estado não existiam pessoas da minha raça; 8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele;
9) Já fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha raça fosse um elemento que reforçasse minha possível condenação;
10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha raça posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura;
11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha raça;
12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de "brincadeira";
13) Sempre tive professores da minha raça;
14) Nunca me senti minoria em termos da minha raça, em nenhuma situação;
15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci até hoje eram da mesma raça que eu;
16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranqüilo de que ninguém relacionará isso com minha raça;
17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ninguém ligue isso a minha raça;
18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui forçado a falar em nome de minha raça, carregando nas costas o peso de representar 45% da população brasileira; 19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha infância, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo;
20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele não seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou estágio;
21) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão racial" não serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal;
22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convicção de que a cor da minha pele não fará com que meu tratamento sofra dificuldades;
23) Posso fazer minhas atividades seguro de que não experienciarei sentimentos de rejeição a minha raça.

Esta realidade destroça meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida não foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha raça, assim como fechadas a outras pessoas. A opção de falar ou não em privilégios dos brancos já é um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privilégios dos brancos são estruturais, as ações contra o racismo devem ser também estruturais. Racismo não é preconceito: racismo é preconceito mais poder. Se não forçarmos mudanças nas relações e posições de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou não vai "cortar na própria pele" o racismo que até hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu próximo vestibular? Se mantivermos o vestibular "cego às desigualdades raciais" estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que nós mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.

Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Respeitem meus cabelos, brancos (com ou sem vírgula)


Ontem, 23, no mesmo dia em que conversava com uma amiga antropóloga sobre as relações raciais no Brasil, um ato de racismo (e tantos outros certamente desconhecidos) acontecia em Salvador. O episódio, relatado a posterior pela mãe da criança, dilacera novamente essa ferida temida e nem sempre ocultada da nossa sociedade. Minha amiga, na ocasião, contava da experiência impactante de ser confrontada com essa realidade em Brasília - ela é baiana, mas mora nesse lugar -, e do fato de ter sido impelida pela faca de dois gumes Unb-Branquitude a se recolocar na posição de mulher negra. Ou de, pelo menos, tentar entender-se dentro de uma determinada realidade regida sobre um determinado fenômeno. 

Descontando um pouco o ranço de militância e o calor do momento (tanto o simbólico, oriundo da raiva da notícia, quanto o material, já que Salvador se aquece novamente), a verdade é que, nesse país, sempre que surge um conflito ou impasse e a nossa capacidade de vigilância epistemológica identifica o racismo estruturante no cerne do problema, as pessoa torcem o nariz e se afugentam do bicho papão que é o debate sobre raça. Pode ser qualquer coisa, menos racismo. Não interessa se é um negro da periferia versus um branco da classe alta discutindo, sei lá, no trânsito. Nunca haverá nessa passagem o recorte racial, só ditames normais de um cotidiano agitado de qualquer metrópole. 

Na universidade, espaço que uma dúzia de babacas embevecidos consideram o berço da liberdade e da resistência contra o mundo cruel e burguês, é extremamente comum a reprodução das relações racistas. Dentro da sala de aula, inclusive, costuma vir apimentada com doses indigestas de sexismo e de discriminação por gênero. Minha amiga relatava o episódio de um professor branco, muito bem financeiramente, de formação acadêmica européia, que, apesar dos traços inequívocos de competência, se relacionava quase que "naturalmente" com os alunos de semelhante matriz sóciocultural. Alunos cujo pertencimento etnicossocial incidia sobre a classe média, intelectualizada nos moldes europeus, com vivências semelhantes a do referido professor. Com esse setor, a abertura e o diálogo eram mais intensos. Enquanto isso, no fundo da sala, três ou quatro jovens negros da periferia, cotistas, assistiam as aulas de forma impassível, acompanhando os conteúdos, os textos, mas sem se pronunciar publicamente na disciplina em questão. As suas vivências não tinham eco nem poder de fogo nem diálogo sobre o que estava sendo exposto, logo silenciavam-se.

Daí, surgem algumas considerações ardilosas, mas necessárias: existe um conflito racial nesse contexto? Existe. Racismo estruturante? Sim.  As pessoas, em geral, achariam isso? Não. Na verdade, a leitura hegemônica se pauta em questões de afinidade, de interesse acadêmico, de compromisso com os estudos e com a participação, e todos aqueles argumentos meritocráticos dos espaços universitários que conhecemos. Todos, evidentemente, exalando cheiro de opressão. Nesse caso, por exemplo, a cor da pele, ao longa da trajetória de cada um, foi fator determinante para que algumas experiências fossem vividas e outras não, foi também aglutinando e dispersando determinados laços sociais, excluindo de contexto para submeter em outros, etc. Então, o fato dos jovens negros estarem a parte na sala não é normal, não pode ser naturalizado. Tem uma história por trás disso, existe um passado que permitiu  ao professor e ao grupo de alunos da frente uma formação mais robusta, do ponto de vista acadêmico, e aos três jovens não. Mas eles estão lá dentro, inseridos, e sua própria existência já é uma provocação e uma forma declarada de subversão histórica. 

Para não falar no caso da menina negra que foi segunda colocada em todas as etapas da seleção de mestrado e perdeu exata e coincidentemente na entrevista com a banca examidadora e outros casos da UNB e do país, reproduzo o episódio de discriminação racial num Salão de Beleza aqui em Salvador, onde a maioria esmagadora é negra e onde racismo só existe na cabeça das pessoas. Das pessoas negras, claro. E de cabelos trançados. 

SALÃO DE BELEZA NEGA-SE A CORTAR CABELO DE CRIANÇA NEGRA

Funcionários do “Salão Fascínio”, localizado no andar térreo do Shopping Itaigara, em Salvador, recusaram-se hoje, dia 23 de setembro, a cortar o cabelo de uma criança negra, de seis anos, recomendando a mãe que “passasse a máquina”, pois aquele cabelo “não dava para ser cortado, nem desembaraçado”. A mãe da criança, a jornalista Márcia Guena, acusou os funcionários e a dona do salão de racismo e logo procurou a administração do shopping para formalizar a denúncia. Neste caso configura-se um duplo crime por tratar-se de racismo e de violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por expor uma criança a uma situação vexatória.

Acompanhado da mãe, o menino M.S.G.S.O. entrou no salão por volta das 18:30, do dia 23 de setembro, quando Guena solicitou ao único funcionário homem do salão, para quem foi indicada pela atendente Selma (a qual foi identificada como dona do salão), um corte estilo “black”, mas não muito alto. O funcionário então respondeu que para “aquele cabelo” só dava para “passar a máquina”. A mãe então disse: “eu não solicitei que passem a máquina, mas que cortem o cabelo do meu filho. Eu já indiquei o corte que desejo”. O atendente repetiu: ”só dá pra passar a máquina”. Guena retirou a criança da cadeira e saiu imediatamente do salão para não expor a criança a uma discussão motivada pelo racismo explícito. Mas diante da violência cometida contra a criança, que foi exposta a uma situação vexatória, e a recusa de cortar o cabelo de um negro, a mãe voltou com a finalidade de procurar a gerente e formalizar a denúncia de racismo.

Ao retornar, Guena disse para Selma que a recusa em cortar o cabelo de seu filho configurava-se racismo, um crime inafiançável e que iria formalizar a denúncia junto ao Ministério Público. Selma, identificada como Maria Tavares de Oliveira, contestou dizendo que a mãe estava errada e que seus funcionários disseram que não sabiam cortar o cabelo da criança e que seria muito difícil desembaraçá-lo. Por isso, só poderiam passar a máquina, insistindo na resposta inicial do funcionário.

A mãe retirou-se do local e procurou a administração do Shopping. Guena foi recebida por Alda, que se identificou como administradora, e reconheceu a gravidade do problema, confirmando tratar-se sim de uma situação de racismo. Imediatamente ligou para Selma (Maria Tavares Oliveira) reclamando da forma como foi realizado o atendimento.

CONTATOS:
Márcia Guena (mãe) – 8788 9991
Aspri (pai) – 8876 4445
Alda (administradora do shopping Itaigara) 99812452 ou 32708900
Salão Fascínio – Selma (Maria  Tavares de Oliveira)

Trecho da resposta da socióloga Vilma Reis, militante do movimento negro:

"Eles  querem nos pisar e contar com o nosso silêncio, nossa complacência. Minha i
rmã, tem gente que acha que somos exageradas, esquisitas, barulhentas e que
 não é mais preciso falar do racismo e nossas feridas abertas na sociedade,
 mas quando vivemos e saimos para cortar o cabelo, fazer pós graduação,
entrar no banco o racismo informa que mora ao lado...Diga a seu filho que
você está com ele e que nossos ancestrais não dormem...Eles não passarão!" .

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Uganda é como o mundo todo

Quando o Fantástico exibiu ontem a reportagem sobre a perseguição dos gays em Uganda e, de um modo geral, no continente africano, não deu para contar quantos machões brasileiros coçavam o saco e se regozijavam com o projeto de lei que prevê pena de morte para homossexuais assumidos. É sempre recorrente, até pela facilidade de expor as feridas alheias, mostrar no outro os seus piores e mais graves defeitos. No Ocidente, externalizar a superioridade cultural, política e cognitiva não é exatamente um recurso novo, embora, com uma freqüência assustadora precisamos admitir, as roupagens tornam-se mais finas. 

Como é sabido por metade das pessoas que concluíram razoavelmente bem o segundo grau, o pressuposto de que o homem, branco, europeu está notadamente há anos luz de qualquer outro povo foi exatamente o pretexto necessário para estraçalhar com a África. Começou no século XVI com os ibéricos e terminou (?) no século XX com a concretização da repartição africana pelo Velho Mundo, pensada nos anos de 1870, com a Conferência de Berlim e sumariamente executada nos idos da Primeira Guerra.

Tendo em vista que o imperialismo das potências ocidentais e todas as demais políticas/estratégias de controle da África marcaram a constituição cultural daqueles povos é, minimamente, curioso que o Ocidente busque se eximir de sua culpa quando ele mesmo pinta o quadro de vulnerabilidade, autoritarismo e desgraças ininterruptas que se abatem sobre o continente. No momento em que abomina a legislação de Uganda é indissociável a visão determinista que cerceia nossas concepções acerca do povo africano: selvagens, atrasados e abomináveis. E, certamente não é por radicalismo infantil, mas pela história que se passa, que não dá para se furtar sobre as questões raciais.

Afinal, existiriam outros termos para chamar os jovens universitários da Faculdade de Farmácia da Usp que incitaram os colegas a jogarem “merda” nos “viados” senão de selvagens, atrasados e abomináveis? Certamente não. Mas a nossa moral torta de classe média católica pedófila, no máximo, consegue arrancar apenas comentários de tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto, um mal entendido sem intenções de fomentar a homofobia. E o que dizer da bomba jogada no final da parada gay de São Paulo no ano passado? E dos grupos neozistas que assolam o continente europeu? E dos grupos conservadores dos Estados Unidos que preferem 10 torres gêmeas caindo no meio de Nova York a ter um gay no Congresso Nacional?

No final de Manderlay, trilogia de Lars Von Trier sobre a sociedade capitalista, Gracie, a mocinha branca, ao ver seus esforços de ajudar no desenvolvimento e emancipação de uma comunidade negra, que supostamente não quer ser ajudada nem emancipada, minguarem, toma pelas mãos o chicote e açoita-os no tronco. Num ato de fúria que parece justificar-se frente a selvageria e atraso daquelas pessoas, Gracie, fielmente representada na boa interpretação de Bryce Dallas, desconta sobre eles as suas verdades. Ao passo que o negro chicoteado, olha solenemente para ela e esclarece: “Só não esquecem de que foram vocês que fizeram isso com a gente”.

O que nunca é percebido no sublime absurdo alheio é o nosso próprio absurdo. Apesar de milhões nesse país e nesse mundo branco ocidental terem aprovado com louvor as medidas desastrosas do parlamento de Uganda, que ainda nem foram de fato aprovadas, o inferno é sempre os outros. E na história do mundo que nos contam, o inferno é sempre a África. Das boas intenções do Ocidente, o mundo já está cheio.



domingo, 22 de novembro de 2009

No reino da beleza


"Gente bonita" é possivelmente a expressão mais sutil que a classe média usa para expressar seu desagrado com gente preta de cabelo trançado. Tocar novamente no âmago do racismo pode até parecer repetitivo e apelativo, já que estamos no novembro negro. O mote para esse escrito, no entanto, é a recorrência com que escuto alguns desorientados de fora da Bahia (ou de dentro) se espantarem com a suposta feiúra do povo, especificamente, daqueles que circulam pelo Pelourinho, Cidade Baixa e Invasões. Preliminarmente, a acusão genérica não tem eco numa realidade que é tão plural e diversa. Notem que não estou caindo no simplismo de apenas dizer que na Bahia não há feios, se é que podemos lidar com essa terminologia. O meu exercício aqui é destrinchar que por trás dessa fala se esconde uma ideologia. É o que Roland Barthes trata no seu texto clássico Mitologias. Dizer que os baianos são feios esvazia de historicidade o conceito de beleza, de negritude e de afirmação da cultura. Mas, ao esvaziar de sentido, produz a ressignificação. E aí, crescem as raízes da discriminação racial.

Percebam que se a festa cool, com convidados da classe média e alta, tem "gente bonita", de antemão nós sabemos que se trata da branquitude subserviente ao modelo hegemônico de beleza. Por outra via, se o aglomerado humano se balança ao som do pagode e deixa ao vento seu rastafari a primeira coisa dita é: "deus me livre! Só tem gente feia e pancadaria". O que pode ser traduzido, sem nenhuma reserva, como só tem preto. Entretanto, no Brasil, racismo bom é racismo estrututante. É aquele que se esconde na base das instituições e que se firma nos laços societários com poucos vestígios de sua presença. Somente um olhar apurado torna capaz de desnudar a falsa naturalidade. É, precisamente por essa razão, que quando alguém fala só tem "gente bonita", o sujeito constituído não se sente racista - ele consegue distinguir pessoas belas das feias porque sabe, por exemplo, que a Mãe Menininha é feia, a Deusa do Ébano é exótica e Gisele Bunchen é bonita.

Se racismo nesse país é coisa de negro, eu como um, quero ser racista pra dizer: na Bahia só tem gente bonita.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Viver a vida


Na semana da Consciência Negra, Manoel Carlos deu o seu recado para a militância e simpatizantes da causa: continua tudo igual. Para não cair no sectarismo, quase tudo igual. A mucama comete um crime do qual não é culpada, pede perdão à senhora e, não suficientemente humilhada, se ajoelha para receber uma bofetada violenta. A personagem açoitada chama-se Helena, nome cuja tradição nos nossos canônes literários e televisivos remete a uma senhora branca e elitista. A cena se desenrola com hostilidade e com uma ameaça velada: ou se comporta ou vai pro tronco.

Não, a novela não se passa no século XVII. A Helena, de Manoel Carlos, é uma mulher pós-moderna e pós-racial. Aqui os rótulos não são meramente adjetivos, mas uma liguagem extremamente refinada, pensada e naturalizada para esconder o racismo estruturante e celebrar, sem o menor constrangimento, o mito da democracia racial. Escapando do combate, Gilberto Freire vive. Talvez o maior celeuma deixado de legado pelo episódio é o reforço veemente à ideia de que o senso de justiça, que nesse caso nem existe, é muito superior as questões raciais, e que, consequentemente, são dois polos intocáveis. Ora, é a história e o presente que nos mostram o quanto esses elementos estão tão intimamente vinculados ,que é impossível dissociá-los sem afetar consideravelemente o outro.

Manoel Carlos despreza estupidamente a realidade em nome de sua ficção que, curiosamente, se pretende ser realista. Respeito a licença poética e a criação, embora não respeite o silêncio frente ao racismo. Poderíamos mesmo imaginar o contrário? Subverter essa relação? Se a negrinha estivesse no lugar de Tereza, e o golpe fosse desferido contra a mulher branca, a moral e os bons costumes mandariam surrá-la na primeira esquina. E, como no Leblon, as pessoas confundem atores com personagens, Thaís Araújo correria o risco de ser massacrada na vida real. Essa sempre foi a forma deles de sufocarem o que é da ordem da historicidade. Foi o negro brutalmente escravizado e ojerizado. E foi também, na dura resistência de 5 séculos, que estamos vivos pra contar uma outra novela. O tapa foi dado em Helena, mas doeu em todos nós.