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terça-feira, 1 de março de 2011

Com dinheiro ou sem dinheiro, eu me viro em Fevereiro.


Fevereiro acabou ontem e foi a maior loucura do mundo. Estou há meses sem postar nada por falta de tempo, excesso de preguiça e, principalmente, pelos ensaios de verão. Cortejo afro, Harmonia, Sarau du Brown, Psirico, Ilê, Muzenza, Gerônimo, Margareth, Daniela, Timbalada, Baile dos Mascarados...perdi as contas de tantas festas. Vivi a maior paixão de verão, fiz amigos para vida toda, disse adeus pra quem queria ou precisava partir e me soltei no vento. 

Sei que em tese o verão começou em novembro, mas o meu, na prática, não acabou desde o ano passado. Foi muito lindo esse momento todo e sei que quando passar o furacão sentirei saudades. Vai mudar tudo e definitivamente fecharei um ciclo da minha vida. Suspiros bem leves.  Mas pra não chegar melancolia, até quarta-feira de cinzas, meu nome é CARNAVAL. Se prepara, Salvador.

PS: Queria ter escrito um roteiro dos Ensaios pra quem não conhece. Mas o ritmo estava mesmo acelerado.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Lavagem do Bonfim


Quem é ateu que viu milagres como eu 
sabem que os deuses sem deus não cessam de brotar

domingo, 28 de novembro de 2010

Bom dia, Comunidade!


Mesmo com toda a decadência, ainda crio comunidades exclusivas. Isto é, que só eu entro. Essa se chama "Compreendo.". É uma homenagem justa a essa carinha de Compreendo. que Caê Veloso sabe fazer como ninguém. Significa que algum ser ululante despejava excesso de informações e de peripécias desimportantes diante dele ao passo que a única resposta plausível, boa e oportuna que se pode dar é: Compreendo. Eu passo por isso sempre. Rolou um reconhecimento total da foto, com o tema, com a situação.

Foto: Renata Alves? Alexandre Senna? Gilvan Reis? Não sei, mas é do tempo em que celebridades escandalizavam na falecida Boomerangue, no Rio Vermelho, aqui em Salvador.
Comunidade: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=107290944

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Novembro

 
No dia de finados, nasce o verão.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cotas na UFRGS


"Quando o negro fala, lá vem o negro reclamando. Agora, quando é o branco, está sendo politicamente correto", açoitou sob lágrimas Margareth Menezes num Festival de Verão da vida qualquer. Bem Maga, a gente concorda em 98% dos casos. O texto que segue faz parte dos 2% que nos sobram. Se tem preguiça de ler todo - eu sei que tem- vou destacar a parte mais importante. É a que mostra como os brancos, mesmo sem se darem conta, são naturalmente privilegiados somente por serem....brancos.  Eu sei que é o segundo texto sobre racismo em menos de, sei lá,  5 dias. Mas, nesse período, deu tempo de ir à praia, ir ao samba, dançar na Confraria, ir ao teatro e até de namorar. 

Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 
Ter, 14 de Setembro de 2010 01:22 Educacao - Cotas no STF
Este texto é um manifesto escrito e subscrito por brancos que compõem a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele é uma retumbante admissão pública, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclusão estrutural de negros e indígenas dos benefícios e espaços de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, é produzida uma teia de privilégios a nós brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa convivência. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando não queremos ser. O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. É pelo reconhecimento destes privilégios que marcam toda nossa existência, mesmo que nós brancos não os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprovação de Ações afirmativas de Reparação às populações negras e indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.

A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje? 

O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!

Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?


Vamos apresentar uma breve listinha de circunstâncias em nossas vidas que expõem nossos privilégios de brancos e que, embora não percebêssemos, embora os víssemos apenas como relações naturais para nós, por sermos pessoas normais e "de bem", foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por não serem vivenciados também por negros e indígenas, seu resultado é fazer com que seja tão desproporcional o número destas populações dentro da UFRGS, por exemplo):                                                                                                      
1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele não faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no ônibus, nas lojas, etc;
2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manutenção de um emprego;
3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu salário fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma função;
4) Posso ligar a televisão e ver pessoas de minha raça em grande número e muitas em posições sociais confortáveis e que me dão perspectivas para o futuro;
5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas da minha raça;
6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a história dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais segurança de quem sou e pra onde posso ir;
7) Nunca precisei ouvir que no meu estado não existiam pessoas da minha raça; 8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele;
9) Já fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha raça fosse um elemento que reforçasse minha possível condenação;
10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha raça posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura;
11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha raça;
12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de "brincadeira";
13) Sempre tive professores da minha raça;
14) Nunca me senti minoria em termos da minha raça, em nenhuma situação;
15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci até hoje eram da mesma raça que eu;
16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranqüilo de que ninguém relacionará isso com minha raça;
17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ninguém ligue isso a minha raça;
18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui forçado a falar em nome de minha raça, carregando nas costas o peso de representar 45% da população brasileira; 19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha infância, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo;
20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele não seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou estágio;
21) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão racial" não serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal;
22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convicção de que a cor da minha pele não fará com que meu tratamento sofra dificuldades;
23) Posso fazer minhas atividades seguro de que não experienciarei sentimentos de rejeição a minha raça.

Esta realidade destroça meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida não foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha raça, assim como fechadas a outras pessoas. A opção de falar ou não em privilégios dos brancos já é um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privilégios dos brancos são estruturais, as ações contra o racismo devem ser também estruturais. Racismo não é preconceito: racismo é preconceito mais poder. Se não forçarmos mudanças nas relações e posições de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou não vai "cortar na própria pele" o racismo que até hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu próximo vestibular? Se mantivermos o vestibular "cego às desigualdades raciais" estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que nós mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.

Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Respeitem meus cabelos, brancos (com ou sem vírgula)


Ontem, 23, no mesmo dia em que conversava com uma amiga antropóloga sobre as relações raciais no Brasil, um ato de racismo (e tantos outros certamente desconhecidos) acontecia em Salvador. O episódio, relatado a posterior pela mãe da criança, dilacera novamente essa ferida temida e nem sempre ocultada da nossa sociedade. Minha amiga, na ocasião, contava da experiência impactante de ser confrontada com essa realidade em Brasília - ela é baiana, mas mora nesse lugar -, e do fato de ter sido impelida pela faca de dois gumes Unb-Branquitude a se recolocar na posição de mulher negra. Ou de, pelo menos, tentar entender-se dentro de uma determinada realidade regida sobre um determinado fenômeno. 

Descontando um pouco o ranço de militância e o calor do momento (tanto o simbólico, oriundo da raiva da notícia, quanto o material, já que Salvador se aquece novamente), a verdade é que, nesse país, sempre que surge um conflito ou impasse e a nossa capacidade de vigilância epistemológica identifica o racismo estruturante no cerne do problema, as pessoa torcem o nariz e se afugentam do bicho papão que é o debate sobre raça. Pode ser qualquer coisa, menos racismo. Não interessa se é um negro da periferia versus um branco da classe alta discutindo, sei lá, no trânsito. Nunca haverá nessa passagem o recorte racial, só ditames normais de um cotidiano agitado de qualquer metrópole. 

Na universidade, espaço que uma dúzia de babacas embevecidos consideram o berço da liberdade e da resistência contra o mundo cruel e burguês, é extremamente comum a reprodução das relações racistas. Dentro da sala de aula, inclusive, costuma vir apimentada com doses indigestas de sexismo e de discriminação por gênero. Minha amiga relatava o episódio de um professor branco, muito bem financeiramente, de formação acadêmica européia, que, apesar dos traços inequívocos de competência, se relacionava quase que "naturalmente" com os alunos de semelhante matriz sóciocultural. Alunos cujo pertencimento etnicossocial incidia sobre a classe média, intelectualizada nos moldes europeus, com vivências semelhantes a do referido professor. Com esse setor, a abertura e o diálogo eram mais intensos. Enquanto isso, no fundo da sala, três ou quatro jovens negros da periferia, cotistas, assistiam as aulas de forma impassível, acompanhando os conteúdos, os textos, mas sem se pronunciar publicamente na disciplina em questão. As suas vivências não tinham eco nem poder de fogo nem diálogo sobre o que estava sendo exposto, logo silenciavam-se.

Daí, surgem algumas considerações ardilosas, mas necessárias: existe um conflito racial nesse contexto? Existe. Racismo estruturante? Sim.  As pessoas, em geral, achariam isso? Não. Na verdade, a leitura hegemônica se pauta em questões de afinidade, de interesse acadêmico, de compromisso com os estudos e com a participação, e todos aqueles argumentos meritocráticos dos espaços universitários que conhecemos. Todos, evidentemente, exalando cheiro de opressão. Nesse caso, por exemplo, a cor da pele, ao longa da trajetória de cada um, foi fator determinante para que algumas experiências fossem vividas e outras não, foi também aglutinando e dispersando determinados laços sociais, excluindo de contexto para submeter em outros, etc. Então, o fato dos jovens negros estarem a parte na sala não é normal, não pode ser naturalizado. Tem uma história por trás disso, existe um passado que permitiu  ao professor e ao grupo de alunos da frente uma formação mais robusta, do ponto de vista acadêmico, e aos três jovens não. Mas eles estão lá dentro, inseridos, e sua própria existência já é uma provocação e uma forma declarada de subversão histórica. 

Para não falar no caso da menina negra que foi segunda colocada em todas as etapas da seleção de mestrado e perdeu exata e coincidentemente na entrevista com a banca examidadora e outros casos da UNB e do país, reproduzo o episódio de discriminação racial num Salão de Beleza aqui em Salvador, onde a maioria esmagadora é negra e onde racismo só existe na cabeça das pessoas. Das pessoas negras, claro. E de cabelos trançados. 

SALÃO DE BELEZA NEGA-SE A CORTAR CABELO DE CRIANÇA NEGRA

Funcionários do “Salão Fascínio”, localizado no andar térreo do Shopping Itaigara, em Salvador, recusaram-se hoje, dia 23 de setembro, a cortar o cabelo de uma criança negra, de seis anos, recomendando a mãe que “passasse a máquina”, pois aquele cabelo “não dava para ser cortado, nem desembaraçado”. A mãe da criança, a jornalista Márcia Guena, acusou os funcionários e a dona do salão de racismo e logo procurou a administração do shopping para formalizar a denúncia. Neste caso configura-se um duplo crime por tratar-se de racismo e de violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por expor uma criança a uma situação vexatória.

Acompanhado da mãe, o menino M.S.G.S.O. entrou no salão por volta das 18:30, do dia 23 de setembro, quando Guena solicitou ao único funcionário homem do salão, para quem foi indicada pela atendente Selma (a qual foi identificada como dona do salão), um corte estilo “black”, mas não muito alto. O funcionário então respondeu que para “aquele cabelo” só dava para “passar a máquina”. A mãe então disse: “eu não solicitei que passem a máquina, mas que cortem o cabelo do meu filho. Eu já indiquei o corte que desejo”. O atendente repetiu: ”só dá pra passar a máquina”. Guena retirou a criança da cadeira e saiu imediatamente do salão para não expor a criança a uma discussão motivada pelo racismo explícito. Mas diante da violência cometida contra a criança, que foi exposta a uma situação vexatória, e a recusa de cortar o cabelo de um negro, a mãe voltou com a finalidade de procurar a gerente e formalizar a denúncia de racismo.

Ao retornar, Guena disse para Selma que a recusa em cortar o cabelo de seu filho configurava-se racismo, um crime inafiançável e que iria formalizar a denúncia junto ao Ministério Público. Selma, identificada como Maria Tavares de Oliveira, contestou dizendo que a mãe estava errada e que seus funcionários disseram que não sabiam cortar o cabelo da criança e que seria muito difícil desembaraçá-lo. Por isso, só poderiam passar a máquina, insistindo na resposta inicial do funcionário.

A mãe retirou-se do local e procurou a administração do Shopping. Guena foi recebida por Alda, que se identificou como administradora, e reconheceu a gravidade do problema, confirmando tratar-se sim de uma situação de racismo. Imediatamente ligou para Selma (Maria Tavares Oliveira) reclamando da forma como foi realizado o atendimento.

CONTATOS:
Márcia Guena (mãe) – 8788 9991
Aspri (pai) – 8876 4445
Alda (administradora do shopping Itaigara) 99812452 ou 32708900
Salão Fascínio – Selma (Maria  Tavares de Oliveira)

Trecho da resposta da socióloga Vilma Reis, militante do movimento negro:

"Eles  querem nos pisar e contar com o nosso silêncio, nossa complacência. Minha i
rmã, tem gente que acha que somos exageradas, esquisitas, barulhentas e que
 não é mais preciso falar do racismo e nossas feridas abertas na sociedade,
 mas quando vivemos e saimos para cortar o cabelo, fazer pós graduação,
entrar no banco o racismo informa que mora ao lado...Diga a seu filho que
você está com ele e que nossos ancestrais não dormem...Eles não passarão!" .

domingo, 5 de setembro de 2010

Difícil é fazer diferente



Depois que as mais de 17 câmeras de última geração instaladas em pontos estratégicos do Madison Square Garden, em Nova York, foram desligadas e que a tsunami da euforia levou para casa os 15 mil pagantes de ontem, dia 4 de setembro, é oportuno (e justo) pensar na carreira de Ivete Sangalo. Falado por 11 em cada 10 veículos de comunicação do país, o espetáculo foi, sem dúvidas, o show mais esperado de 2010. Com tantos elogios e, evidentemente, demonstrações explícitas de puxa-saquismo, Ivete pretendia, com esse trabalho, ser um marco brasileiro dentro da cultura de massa americana – algo feito, dentro de seus respectivos quadrados e gêneros , claro,  por outro juazeirense, João Gilberto, nos anos de 1950 com a bossa-nova.
Embora se tentasse recobrar, digamos, a lucidez diante de tantas expectativas e devaneios dos milhões de fãs que tem no Brasil, ninguém, nem Ivete, nem Jesus, nem a Caco de Telha, nem mesmo a TAM, escondia que esse seria o salto mais desafiador de sua carreira e a possibilidade ímpar de abrir as portas, ainda muito restritas para a sua música, no exterior. De fato esse era e continua sendo o desafio imposto e que, a julgar pela noite de ontem, está bem longe de ser superado.
Com investimentos batendo a marca dos R$ 5 milhões (Quantos podem bancar essa cifra?), o show no Madison poderia ter primado pela ousadia, pela inovação. Se foi um risco empregar tanto capital (simbólico e material), que, pelo menos, o risco fosse vivido até a última gota. Se foi um desafio e todas essas incontáveis pessoas coadunaram com a possibilidade de enfrentá-lo que se buscassem saídas mais criativas e mais originais. O que se viu,entretanto, pelos vídeos já lançados na internet, pelas informações presentes nos principais meios na manhã desse domingo, é que Ivete optou pelo mais do mesmo, pelo caminho mais seguro e do retorno garantido.
Feijão com Arroz
Mesmo com todos os efeitos, da cenografia, da montagem e de todo preparo exigido na composição do show, a sua essência foi a mesma que a de outros. As canções, inclusive, se repetiam sucessivamente. Certo que num estilo que ainda se pauta pelo “pula, sai do chão”, música conhecida é o elemento mágico infalível para encher de alegrias mil qualquer televisor. Apesar disso, num cenário em que pouco se cria de novo e que, paralelamente, tanto clama por novidades e tem sede de inovação, a ousadia de dominar o público pela surpresa é o que pode, aparentemente, garantir boas transformações e novas musicalidades. Pelo menos, é isso que se atesta nos últimos 60 anos da música popular brasileira. 
Não é que estejamos aqui repetindo os argumentos superficiais, pueris, de que é vendida ao sistema, de que é produto, de que é caça-níquel. Da indústria cultural, nem o Teatro Mágico, que diz sobreviver com bilheteria e venda própria de cd’s, escapa. Isso, creiam, nunca foi necessariamente ruim – exceto para Adorno e para a Teoria Crítica. Tantos outros que se vendem como alternativos são muitos mais submissos e entregues aos ditames do mercado do que Veveta.  Até porque sejamos realistas:  se existe alguém que pode dizer o que quer e o que não quer fazer, hoje, na música brasileira, esse alguém tem nome e residência fixa no Campo Grande, em Salvador (E, não, não é Gal Costa). Não desmerecendo seu talento, mas é desse contexto que surge a frustração.
Frustração pelo feijão com arroz – já tomando parte aqui do álbum homônimo de Daniela para um inevitável e sempre temida palavra: comparação. Costuma-se dizer, na Bahia, que La Mercury é parâmetro para as demais. Longe das rivalidades levianas e da troca de farpas dos fãs mais ardilosos, as comparações quase sempre precisam aparecer para termos referências. E o que a gente nota é que não ter medo de vaias, não ter receio de críticas dissonantes e de entrar num círculo “onde-queres-leblon-sou-pernambuco” é um passo necessário para a reciclagem do artista e da sua própria arte. Por trazer as velhas fórmulas e inserí-las em algo que só é grandioso pelos valores monetários aplicados, essa virada que Ivete poderia trazer foi, novamente, adiada. A cobrança poderia ser exagerada se esse trabalho não se propusesse a tantas complexidades: é uma mulher, latina, nos Estados Unidos, cantando basicamente em português, num formato diferente das ‘divas americanas’, etc e tal - sendo ela, inclusive, melhor do que a maioria desses produtos esterializados.  
Tem seu preço inovar? Claro que sim. Pode sucumbir na sua própria loucura ‘vanguardista’? Pode. Pode desagradar fãs, pode até perdê-los, pode conquistar inimigos? Pode.  E ser rotulada de perdida e outras expressões não tão nobres? Certamente será. Mas esse também  pode ser um preço justo em nome do compromisso que se tem com a sua arte, com sua criação, com a cultura, enfim, com o seu povo. Quando se tem compromisso com isso, que fique claro.
Talvez o temor de uma aparição discreta ou de uma carreira internacional fugaz tenham impelido para que a sua inserção recaísse sobre a colônia de brasileiros.  Não são poucas as  tentativas mal-sucedidas de nossos artistas . Vencer uma barreira de preconceitos não é suficiente: é preciso mostrar qualidade, dialogar musicalmente com quem nada entende de sua língua. Desse pecado, por exemplo, padeceu a dupla Sandy & Junior, engolidos pelo desequilibrado tripé da maturidade, da originalidade e da criatividade.
Reinventar as formas
É inegável que a sua trajetória na música brasileira tem sido vitoriosa. Depois de lançar-se solo, no momento em que o Axé Music dava passos vacilantes, Ivete traçou um rápido caminho para o posto de mais importante artista do show business brasileiro. Rápido, nesse caso, é pura modéstia: foi avassalador mesmo. Aproveitando o excelente momento em 2002, com a vitória surpreendente do Brasil na Copa da Coréia e do Japão, cravou nos corações e mentes dos 180 milhões de brasileiros a música Festa. Em seguida, as multidões que a seguiam no carnaval da Bahia, a acompanharam nas maratonas dos estádios brasileiros: primeiro o disco da MTV, na Fonte Nova (último gravado lá antes da demolição) e, logo depois, o DVD Ao Vivo no Maracanã, uma mega produção raramente vista no país.  Uma pausa para o suspiro e para a gravidez e veio o singelo Pode Entrar, que entrou no mercado fonográfico superando, em definitivo, qualquer dúvida sobre a força de Ivete.  Nesse ínterim, teve ainda o disco infantil gravado com o sempre razoável Saulo Fernandes. Com canções do nível e qualidade de Funk do Xixi, esse álbum é a flecha no calcanhar de qualquer Aquiles e merece cair nas graças da Inquisição.
A apresentação de ontem foi uma etapa importante da carreira de Ivete...da carreira dela aqui no Brasil. Com um nome consolidado e um espaço intocável, Ivete tem todo poder e legitimidade para continuar cantando Sorte Grande, Pererê e afins por todo país. Mas se de fato tem como pretensão ser um artista do mundo, já se viu que, com todo respeito e amor pelo carnaval baiano, ser somente Barra – Ondina ainda é muito pouco para qualquer Big Apple.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Obaluaê


Só mesmo em Salvador para o trânsito ser interrompido na segunda-feira por um trio elétrico. Só mesmo em Salvador para um padre estar nesse mesmo trio gritando loucamente: VIVA JESUS CRISTO! VIVA SÃO ROQUE! E, definitivamente, só mesmo em Salvador para um multidão de fiéis responderem em coro uníssono ao mesmo padre serelepe, que estava no mesmo trio, no mesmo trânsito, dessa forma: "SALVE OBALUAÊ, SALVE O SENHOR DA TERRA!". 

Trilha Sonora da Festa de São Roque: Let it be, dos Beatles, em ritmo de arrocha. Todo mundo cantou a letra toda, embora 90% das pessoas conheçam tanto de John Lenon que poderiam confundí-lo INRI.

Comida da Festa: Esse caruru delicioso-oso-oso mesmo que comi no Terreiro de Mãe Iara, em Cajazeiras XI.

Daí fica difícil não amar uma cidade que mistura Beatles com Candomblé, Padre com Orixá, Caruru com Coca-Cola.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Cidade da Bahia

Embora meu tempo nesse lugar tenha se esgostado, é aqui que guardo mistérios, alegrias e  descompassos. E nesse meu olhar há somente deslumbramento e um pouco de paixão. Bati essas fotos num dia de cansaço.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Há conserto.


Bem, a vida declarou para mim que não nasci com o intuito de ser de utilidade pública. Em contrapartida, declarei para ela que concessões são aqueles interlúdios necessários à nossa pouca sobrevivência e alegria. E, um mês depois do último post, quando até eu mesmo pensei “meu deus, abandonaram meu blog”, volto para aquele espírito solidário tipicamente natalino, embora estejamos às vésperas do São João e da Copa Fail do Mundo. Minha máquina digital, uma velha Sony Batista cansada de guerra, parou de funcionar. Saí procurando por todos os becos, ruas e avenidas, lojinhas que pudessem consertá-la por um preço que coubesse no meu orçamento – essa informação é só para salientar que não procurei o serviço técnico autorizado. Depois da odisséia da peregrinação, sob o sol de inverno da cidade, tipo 40 graus, encontrei quatro que me pareceram bem legais, seguras e acessíveis financeiramente aos que sobrevivem com o bolsa mesada. Não lembro o nome de nenhuma (gzuz, amnésia não alcoólica chegando com força aos 21), mas sei o endereço. Aqui:

1) No Max Center (ou Pituba Center, são gêmeos siameses), ali no Itaigara. É no segundo andar.

2) No Edifício Porto Fino, em frente ao Hotel da Bahia. Tem uma galeria que é a cara da imundice. O rapaz que atende costuma se atrasar depois do almoço, mas, dizem, é a simpatia e a eficiência (pena que não resisti ao chá de cadeira e passei pra próxima).

3) Avenida Sete, Edifício Marques de Abrantes, também no segundo andar. Flash Maq. O serviço, que inclui recepcionistas felizes, orçamento rápido, conserto imediato, compensa as informações desencontradas pra encontrar a loja.

4) Subida da Rua Chile. Logo ali na curva. É pequenininha, mas ta no centro de Salvador há uns 1000 anos.

Fiz o orçamento na do Max Center e na Flash Maq. O resultado foi 130 reais nas duas e optei pela segunda, que, além de tudo, entrega o produto em casa. Sem nenhum custo, crianças.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Salve, Salvador

Salvador completa 461 anos nessa segunda-feira, dia 29 de março. Embora a data simbolize o marco fundador da cidade, a presença do colonizador português com pequenos núcleos de povoamento remonta há pelo menos 40 antes da chegada de Tomé de Souza, em 1549. Eduardo Bueno nos informa que a Vila do Pereira, atual Porto da Barra, ainda que completamente assombrada pelos ataques assíduos das tribos, se estabelecia com as características necessárias para o início da colonização, especialmente, por demarcar território. A própria ligação de Caramuru com os nativos (Leia-se o sexo profana com Catarina Paraguaçu, atualmente enterrada naquela Igreja caríssima da Graça) - dá conta de que essa relação, quase sempre conflituosa, entre índios e portugueses deveria se aprofundar nos anos subseqüentes. O que de fato foi confirmado pela cruz e pela espada.

É sabido que a escolha de Salvador como primeira sede do governo geral teve como fator decisivo a sua excelente posição geográfica (cidade litorânea, mais próxima de Lisboa, mais ou menos no centro do que até então se conhecia do território Sul Americano) e pela sua formação espacial (uma imensa Baía, descoberta ou encontrada por Américo Vespúcio, em 2 de novembro, Dia de Todos os Santos, daí o nome, combinada com uma falha no relevo garantindo boa visibilidade do território e deixando o colonizador em posição vantajosa numa eventual guerra). Nessa capitania, as terras férteis, aptas a constituir e sustentar a civilização do açúcar, bem como a proximidade da rica biodiversidade da Mata Atlântica, asseguraram um rápido e devastador processo de exploração. Como bem salientou, Sérgio Buarque de Holanda, Portugal veio atrás de riqueza que custa ousadia, não da riqueza que custa trabalho.

Precisamente por esse espírito aventureiro, pelo desprendimento de atravessar o Atlântico numa viagem infernal para enfrentar a hostilidade de uma colônia sem nada, pela possibilidade vaga de enriquecimento, é que tento compreender Salvador. Tento também compreender a Salvador de hoje a partir do significado da chegada do povo africano, posto que a negritude foi a força de trabalho que construiu pedra por pedra, literalmente, todos os cantos e recantos da cidade. Foi quem fincou em Salvador a sua religiosidade, os mistérios e a beleza do candomblé, a musicalidade, a festividade, mas, sobretudo, esse espírito de rebeldia, de irreverência e de resistência.

Entender esses laços nos fornece condições de perceber as inter-relações cotidianas daqui. Está espalhado nos pequenos cenários urbanos, nos diálogos, no remelexo, na malemolência, na ironia, no debochar de tudo e de si mesmo, na celebração, nas desgraças, no sagrado e no profano, nesse espírito barroco que pinta de contraste a cidade. Uma cidade que, como nenhuma outra, encarna uma relação profunda com o corpo, com a sexualização do sujeito, com a vaidade e com novas possibilidades estéticas. É a cidade das 365 igrejas e dos 5000 mil terreiros, da maioria negra e dos bolsões de miséria, da percussão vibrante e dos mortos da chacina de Pero Vaz, das festas de largo, dos preconceitos naturalizados e da sensação de que tudo é absolutamente possível, da chacota, das paisagens absurdas e da falta de educação dos motoristas. A Bahia do furtar e do fuder. A cidade do carnaval eterno: tem festa, tem preto, tem branco, tem corda, tem música, tem baiana, tem candomblé, tem gente, tem álcool, tem polícia, tem violência, tem sangue, tem tiro, tem trio e tem outras tantas coisas que a tornam, se não absolutamente encantadora, pelo menos, inexplicável. Parabéns, Cidade da Bahia!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Espetáculo


Boaventura de Souza Santos, o maior intelectual vivo do mundo, vem pra Salvador. Eu quase choro de emoção e tudo que 99% das pessoas conseguem me dizer é: "sim, mas você vai pra Beyoncé, né?". Faça-me uma garapa.

domingo, 11 de outubro de 2009

Ciclos


Toda viagem passa por um ciclo de preparo, consumo e consequências. O meu é sempre vicioso.

TRISTEZA E CONTENTAMENTO (Referente a 1ª Etapa) É quando sua rotina está uma droga e aquele seu sonho de morar em NY anda tão distante que qualquer promoção aérea para Minas Gerais já te deixa animado. Perceba, é somente Minas Gerais.

DÚVIDA (A etapa que não é primeira nem segunda)
Você ouve alguém na rua falar uai e trem bã (se não for MG pensa no sotaque do lugar que você vai e substitui. A fórmula funciona). Imediatamente, você se lembra de que vai para esse lugar e que vai ser assistido por pessoas que se comunicam assim. Should i stay or should i go?

PLANOS (2ª Etapa)
Vendo que não é um bom negócio cancelar a passagem e perder paciência e dinheiro, você confirma o hostel. Uma vez concluído o processo, é hora de fazer planos do que fazer e ver. E aí, pirem, você acaba descobrindo que o ponto turístico da cidade é uma lagoa. Pirem de novo: é artificial.

ANIMAÇÃO (Da etapa em que o desfecho começa a se anunciar)
Uma lagoa é um lugar aprazível. Um trânsito pesado é sinônimo de vivacidade. Um aeroporto na casa do inferno é sinal de planejamento urbano. Um povo caipira é excelente fonte de estudo antropológico. Temeridade, lixo é o seu lugar.

CRISE BRUTA (Etapa Crítica)
É o momento em que a empolgação se encontra com o pouco que sobrou do seu senso de realidade (e, convenientemente, com seu senso de rídiculo). Você pensa em cancelar passagem, albergue e congresso. Sabe que será ruim com a mesma certeza de que sabe que precisa ir.

DA ETAPA QUE SE CONCLUI Você viaja. O que vai sobrar disso depende de alguns fatores imprevistos, que embora incertos sempre te levam inevitavelmente a...

...TRISTEZA E CONTENTAMENTO
Porque se sua última viagem foi maravilhosa você fica triste porque acabou e se foi uma porcaria você fica triste porque foi e gastou o dinheiro do aluguel de seu cubículo quarto e sala em NY. É quando sua rotina volta a ficar uma droga e....

Foto:
De uma viagem que passou por todos esses ciclos, mas que ainda não sei o tamanho do sucesso ou fracasso.

PS: Há exatamente um ano eu tinha uma vida em Oslo, na Noruega. Depois, eu tinha uma passagem pra Dublin com conexão em Milão. Em seguida, uma matrícula numa escola em Londres. Quarta-feira estou indo para Belo Horizonte. É pra cortar os pulsos, né não?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

I do believe in


Inspirada nos ideais apurados de Carlota Joaquina, a louca, ela desembarcou no Brasil após o exílio de um ano no Canadá: “Dessa terra, eu quero até o pó”, declarou beijando escandalosamente o solo do Aeroporto Internacional Dois de Julho, em Salvador. Depois da rápida temporada de seis meses na capital do acaraxé, Camila Mathias, filha da socióloga Viviane e do filósofo Carlos, sobrinha de Xalala, prima do entrevistado anterior, Daniel Fonseca, amiga de Sarah, conhecida de Taiana Pinho, reconhecida ortograficamente pelo Word, encontrada no topo da lista de presença da Unicamp, inteligente de nascença, diz que tem um sonho: quer ser apenas Camila Mathias. Como boa pós-moderna, odeia rótulos. Geminiana do tipo que se divide em três, Camilinha, como prefere ser chamada até os 65, vive a rotina atribulada e desesperada de qualquer estudante universitário brasileiro na bouca de se formar: cursa Ciências Sociais [atente para o fato de que é uma Ciência e não um Serviço] e presta trabalho escravo ao Nepo, Núcleo de Alguma Coisa que Até Hoje não Sabemos o Que É. Nesse turbilhão, a grande baianinha de 1,53m reservou um pequeno espaço na sua gaula cotidiana pra mostrar que quer e pode dar respostas capazes de Roda® Tudo. Cinco meses após o envio das perguntas, nos deparamos com respostas mais complexas do que a nossa vã filosofia é capaz de alcançar - ainda que filosofar, para ela, seja bem menos interessante do que uma assadeira de cookies e ou queijinhos no Porto da Barra.


Quero começar a entrevista perguntando da sua origem mesmo. Onde você nasceu? Em que ma
ternidade? Qual o seu signo?

Nasci em Salvador, óbvio (É que o Brasil só tem mais de cinco mil municípios, bem natural ela nascer aqui), mais precisamente no Hospital Espanhol. Tive o privilégio de já chegar ao mundo com vista para o mar! Sou de gêmeos, acho que isso justifica minha indecisão constante! (risos).

E o seu orixá, você sabe?

Não sei qual é meu orixá, mas confesso que fiquei curiosa e fui procurar no Google.

Um lugar bem confiável pra jogar os búzios, né?

(Risos) Sei que não é o meio mais adequado, mas enfim...Um dos sites em que entrei disse que meu orixá protetor é Yemanjá. Outro disse que é Ibeji. E outro disse que é Òdí. Conclusão: continuo não sabendo! (risos).

Todo mundo te acha bem estudiosa. Mas você acha que estuda muito ou que só está assumindo as responsabilidades pelas suas escolhas?

Olha, acho que hoje eu posso dizer que estudo pra assumir minhas responsabilidades mesmo. Mas, na época do ISBA, vamos ser sinceros, eu acho que eu era meio biruta! (Risos, risos)! Já me perguntei várias vezes como eu conseguia estudar daquele jeito. Acho que hoje eu sei equilibrar melhor as coisas!


Nada. A gente até gostava de saber do gaba
rito oficial antes do professor. Mas me diz, você raramente revelava sua notas (certamente para não deixar que 99% dos colegas chegassem em casa e perguntassem aos pais se não tinham um cérebro mais legal pra colocar naquele corpinho). Mas alguma vez você já tirou nota abaixo de 7?

Claaaaaro que sim! Várias vezes (tá 6,9 não conta). Avisa que tirei 3,25 na prova de matemática da segunda fase da Unicamp (enche o peito em sinal de orgulho)! (Risos)! E só fui descobrir isso essa semana, quando fui pedir meu histórico escolar.

É, mas quando você tira 3,25 na prova de matemática da Unicamp, você fica em quarto lugar. Já aconteceu de você ter um rendimento ruim e chorar bastante em casa?

Tá brincando, né?


Não, estou falando sério. Outra coisa também. A gente q
uase nunca te vê xingando. É por opção ou por falta de repertório?

Puta que pariu, você nunca me vê xingando é? Como assim, seu filho da puta? Em que mundo você vive, seu porra? (risos). Sempre falei palavrão. Olha só como soa natural. E tenho dito.

Bem, já vi que repertório você tem. Falta só a prática mesmo. Você, além de simples, é muito calminha. Quando é que você sai do sério?

Quando minha professora de antropologia me faz adiar três vezes a passagem de volta pra Salvador; me faz pagar uma multa de quase R$200,00 pra alterar a data e ainda me diz: “Pense que você vai pra Salvador em algum momento, querida. E eu, que nem pra lá vou?”

Risos. Dá pra notar que o mundo é mesmo muito injusto e que a gente precisa ser um pouco mais compreensivo com as pessoas. Quando você voltou do Canadá (pela primeira vez), a experiência de morar fora te deixou um pouco mais faladeira. Por quê?

Porque assim, né, eu voltei de lá, tipo 10 horas de viagem, aí eu cheguei e papapapapa. Queria falar tudo de uma vez e pior é que eu me confundia (ia?) toda. Eu começava a falar, aí esquecia as palavras (Amnésia?). Na aula de redação de Zé Gomes, eu esquecia como escrever em português toda hora!! Mas aí, no dia que eu cheguei era aula de Carrera, e não podia ficar falando. Peguei os balões (as meninas tinham colocado vários balões na sala... tão bonitinho isso, né? Uma graça! E era tudo cor de rosa, se eu me lembro bem)... Mas aí Carrera tava dando aula, e eu fiz um lacinho com os balões na cabeça dele (zzzzzzzZZZZZ). Foi lindo aquilo. Ele não entendeu nada. Achou que eu era louca, né?!

Ele achou, foi? Acho que carece de provas.

Pois é, aí eu saí da sala e meniiiiino (zzzZZZZZZZZZZZZZZZZ), fiquei com uma crise de rinite no dia seguinte. Fiquei de cama vários dias. Aí que não podia falar mesmo... mas, peraí, qual era a pergunta mesmo? (risos).

Hã? Ah, então, queria saber se você era faladeira, mas nem precisa responder.

(Risos) Respondendo de verdade agora (medo!). Acho que sempre fui meio faladeira (supresa!) ! Você que só percebeu isso com um pouco de atraso! (risos) Vai ver que foi saudade de vocês, uai... Tinha muita coisa pra contar!

Teve algo que você fez no Canadá que ninguém, absolutamente ninguém sabe?

Com certeza! Você queria que eu narrasse todas as vezes que fui ao banheiro fazer pipi?

Tá, tudo bem, não precisa falar do restante. Eu tenho uma outra curiosidade. O que você acha que aconteceria se você ficasse bêbada?

Eu acho que já nasci num estado não-alcóolico de embriaguez eterna, sabe?

Mas, enfim, eu ficaria bem mais tonta do que já sou!!!! E episódios como o da “gaula”, o da piada do biscoito, o do “EU NÃO FAÇO FILOSOFIA!” e o do “toma R$5,50, mas se for mais que R$5,00 não compra não” seriam bem mais freqüentes. Ah, e provavelmente minha voz sairia bem mais esganiçada também...


Você tem alguma preocupação com seu país?

Claro que sim. Por que outra razão eu faria Ciências Sociais? (Riiiiioooooo 2016!!!! UHUUUUUUU)

Aproveitando a euforia com a Copa do Mundo e a com Olimpíada, que, né, demonstram bem a sua preocupação com o Brasil, então, por que pensa em ir embora?

Perguntinha só pra me irritar, né? (risos). Porque tem um pedacinho de mim que mora lá fora. Porque eu adoro a sensação de chegar num lugar diferente. Porque eu sonho em rodar o mundo. E porque nada disso muda ou diminui meus sentimentos em relação ao Brasil.


Nesse caso, você pretende voltar a morar em Salvador ou acha que ficou pequena demais?

Por enquanto acho que não. Mas ninguém sabe o que o futuro reserva (frase original). Salvador sempre vai ser meu lar e nunca vai ser pequena demais.

Claro, é como ter um sítio no interior. Você sabe que ele é seu, mas não precisa pisar em titica de galinha pra saber que ele existe, né? Enfim, retomando, quem do besteirol que faria você ficar feliz em qualquer situação?

Acho que você mesmo, Gilzu...Até quando você é irritante, você me faz rir! (risos).


Alguém do besteirol que faria você ficar triste em qualquer situação?

Não conheço todo mundo do besteirol. (Vejamos, quem ela não conhece do Besteirol. Paula!)


Alguém do besteirol que você levaria pra uma Ilha Deserta e alguém do besteirol que você deixaria pra sempre numa ilha deserta?

Eu levaria Boi pra uma ilha deserta, porque ele, como bom irmão e boiólogo, ia me proteger de todos os insetos malignos e seres da escuridão. E eu também o deixaria lá depois pra fazer amizade com os elefantes.

Não conheço muitas ilhas desertas que tenham elefante, mas deixa quieto. Qual é a frase que define seu lema de vida?

I do believe in fairies, I do, I do!

Quantos anos você tem mesmo, hein?

21.

O que você acha da sua imagem de muito inteligente? Te agrada ou você desejaria ser conhecida primeiramente sobre outro estigma?

Não sou adepta a rótulos.

Curiosidades:

- Que Camilinha já fez intercâmbio para o Canadá isso todo mundo já ta canadense de saber. Agora, ela pouco revela sobre o mega tour que fez para Europa. A viagem pelo velho mundo, que iria marcar definitivamente todo o pensamento humanista dela, envolveu cidades como Paris, Londres e Bruxelas.

- Apesar de ter ficado um ano fora do país e ter sido obrigada a fazer prova de Ensino Religioso no terceiro ano, Mathias não perdeu o fôlego e foi a primeira colocada no vestibular de Ciências Sociais da UFBA e quarta na classificação geral. Foi aprovada também no vestibular da Unicamp, onde está concluindo a graduação.

- Embora afirme conhecer seu Orixá tanto quanto o Google entende de Candomblé, ela é do tipo que faz por onde quando o assunto é se proteger de mau olhado. Todo ano, alugar um barco e leva, no 2 de fevereiro, perfumes e flores pra Yemanjá. “Mandinga da gente continua...”

- Enquanto boa parte de seus amigos, estavam planejando que lanche comprar quando a moça da bilheteria deu o troco a mais, Camilinha só pensava na forma mais discreta de devolver o dinheiro para não prejudicar a atendente.

- No primeiro dia de aula, pós intercâmbio, Camilinha abre a porta da sala dos professores e diz: “Oieee, alguém lembra de mim?!” SILÊNCIO!

- Até o segundo ano, Camilinha se escondia no banheiro feminino toda vez que avistava Victor Vaqueiro no corredor. Não precisa dizer por que. Quando não conseguia escapar, a gente sempre ouvia o grito de desespero. “Camilinha foi atacada”.

- Na única aula de Educação Física que fez, Daniela Cipó assustou tanto Camilinha na corrida que ela quebrou o dente. Desde então, acha uma selvageria jogar futebol sem alambrado.

- No último Censo Besteiropopuli, Camilinha foi a mais lembrada quando o assunto foi ética, caráter e senso de justiça.