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domingo, 5 de setembro de 2010

Difícil é fazer diferente



Depois que as mais de 17 câmeras de última geração instaladas em pontos estratégicos do Madison Square Garden, em Nova York, foram desligadas e que a tsunami da euforia levou para casa os 15 mil pagantes de ontem, dia 4 de setembro, é oportuno (e justo) pensar na carreira de Ivete Sangalo. Falado por 11 em cada 10 veículos de comunicação do país, o espetáculo foi, sem dúvidas, o show mais esperado de 2010. Com tantos elogios e, evidentemente, demonstrações explícitas de puxa-saquismo, Ivete pretendia, com esse trabalho, ser um marco brasileiro dentro da cultura de massa americana – algo feito, dentro de seus respectivos quadrados e gêneros , claro,  por outro juazeirense, João Gilberto, nos anos de 1950 com a bossa-nova.
Embora se tentasse recobrar, digamos, a lucidez diante de tantas expectativas e devaneios dos milhões de fãs que tem no Brasil, ninguém, nem Ivete, nem Jesus, nem a Caco de Telha, nem mesmo a TAM, escondia que esse seria o salto mais desafiador de sua carreira e a possibilidade ímpar de abrir as portas, ainda muito restritas para a sua música, no exterior. De fato esse era e continua sendo o desafio imposto e que, a julgar pela noite de ontem, está bem longe de ser superado.
Com investimentos batendo a marca dos R$ 5 milhões (Quantos podem bancar essa cifra?), o show no Madison poderia ter primado pela ousadia, pela inovação. Se foi um risco empregar tanto capital (simbólico e material), que, pelo menos, o risco fosse vivido até a última gota. Se foi um desafio e todas essas incontáveis pessoas coadunaram com a possibilidade de enfrentá-lo que se buscassem saídas mais criativas e mais originais. O que se viu,entretanto, pelos vídeos já lançados na internet, pelas informações presentes nos principais meios na manhã desse domingo, é que Ivete optou pelo mais do mesmo, pelo caminho mais seguro e do retorno garantido.
Feijão com Arroz
Mesmo com todos os efeitos, da cenografia, da montagem e de todo preparo exigido na composição do show, a sua essência foi a mesma que a de outros. As canções, inclusive, se repetiam sucessivamente. Certo que num estilo que ainda se pauta pelo “pula, sai do chão”, música conhecida é o elemento mágico infalível para encher de alegrias mil qualquer televisor. Apesar disso, num cenário em que pouco se cria de novo e que, paralelamente, tanto clama por novidades e tem sede de inovação, a ousadia de dominar o público pela surpresa é o que pode, aparentemente, garantir boas transformações e novas musicalidades. Pelo menos, é isso que se atesta nos últimos 60 anos da música popular brasileira. 
Não é que estejamos aqui repetindo os argumentos superficiais, pueris, de que é vendida ao sistema, de que é produto, de que é caça-níquel. Da indústria cultural, nem o Teatro Mágico, que diz sobreviver com bilheteria e venda própria de cd’s, escapa. Isso, creiam, nunca foi necessariamente ruim – exceto para Adorno e para a Teoria Crítica. Tantos outros que se vendem como alternativos são muitos mais submissos e entregues aos ditames do mercado do que Veveta.  Até porque sejamos realistas:  se existe alguém que pode dizer o que quer e o que não quer fazer, hoje, na música brasileira, esse alguém tem nome e residência fixa no Campo Grande, em Salvador (E, não, não é Gal Costa). Não desmerecendo seu talento, mas é desse contexto que surge a frustração.
Frustração pelo feijão com arroz – já tomando parte aqui do álbum homônimo de Daniela para um inevitável e sempre temida palavra: comparação. Costuma-se dizer, na Bahia, que La Mercury é parâmetro para as demais. Longe das rivalidades levianas e da troca de farpas dos fãs mais ardilosos, as comparações quase sempre precisam aparecer para termos referências. E o que a gente nota é que não ter medo de vaias, não ter receio de críticas dissonantes e de entrar num círculo “onde-queres-leblon-sou-pernambuco” é um passo necessário para a reciclagem do artista e da sua própria arte. Por trazer as velhas fórmulas e inserí-las em algo que só é grandioso pelos valores monetários aplicados, essa virada que Ivete poderia trazer foi, novamente, adiada. A cobrança poderia ser exagerada se esse trabalho não se propusesse a tantas complexidades: é uma mulher, latina, nos Estados Unidos, cantando basicamente em português, num formato diferente das ‘divas americanas’, etc e tal - sendo ela, inclusive, melhor do que a maioria desses produtos esterializados.  
Tem seu preço inovar? Claro que sim. Pode sucumbir na sua própria loucura ‘vanguardista’? Pode. Pode desagradar fãs, pode até perdê-los, pode conquistar inimigos? Pode.  E ser rotulada de perdida e outras expressões não tão nobres? Certamente será. Mas esse também  pode ser um preço justo em nome do compromisso que se tem com a sua arte, com sua criação, com a cultura, enfim, com o seu povo. Quando se tem compromisso com isso, que fique claro.
Talvez o temor de uma aparição discreta ou de uma carreira internacional fugaz tenham impelido para que a sua inserção recaísse sobre a colônia de brasileiros.  Não são poucas as  tentativas mal-sucedidas de nossos artistas . Vencer uma barreira de preconceitos não é suficiente: é preciso mostrar qualidade, dialogar musicalmente com quem nada entende de sua língua. Desse pecado, por exemplo, padeceu a dupla Sandy & Junior, engolidos pelo desequilibrado tripé da maturidade, da originalidade e da criatividade.
Reinventar as formas
É inegável que a sua trajetória na música brasileira tem sido vitoriosa. Depois de lançar-se solo, no momento em que o Axé Music dava passos vacilantes, Ivete traçou um rápido caminho para o posto de mais importante artista do show business brasileiro. Rápido, nesse caso, é pura modéstia: foi avassalador mesmo. Aproveitando o excelente momento em 2002, com a vitória surpreendente do Brasil na Copa da Coréia e do Japão, cravou nos corações e mentes dos 180 milhões de brasileiros a música Festa. Em seguida, as multidões que a seguiam no carnaval da Bahia, a acompanharam nas maratonas dos estádios brasileiros: primeiro o disco da MTV, na Fonte Nova (último gravado lá antes da demolição) e, logo depois, o DVD Ao Vivo no Maracanã, uma mega produção raramente vista no país.  Uma pausa para o suspiro e para a gravidez e veio o singelo Pode Entrar, que entrou no mercado fonográfico superando, em definitivo, qualquer dúvida sobre a força de Ivete.  Nesse ínterim, teve ainda o disco infantil gravado com o sempre razoável Saulo Fernandes. Com canções do nível e qualidade de Funk do Xixi, esse álbum é a flecha no calcanhar de qualquer Aquiles e merece cair nas graças da Inquisição.
A apresentação de ontem foi uma etapa importante da carreira de Ivete...da carreira dela aqui no Brasil. Com um nome consolidado e um espaço intocável, Ivete tem todo poder e legitimidade para continuar cantando Sorte Grande, Pererê e afins por todo país. Mas se de fato tem como pretensão ser um artista do mundo, já se viu que, com todo respeito e amor pelo carnaval baiano, ser somente Barra – Ondina ainda é muito pouco para qualquer Big Apple.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Mais do Mesmo 2: o debate que ninguém acredita


O primeiro encontro dos presidenciáveis ontem, quinta-feira, na Band, pintou a nossa televisão de cores mornas, enchendo de sono corações e mentes. O que poderia marcar uma nova etapa nas discussões políticas, com a ausência de Lula, presente em todos os debates na recente democracia brasileira, não tardou em mostrar carências de ideias, falta de efervescência nas críticas e alguma razão minimamente convincente que nos faça, no dia 3 de outubro, não apertar 00 e confirmar.

Não se trata de apostar que os outros debates tenham sido melhores, mais profundos e enérgicos. A questão é que, nesse momento em que tudo aponta para a descrença das instituições, para a falência de um paradigma em que já não se cria e já não se confia, esperar dos candidatos razões novas e sede de transformação radical do que aí está seria, no mínimo, uma forma de compensação ao eleitorado – tanto o que assistiu ao debate quanto àquele mais esperto, que dormiu.  Ouvir que a saúde e a educação precisam ser melhoradas porque são os pilares capazes de....zzzZZZ, nós já sabemos. Ouvir que segurança pública não se resolve somente como policiais armados, bala e ocupação de favela, mas com educação...zzzzZZZZ, nós também já sabemos – embora nunca entendamos porque as políticas de segurança pública sempre estão dissociadas das políticas de educação e continuam assumindo como prática que jovem negro da periferia bom é jovem negro da periferia morto.  Aceitamos impassíveis essa conversinha mole quando elas partem dos incontáveis candidatos a deputado estadual ou federal – quando a maioria deles, desempregados a procura de um dinheiro fácil, acham conveniente e de bom tom falar em termos simplistas sobre esses temas de apelo social. Mas, se temos a pretensão de contrariar Charles de Gaulle, e ser uma nação séria, não podemos engolir isso das pessoas que querem administrar a nossa soberania.

Enquanto isso, no auditório em São Paulo, vimos a candidata do governo se apoiar inseguramente nos feitos da sua gestão. Dilma-gaga parecia ter uma ânsia desesperada de mostrar resultados em todos os âmbitos, esquecendo-se de que não estava ali como mera prestadora de contas. Acontece é que, num governo tão cheio de contradições, com articulações tão amplas entre deus e o diabo, é comprometedor tentar abraçar tudo com conhecimento de causa. É um tiro no pé. E Dilma saiu mancando. Do outro lado, um José Serra tímido, contido, feito de uma resignação que coaduna com a necessidade velada também de se proteger do desastre que representou a Era F.H.C, da qual foi um árduo defensor. O PSDB ‘evoluído’, quase paz e amor, não é amadurecimento, mas sim a conseqüência de um partido moralmente degenerado, incapaz de ecoar os anseios populares e tratando o Brasil como se fosse aquilo que não é São Paulo – o resto.

Plínio é tendência. Só no Twitter, claro.

Acompanhei a repercussão do debate pelo twitter. O maior sucesso por lá foi a participação de Plínio de Arruda Sampaio. Com uma longa trajetória de luta nos movimentos sociais, ele foi o bobo da corte da noite. Um bobo da corte que fazia graça, evidentemente, pela ingenuidade feroz. Era o candidato necessário para desestabilizar a troca de afagos e de eu-fiz-e-vou-fazer-muito-mais dos demais presentes. Embora tenha feito a graça pelo dissenso, do ponto de vista do projeto político que Plínio representa – a esquerda dita socialista – sua intervenção foi um fracasso sem precedentes. E mais do que isso, causou tanta surpresa que as roupas brancas da executiva do PSOL devem ter enrubescido. O Plínio que eu conhecia, muitas vezes ao vivo, era um senhor de muitas ideias, de análises próximas da realidade, dos problemas da sociedade brasileira, alguém lúcido que lembrava os tempos mais áureos do pensamento comunista no país. Ontem, deu até vergonha. Mal conseguindo completar uma frase com sentido, repetindo de forma sistemática o feijão com arroz da esquerda de boteco meio-intelecutal, meio de esquerda, Plínio parecia desorientado até mesmo na hora de fazer as críticas e reflexões sobre o cenário de disputa política no país. O tom jocoso não raramente incidia sobre piadas desnecessárias e, por vezes,  machistas – quando da vez em que, respondendo a Marina Silva, evocou o personagem Poliana, da ‘mulherzinha ingênua’.

Surpresa boa mesmo foi ouvir Mariana – quando ela falou, claro. Nunca votei e não votarei em Marina Silva. O fato de ser evangélica e carregar uma série de preceitos arcaicos, como a questão do aborto, do casamento gay, etc, é um obstáculo do qual não tenho condições de superar.  Marina também foi a ministra que sucumbiu diante dos transgênicos, da lei de biossegurança, da transposição do São Francisco. Acreditou nesse governo até o último segundo até abandoná-lo em nome do carreirismo ou, se preferir, do oportunismo político deslavado. Vendo-a no debate embolar suas ideias com a de Dilma, está claro que Marina representa o continuísmo, mas o continuísmo que pauta suas propostas em práticas mais humanizadas.

Embora tenha todas essas reservas, o meu olhar sobre a sua fala ontem mostrou uma mulher, acima de tudo, lúcida, que não está perdida no meio dessa escuridão. Uma mulher de ideias claras, de postura firme e que parece carregar nas costas o peso de uma derrota anunciada, mas nem por isso menos significativa. Marina é a candidata que vai perder travando o bom combate. E, num país em que a derrota povoa o imaginário das nossas piores desgraças e temores, alguém ter orgulho dela a ponto de sair de cabeça em pé, com dignidade, é, no mínimo, uma qualidade louvável. Não é a toa que, mesmo em desvantagem, acredito que saiu vitoriosa do debate.

O fim da gestão de Lula nos deixou – e ontem foi um dia exemplar – com a aparente ilusão de que não há mais quadros políticos à altura, que saibam dosar carisma, competência, originalidade e capacidade de provocar reações diversas para além da monotonia. Desse engano, nós não padeceremos. Quadros existem. Gente quer criar coisas novas, quem tem sede disso, está espalhada pelos cantos brasileiros que, infelizmente, não são tão cantados assim pelas tv's, rádios e altas esferas. O que nos falta é entusiasmo e fôlegos para achá-los, para vê-los. E, embora sempre seja possível a opção do off ou do mute a  quem vê e escuta,  com tão poucas referências dormimos e acordamos com a  melancólica sensação de que toda essa estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos. 

Bom dia, sexta-feira.