domingo, 26 de setembro de 2010

Cade a DRT?

Psicólogo de boteco é um tipo que deveria integrar a lista de animais em extinção. Durante todos esses dias, em  que um certo ar de novidade anda me dizendo que sair dessa cidade equivale a não voltar pro sertão, percebi o quanto eles se reproduzem. São radicais do pouco. Gente que dá pitacos excessivos na sua vida, buscando de forma primorosa tazer a tradução de você para, advinhem, você. Com a pretensão de aluno que nunca estudava e nunca entendia por que ia parar na recuperação, essas pessoas são os paladinos da experiência vivida, da superação de todos os dramas e conflitos que a humanidade pode trazer a alguém. Precisam ser categóricas e, ao mesmo tempo, fingir algum tipo de conhecimento que só elas possuem - possuem não, alcançaram. Não precisa nem conhcer sua trajetória, basta pegar algum comentário e proferir frases incertas como "Eu sei o que é isso", "Essa é a fase X da vida", "Eu sei como você se sente", "Como você mudou", etc&tal.

Em geral, psicológos de boteco não entendem nada, não estão entendendo nada e só querem matar o velhote inimigo que morreu ontem. Desconfio de qualquer sabichão que tenha lido menos livros que eu. E não tenho  receio de pedantismo em relação a esse fato. Depois que não precisa mais do que duas ou três frases trocadas para perceber que o psicólogo é uma pessoa insegura, cheia de problemas banais no qual ele vê grande importância, tem pouco conteúdo, não sabem argumentar e se afugentam no personagem esperto e interessante que eles criaram de si para fugir de qualquer discussão que se estenda para além das suas trivialidades. Sofrem da síndrome contemporânea de suicídio: por qualquer coisa dizem "quero morrer" e vivem a deriva na vida. São vencidos pelo dia mais fácil do mês e acordam sempre pensando em como o café da manhã será repetitivo, tal qual a vida de Maria Fulaninha. Andam com os comparsas. É uma forma de garantir que sua referida e  nobre profissão de fato existe e é compartilhada por outros. 

O antídoto mais eficaz para qualquer conflito da pós-modernidade é o desprezo. Se vale tudo e todos podem dizer o que querem, então, se abster da fala não só representa dizer algo como algo melhor do que qualquer coisa que pudesse ser dita. Não tem forma mais singular de debochar e de irritar a horda de atrevidos que tentam preencher o seu about me. Virgínia Woolf nos entenderia.  E ela nem precisa achar que é Lacan. Nem sentar no Mercado do Peixe, claro. 

"Não se pode tomar decisão alguma. E somos cada vez menos capazes de fazer um julgamento. Você acha isso? E depois, nunca sabemos o que sentimos. Estamos todos no escuro. Tentamos descobrir, mas pode imaginar algo mais ridículo do que uma opinião de uma pessoa acerca de outra pessoa? Achamos que sabemos, mas na verdade não sabemos". 

VAMOS FALAR DE COISA BOA?

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