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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Tão complexo quanto o alemão

Depois que a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão descobriram que o Brasil tinha um Estado e, sobretudo, passado o fulgor dos aplausos da zona sul diante da extirpação do grande mal da Cidade Maravilhosa, eis o momento de conceder as honrarias da casa ou da ocupação para as grandes estrelas de Osso Duro de Roer. Pela TV, protegido com colete a prova de balas - porque evidentemente em tempos de 3D a gente nunca sabe se a bala perdida pode achar o caminho do espectador- assisti ao desfile da competência e ouvi os discursos daqueles que tem vasto conhecimento em sociologia da Violência, repressão, consumo de drogas, narcotráfico e desigualdades sociais. Vamos às condecorações.

Marcos Uchôa: Cansado de mostrar a troca de guarda da Rainha, dos dias frios e cinzentos, optou por algo mais caloroso e emocionante nos trópicos. Depois de aportar na Baía de Guanabara, entrou numm tanque de guerra com a nobre missão de mostrar o quão difícil e inóspito era o interior da máquina: calor, balanço e excesso de homens fedidos. Diante dessa pauta importante  presenteou, com esse mesma boca de quiquita da foto, o país ao virar a estrela máxima do seriado: No Caminho dos Traficantes.: da Vila Cruzeiro ao Complexo do Alemão, dirigido por Jaime Monjardim, escrito por Sílvio de Abreu, baseado na obra quase homônima de Glória Perez. "O que você viu Uchôa?" "Encontrei pegadas , vestígios- Jurassic Park? -, encontrei cartuchos - hummm -, encontrei bonés e pedaços de camisas - quase o Bazar dos Nômades-, foi um clima de tensão - hummmm. A gente não sabia quem ia encontrar no final do caminho - o pote de ouro, talvez -  se o BOPE ou se os traficantes. A casa de luxo desse traficante - aquela que tinha a foto de Justin Bieber na parede e um piscina de fibra na laje?- deveria ser uma UPP. É simbólico, é simbólico, e deveriam ser distribuídas senhas pra essas crianças brincadeira na água". Vamos abrir uma Emenda Constitucional com essa proposta. 

Lílian Teles: Depois de meter a cabeça embaixo dos escombros em Porto Príncipe, de entrevistar soldados do exército em pleno combate com o narcotráfico e de acompanhar a invasão lado a lado, mãozinha com mãozinha com o Bope, a repórter, que já usa colete a prova de balas no lugar de sutiã flúor, trabalhará sem folgas, sem feriados ou férias em 2012. A expectativa é que ela cubra o fim do mundo. 



Ana Maria Braga: Ela assusta mais as nossas manhãs do que traficante fugindo com fuzil na mão. Conversa com um boneco de pano, se veste de Madonna, católica fervorosa, mulher batalhadora e fez parte do movimento Cansei - quando ricos brasileiros, cansados da vida dura e difícil que levavam, marcharam sobre  a Daslu com placas de diamantes externalizando o seu pesar e descontentamento com a nação e com as injustiças. O lema de sua vida será cantado por ela num duo com Sérgio Reis. Durante a guerra ao terror, tem se mantido firme no papel de Paladina da Paz. Sabe cozinhar um tema com os mesmos métodos seculares de fazer feijão com arroz. No Mais Você, ela analisou friamente o contexto do Rio de Janeiro: "Isso é uma afronta!" "Bandido é Bandido" "Vá visitar a Igreja da Penha, doe brinquedos pras crianças. Pode ser boneca velha, eles reformam. Vamos ajudar a transformar a realidade desses meninos e meninas - transformar a realidade com bonecas velhas? -. E se tiver medo, mande alguém - entenda 'alguém' como sua empregada que mora ali perto-" e, por fim, "Eu subi e desci o morro - praticamente Clementina de Jesus-"


Paula Toller: Para finalizar, a ex-Kid Abelha, a ex-cantora que teria um futuro promissor, escreveu no Twitter a sua felicidade em ver a união da Polícia Civil, Militar, Rodoviária, Federal, Exérctio, Marinha, enfim, no combate ao narcotráfico. "Nunca antes vi discurso de governo,polícia,fças armadas, intelectuais, imprensa e população tão afinados. Estará a virada,enfim,acontecendo?" Quer dizer, né, minha gente, quando a pessoa passa uma vida fazendo aquilo que ela tem prazer em fazer e outras cositas más (dá um saque na foto acima) e vem com esse papo de virada acontecendo a única coisa que cabe na minha cabeça é: REHAB. Pois diz Saint-Exupéry: Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

domingo, 5 de setembro de 2010

Difícil é fazer diferente



Depois que as mais de 17 câmeras de última geração instaladas em pontos estratégicos do Madison Square Garden, em Nova York, foram desligadas e que a tsunami da euforia levou para casa os 15 mil pagantes de ontem, dia 4 de setembro, é oportuno (e justo) pensar na carreira de Ivete Sangalo. Falado por 11 em cada 10 veículos de comunicação do país, o espetáculo foi, sem dúvidas, o show mais esperado de 2010. Com tantos elogios e, evidentemente, demonstrações explícitas de puxa-saquismo, Ivete pretendia, com esse trabalho, ser um marco brasileiro dentro da cultura de massa americana – algo feito, dentro de seus respectivos quadrados e gêneros , claro,  por outro juazeirense, João Gilberto, nos anos de 1950 com a bossa-nova.
Embora se tentasse recobrar, digamos, a lucidez diante de tantas expectativas e devaneios dos milhões de fãs que tem no Brasil, ninguém, nem Ivete, nem Jesus, nem a Caco de Telha, nem mesmo a TAM, escondia que esse seria o salto mais desafiador de sua carreira e a possibilidade ímpar de abrir as portas, ainda muito restritas para a sua música, no exterior. De fato esse era e continua sendo o desafio imposto e que, a julgar pela noite de ontem, está bem longe de ser superado.
Com investimentos batendo a marca dos R$ 5 milhões (Quantos podem bancar essa cifra?), o show no Madison poderia ter primado pela ousadia, pela inovação. Se foi um risco empregar tanto capital (simbólico e material), que, pelo menos, o risco fosse vivido até a última gota. Se foi um desafio e todas essas incontáveis pessoas coadunaram com a possibilidade de enfrentá-lo que se buscassem saídas mais criativas e mais originais. O que se viu,entretanto, pelos vídeos já lançados na internet, pelas informações presentes nos principais meios na manhã desse domingo, é que Ivete optou pelo mais do mesmo, pelo caminho mais seguro e do retorno garantido.
Feijão com Arroz
Mesmo com todos os efeitos, da cenografia, da montagem e de todo preparo exigido na composição do show, a sua essência foi a mesma que a de outros. As canções, inclusive, se repetiam sucessivamente. Certo que num estilo que ainda se pauta pelo “pula, sai do chão”, música conhecida é o elemento mágico infalível para encher de alegrias mil qualquer televisor. Apesar disso, num cenário em que pouco se cria de novo e que, paralelamente, tanto clama por novidades e tem sede de inovação, a ousadia de dominar o público pela surpresa é o que pode, aparentemente, garantir boas transformações e novas musicalidades. Pelo menos, é isso que se atesta nos últimos 60 anos da música popular brasileira. 
Não é que estejamos aqui repetindo os argumentos superficiais, pueris, de que é vendida ao sistema, de que é produto, de que é caça-níquel. Da indústria cultural, nem o Teatro Mágico, que diz sobreviver com bilheteria e venda própria de cd’s, escapa. Isso, creiam, nunca foi necessariamente ruim – exceto para Adorno e para a Teoria Crítica. Tantos outros que se vendem como alternativos são muitos mais submissos e entregues aos ditames do mercado do que Veveta.  Até porque sejamos realistas:  se existe alguém que pode dizer o que quer e o que não quer fazer, hoje, na música brasileira, esse alguém tem nome e residência fixa no Campo Grande, em Salvador (E, não, não é Gal Costa). Não desmerecendo seu talento, mas é desse contexto que surge a frustração.
Frustração pelo feijão com arroz – já tomando parte aqui do álbum homônimo de Daniela para um inevitável e sempre temida palavra: comparação. Costuma-se dizer, na Bahia, que La Mercury é parâmetro para as demais. Longe das rivalidades levianas e da troca de farpas dos fãs mais ardilosos, as comparações quase sempre precisam aparecer para termos referências. E o que a gente nota é que não ter medo de vaias, não ter receio de críticas dissonantes e de entrar num círculo “onde-queres-leblon-sou-pernambuco” é um passo necessário para a reciclagem do artista e da sua própria arte. Por trazer as velhas fórmulas e inserí-las em algo que só é grandioso pelos valores monetários aplicados, essa virada que Ivete poderia trazer foi, novamente, adiada. A cobrança poderia ser exagerada se esse trabalho não se propusesse a tantas complexidades: é uma mulher, latina, nos Estados Unidos, cantando basicamente em português, num formato diferente das ‘divas americanas’, etc e tal - sendo ela, inclusive, melhor do que a maioria desses produtos esterializados.  
Tem seu preço inovar? Claro que sim. Pode sucumbir na sua própria loucura ‘vanguardista’? Pode. Pode desagradar fãs, pode até perdê-los, pode conquistar inimigos? Pode.  E ser rotulada de perdida e outras expressões não tão nobres? Certamente será. Mas esse também  pode ser um preço justo em nome do compromisso que se tem com a sua arte, com sua criação, com a cultura, enfim, com o seu povo. Quando se tem compromisso com isso, que fique claro.
Talvez o temor de uma aparição discreta ou de uma carreira internacional fugaz tenham impelido para que a sua inserção recaísse sobre a colônia de brasileiros.  Não são poucas as  tentativas mal-sucedidas de nossos artistas . Vencer uma barreira de preconceitos não é suficiente: é preciso mostrar qualidade, dialogar musicalmente com quem nada entende de sua língua. Desse pecado, por exemplo, padeceu a dupla Sandy & Junior, engolidos pelo desequilibrado tripé da maturidade, da originalidade e da criatividade.
Reinventar as formas
É inegável que a sua trajetória na música brasileira tem sido vitoriosa. Depois de lançar-se solo, no momento em que o Axé Music dava passos vacilantes, Ivete traçou um rápido caminho para o posto de mais importante artista do show business brasileiro. Rápido, nesse caso, é pura modéstia: foi avassalador mesmo. Aproveitando o excelente momento em 2002, com a vitória surpreendente do Brasil na Copa da Coréia e do Japão, cravou nos corações e mentes dos 180 milhões de brasileiros a música Festa. Em seguida, as multidões que a seguiam no carnaval da Bahia, a acompanharam nas maratonas dos estádios brasileiros: primeiro o disco da MTV, na Fonte Nova (último gravado lá antes da demolição) e, logo depois, o DVD Ao Vivo no Maracanã, uma mega produção raramente vista no país.  Uma pausa para o suspiro e para a gravidez e veio o singelo Pode Entrar, que entrou no mercado fonográfico superando, em definitivo, qualquer dúvida sobre a força de Ivete.  Nesse ínterim, teve ainda o disco infantil gravado com o sempre razoável Saulo Fernandes. Com canções do nível e qualidade de Funk do Xixi, esse álbum é a flecha no calcanhar de qualquer Aquiles e merece cair nas graças da Inquisição.
A apresentação de ontem foi uma etapa importante da carreira de Ivete...da carreira dela aqui no Brasil. Com um nome consolidado e um espaço intocável, Ivete tem todo poder e legitimidade para continuar cantando Sorte Grande, Pererê e afins por todo país. Mas se de fato tem como pretensão ser um artista do mundo, já se viu que, com todo respeito e amor pelo carnaval baiano, ser somente Barra – Ondina ainda é muito pouco para qualquer Big Apple.