terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A palo seco

João Cabral de Melo Neto.

A palo seco é o cante
de grito mais extremo:
tem de subir mais alto
...que onde sobe o silêncio;
é cantar contra a queda,
é um cante para cima,
em que se há de subir
cortando, e contra a fibra.

A palo seco é o cante
que mostra mais soberba;
e que não se oferece:
que se toma ou se deixa;
cante que não se enfeita,
que tanto se lhe dá;
é cante que não canta,
cante que aí está.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ema Regininha

Já que tirei o dia pra rodar com as celebridades e visitei o Ego, encerro a saga falando de Harry Potter. Emma Watson, que interpreta Herminone (não trabalhamos com o adjetivo 'bruxinha'), virou mesmo o grande frisson da saga. Sabe como é, né? A pessoa despreza qualquer primeira página de tablóide inglês e todos os tablóides a colocam sempre em destaque. Não fala sobre a vida privada e basta um saidinha pra padaria que o trapo que a pessoa veste vira objeto de estudo na Vogue. Se ela pensou em largar a carreira e, sei lá, virar cirurgiã, o nome é citado 5 milhões de vezes no google nas primeiras horas e haverá quem diga que existe uma ameça coletiva de suicídio. Ok, that's fine.

Do trio, ela foi a mais talentosa. A mais simpática e a que, aparentemente, tinha absoluto domínio sobre cada passo da carreira. Controlou tudo.  Exatamente por essa cisma, perseverança e certa resistência sempre rolou aquele expectativa de quando publicariam fotos dela com pó no nariz, calcinha deixando tudo à mostra, furtos em lojas de biquinis e loucuras absurdas que perfazem o cotidiano de Lindsay's, Britney's e Amy's. Perdeu, playboy, não rolou nada disso. 

Daí que ela também entendeu que nada mais agradável do que celebridade que mostra personalidade. Que , saliente-se, efetivamente mostra personalidade. Pronto, foi lá e picotou o cabelo. Ficou lindo. Igual ao cabelo de quase todo mundo que acorda e quer testar o efeito da tesoura no cabelo. Tá, continuou lindo. Mas agora me diz: ela tá ou não tá na pegada sou-anos-70-vim-aqui-nesse-festival-cantar-uma-canção-de-Belchior: Como os Nossos Pais. Numa boa, Elis com 18 anos.

Tão complexo quanto o alemão

Depois que a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão descobriram que o Brasil tinha um Estado e, sobretudo, passado o fulgor dos aplausos da zona sul diante da extirpação do grande mal da Cidade Maravilhosa, eis o momento de conceder as honrarias da casa ou da ocupação para as grandes estrelas de Osso Duro de Roer. Pela TV, protegido com colete a prova de balas - porque evidentemente em tempos de 3D a gente nunca sabe se a bala perdida pode achar o caminho do espectador- assisti ao desfile da competência e ouvi os discursos daqueles que tem vasto conhecimento em sociologia da Violência, repressão, consumo de drogas, narcotráfico e desigualdades sociais. Vamos às condecorações.

Marcos Uchôa: Cansado de mostrar a troca de guarda da Rainha, dos dias frios e cinzentos, optou por algo mais caloroso e emocionante nos trópicos. Depois de aportar na Baía de Guanabara, entrou numm tanque de guerra com a nobre missão de mostrar o quão difícil e inóspito era o interior da máquina: calor, balanço e excesso de homens fedidos. Diante dessa pauta importante  presenteou, com esse mesma boca de quiquita da foto, o país ao virar a estrela máxima do seriado: No Caminho dos Traficantes.: da Vila Cruzeiro ao Complexo do Alemão, dirigido por Jaime Monjardim, escrito por Sílvio de Abreu, baseado na obra quase homônima de Glória Perez. "O que você viu Uchôa?" "Encontrei pegadas , vestígios- Jurassic Park? -, encontrei cartuchos - hummm -, encontrei bonés e pedaços de camisas - quase o Bazar dos Nômades-, foi um clima de tensão - hummmm. A gente não sabia quem ia encontrar no final do caminho - o pote de ouro, talvez -  se o BOPE ou se os traficantes. A casa de luxo desse traficante - aquela que tinha a foto de Justin Bieber na parede e um piscina de fibra na laje?- deveria ser uma UPP. É simbólico, é simbólico, e deveriam ser distribuídas senhas pra essas crianças brincadeira na água". Vamos abrir uma Emenda Constitucional com essa proposta. 

Lílian Teles: Depois de meter a cabeça embaixo dos escombros em Porto Príncipe, de entrevistar soldados do exército em pleno combate com o narcotráfico e de acompanhar a invasão lado a lado, mãozinha com mãozinha com o Bope, a repórter, que já usa colete a prova de balas no lugar de sutiã flúor, trabalhará sem folgas, sem feriados ou férias em 2012. A expectativa é que ela cubra o fim do mundo. 



Ana Maria Braga: Ela assusta mais as nossas manhãs do que traficante fugindo com fuzil na mão. Conversa com um boneco de pano, se veste de Madonna, católica fervorosa, mulher batalhadora e fez parte do movimento Cansei - quando ricos brasileiros, cansados da vida dura e difícil que levavam, marcharam sobre  a Daslu com placas de diamantes externalizando o seu pesar e descontentamento com a nação e com as injustiças. O lema de sua vida será cantado por ela num duo com Sérgio Reis. Durante a guerra ao terror, tem se mantido firme no papel de Paladina da Paz. Sabe cozinhar um tema com os mesmos métodos seculares de fazer feijão com arroz. No Mais Você, ela analisou friamente o contexto do Rio de Janeiro: "Isso é uma afronta!" "Bandido é Bandido" "Vá visitar a Igreja da Penha, doe brinquedos pras crianças. Pode ser boneca velha, eles reformam. Vamos ajudar a transformar a realidade desses meninos e meninas - transformar a realidade com bonecas velhas? -. E se tiver medo, mande alguém - entenda 'alguém' como sua empregada que mora ali perto-" e, por fim, "Eu subi e desci o morro - praticamente Clementina de Jesus-"


Paula Toller: Para finalizar, a ex-Kid Abelha, a ex-cantora que teria um futuro promissor, escreveu no Twitter a sua felicidade em ver a união da Polícia Civil, Militar, Rodoviária, Federal, Exérctio, Marinha, enfim, no combate ao narcotráfico. "Nunca antes vi discurso de governo,polícia,fças armadas, intelectuais, imprensa e população tão afinados. Estará a virada,enfim,acontecendo?" Quer dizer, né, minha gente, quando a pessoa passa uma vida fazendo aquilo que ela tem prazer em fazer e outras cositas más (dá um saque na foto acima) e vem com esse papo de virada acontecendo a única coisa que cabe na minha cabeça é: REHAB. Pois diz Saint-Exupéry: Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

Cláudia Leitte

Esse não é um blog de moda tampouco se trata de um dos comentários dos fãs chatos e, não raras as vezes, pouco inteligentes de Ivete Sangalo que travam um cruzada contra a 'rival' sem pé nem cabeça. Mas, alguém, sinceramente, pode me explicar como uma pessoa se olha no espelho e se acha pronta pra subir num trio elétrico usando esse conjuntinho cujo destaque é essa tendência bela chamada sutiã flúor? Senta lá, Cláudia. E tira isso, por favor.

Dezembro


Dezembro é uma sexta-feira com 31 dias.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Conforme o ritmo.



Um escritor que faz você se sentir bem depois de ter lido cinco páginas que variam de alhos para bugalhos sem te dizer absolutamente nada e, no parágrafo seguinte, dá uma risadinha mafiosa do tipo: “Tudo o que escrevi até aqui é rigorosamente desnecessário para o que vou contar” não é tão somente um escritor. É um dominador de mentes. Assim, no sentido cru, duro e sem nenhum respaldo científico – até porque psicologia está mais para Domingo do Faustão do que para ciência. Puros gracejos que debocham na cara do leitor, saltando-lhe os olhos com certa empáfia, sem correr o mínimo risco do espalhafatoso ou da ojeriza generalizada, exigem técnica apurada com doses de malícia e risadinhas de canto de boca. Com esse arsenal, na literatura brasileira, só conheço um: Machado de Assis.

Em Histórias Sem Datas, livro de crônicas que acabei de recostar na estante, ele surpreende. As narrativas são tiradas da realidade. Da realidade que existe na cabeça do pensamento Machadiano. Ou seja, um turbilhão delas, todas misturadas, ultrapassando a mera interpretação daquilo que comumente se distingue entre o real e o irreal, a verdade e a fantasia. Como num mergulho a esse universo, tudo ali se des - assenta de tal forma que qualquer pessoa pode legitimamente sentir que está diante de um tratado sobre a loucura ou de um manuscrito escrito por um louco. Nada ali parece fazer muito sentido, ter muitas conexões com o que existia naquele Brasil do final de 1800. Mas, claro, aí nesse acesso de insanidade nasce o fundamento de sua obra e as maneiras que Machado utilizou para falar de, sei lá, um par de botas, de forma completamente universal.

Universal e atemporal. Conhecendo um pouco das suas obras, dificilmente ele escreveria um livro com esse título se, de fato, acreditasse na probabilidade de que seu texto pudesse ser datado. Datado pela época ou pela própria decadência que perfaz a humanidade. Não se trata efetivamente de uma visão fatalista, fixada nos construtos do determinismo. Tampouco se é uma previsão rasa baseada na crendice de que a humanidade não tinha e também não terá jeito, logo tudo o que está escrito ali se torna do mundo e de todos para sempre. O que pensou, conjecturou, se fundamenta no profundo rigor com o qual analisava as pessoas, em todas as partes, no seu íntimo, no seu coletivo, nas suas esferas de pertencimento e de existência. Pois bem, tanto conhecimento, leitura, excesso de sensibilidade e medidas razoáveis de genialidade e dom (sim, porque ninguém aqui pode acreditar que todo mundo pode ser qualquer coisa se educado para isso) é o que permite deboches tão simpáticos como aqueles citados no comecinho do texto. Atinge sua alma e, se ele tiver com a minha, deve doer mais do que exame de sangue. Ou menos, já que agulha nenhuma me fura desde 1998.

Fato que falar, falar e falar, para depois dizer: você nem sabe o que eu vou dizer ou o que eu sou, dialoga perfeitamente com o meu ideal de vida. Quer dizer, a melhor maneira de manter o íntimo preservado é se expondo. Porque, consciente dessa tarefa, você a executa da forma como lhe é conveniente, criando representações do que bem deseja, do que bem quer e de como quer, saliente-se. E, pra evitar contrapontos do gênero você-não-é-você-mesmo ou isso-não-é-muito-original, devo confessar que a melhor maneira de se auto-pertencer (nossa, estou profundo) é pertencendo aos outros exatamente da forma e da medida que você gostaria de ser pertencido. É isso, faz tanto sentido quanto o livro de Machado, mas, sob hipótese algum, o sentido poderia ser mais claro.

Abaixo trechos que eu selecionei com critérios mais frouxos do que a vontade de comer temaki num sábado à noite.

Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olhas; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dá. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

- Já vos disse que não.

- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. (Página 15)

“Rigorosamente, todas estas notícias são desnecessárias para a compreensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma coisa, antes de entrar em matéria, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a rédea à pena, e ela que vá andando, até achar entrada. Há de haver alguma; tudo depende das circunstâncias, regra que tanto serve para o estilo como para a vida; palavra puxa palavra, uma idéia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as suas espécies. (Página 77).

“Tinha obrigações morais com a sociedade; ninguém se pertence exclusivamente; daí um pouco de dispersão dos seus cuidados. A verdade é que tinham vivido demasiadamente reclusos; não era justo nem bonito. (...). Este foi, talvez, o ponto mais fraco da vida do meu amigo. Não tinham idéias políticas; quando muito, dispunha de um desses temperamentos que substituem as idéias, e fazem crer que um homem pensa, quando simplesmente transpira.” (Página 104)