quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Em outro lugar ou aqui.

Olhando, com sensata timidez, os carros e as pessoas que lhe cumprimentavam, respondia sempre com aqueles murmúrios incompreensíveis. Tinha medo de todas elas. Nenhuma lhe tocava: pareciam todas limpas. Limpas em suas rotinas, em seus estudos, festejos. LIM-PAS - repetia devorando saborosamente cada sílaba. Aquilo era o seu ritual asséptico.

Andou em direção a beirada para ver o mar. Vinham todas, todas, todas, todas, lá de onde a vista não alcança. As ondas subiam, avançavam, arrebentavam-se na sua frente. E outra lá atrás emergia com mais voracidade, com sede violenta de lhe mostrar a vida. Arrebentava-se. E, de novo, nascia uma onda que somava-se a outra e, naquele galope branco de espumas e sal, rumava decidida contra ele. Vendo essa explosão inexplicável, esse oceano escapando para o abstrato e todo aquele e vir morrendo diante de seus olhos, entendeu porque deveria continuar. Era a vida e isso era tudo e nada mais.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

No lado esquerdo ou em outro lugar.


A vida era mesmo inexplicável, pensou. De repente, estava cercado por todas as angústias que cabiam no mundo. Seria a linha da loucura cortando-lhe a pele, fazendo o sangue cair do seu corpo gota por gota num sofrimento infinito?

Certamente sabia de suas dores, da incompreensão de todos em entendê-las. E, por isso, também sofria: pelos outros. Passava-lhe tudo que tinha acontecido e o que havia perdido. Para todas as mínimas coisas atravessadas no seu destino crescia a importância e, junto com ela, a fragorosa sensação de perda. "Eu perdi? Quem se atreve a dizer que não?".

Se não existia atrevimento, havia a certeza: sim, perdera. Todos os livros que leu, todos os clichês que escutou e todo o resto que nunca sucumbia com o raiar do sol mostrava-lhe um coro vazio, sem resposta, de que a vida deveria continuar. Era esse o limiar de sua loucura: caía tentando agarrar-se em qualquer coisa e só conseguia agarrar-se a si mesmo. Pensando nisso, era pavor o que sentia.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Festa da Boa Morte

Embora já esteja em Salvador desde o domingo, vivendo os ditames do mundo cão, somente ontem a Irmandade da Boa Morte encerrou os festejos em Cachoeira, no Recôncavo Baiano (é bom explicar, já que o blog é lido - MISTERIOSAMENTE - até por pessoas de Cascavel). Antes que fique velho demais falar sobre, antes mesmo que eu esqueça que algum dia pensei em fazer um comentário sobre a festa,  olhei as fotos para me recordar dos bons momentos desse ano. A verdade é que, desde que conheci a Irmandade, Agosto nunca mais foi o mês do desgosto. Porque se antes eu perdia toda minha energia, todos os meus planos davam errado, inclua na lista, cancelar passagem para Oslo e levar calote por 4 meses, agora, ao menos, desperdiço meu dinheiro  e tempo com o melhor licor que já tomei e com o melhor samba de roda que se pode sambar. É difícil mesmo apontar o que é mais legal: se sair de Salvador por uns dias, se ficar num camping que é num balneário de cachoeiras, se é percorrer aquelas ruas, com a redundância da expressão, históricas, tipo um imenso Pelourinho, se é a bebida, a maniçoba, o mistério da festa, a beleza daquelas senhoras, as companhias que a gente leva e arranja, etc. Enfim, essa empolgação toda, mesmo aos 45 do segundo tempo quando tudo parece acabado, define porque, algumas vezes, ser devoto de algo é saudável.

Tome-lhe Samba de Dona Dalva. 

A bebida: Licor de Chocolate e de Graviola | Comida: Maniçoba ou Casquinha de Siri| Samba: Casa do Samba de D. Dalva ou na praça mesmo| Bus: Santana. É a única em que os passageiros voltam comentando que o Censo do IBGE apontou mais de 2 mil gays em Santo Amaro da Purificação, terra de Canô.


As companhias

O pôr do Sol na ponte imperial

A Irmandade

O Pelourão

Dona Dalva sambando

Depois de uma reza

O Licor

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Obaluaê


Só mesmo em Salvador para o trânsito ser interrompido na segunda-feira por um trio elétrico. Só mesmo em Salvador para um padre estar nesse mesmo trio gritando loucamente: VIVA JESUS CRISTO! VIVA SÃO ROQUE! E, definitivamente, só mesmo em Salvador para um multidão de fiéis responderem em coro uníssono ao mesmo padre serelepe, que estava no mesmo trio, no mesmo trânsito, dessa forma: "SALVE OBALUAÊ, SALVE O SENHOR DA TERRA!". 

Trilha Sonora da Festa de São Roque: Let it be, dos Beatles, em ritmo de arrocha. Todo mundo cantou a letra toda, embora 90% das pessoas conheçam tanto de John Lenon que poderiam confundí-lo INRI.

Comida da Festa: Esse caruru delicioso-oso-oso mesmo que comi no Terreiro de Mãe Iara, em Cajazeiras XI.

Daí fica difícil não amar uma cidade que mistura Beatles com Candomblé, Padre com Orixá, Caruru com Coca-Cola.


quinta-feira, 12 de agosto de 2010


Pois vejo vir vindo no vento o cheiro de nova estação

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Vygotsky


Estou quase terminando um livro péssimo intitulado da Da Inclusão à Exclusão: (re) construindo significados à luz dos pensamentos de Vygostki, Paulo Freire e Michel Foucault. A bem da verdade, um título que é quase do tamanho do livro dificilmente pode escapar das análises incipientes, com pouca discussão e excesso de clichês. O que não é nada surpreendente conhecendo o meio acadêmico brasileiro – a obra foi publicada pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Fato que um dos feitos de ter lido esse material foi me apresentar Vygostki e suas teorias de inclusão na educação. Tudo muito lindo, muito dialógico, muito contemporâneo – embora o rapaz tenha falecido na primeira metade do século XX. A minha grande dúvida é: toda essa conversa de juntar a heterogeneidade num mesmo ambiente, retirando do conflito e da diferença o aprendizado, funciona mesmo ou só é bonito no papel?

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Outra vez


Subitamente foi acometida pela vontade de viver. Viver, para ela, era marcar-se em frases soltas, desprovidas de qualquer sentido que tentassem lhe conferir. Sim, se existia e se escrevia era para afrontar os enquadramentos, a rigidez. E para matar-se também.

Conhecia os desmandos dos outros e agora, agora que tinha em si o desprendimento e o amor incondicional por aquilo que nunca pudera perceber, agora era indiferente a todos eles. A todos. Não mereciam nem o seu desprezo. Eram todos uns tolos cheios de pretensão, radicais do pouco. Eram verdadeiramente frouxos.

Caminhou em direção a imensidão azul, ali onde o vento soprava com violência suave. Senti-lo percorrendo seu rosto, cortando de leve suas expressões, murmurando silêncios em seu ouvido, dava-lhe a plena certeza de que a vida existia, de que estava ali dentro esperando ansiosamente pela moça que acreditasse nela. E ela acreditou. E todo o seu desespero transformou-se em riso. Eram verdadeiramente frouxos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

De Janeiro a Janeiro

Ontem, hoje, amanhã. Todos os dias agora parecem uma sucessão da mesmice, uma soma de rotinas. Não havia ali nenhum fulgor daquela rebeldia, nenhuma vontade declarada de gritar. Era só o silêncio se intercalando com o dia. E tudo ia como o resto – sem aquele gosto de vida. Não era vazio, não era indignação, não era. Aquilo que existia em si era a loucura e era o mundo. E contra eles só poderia reagir sem comedimentos, sem lucidez.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Mais do Mesmo 2: o debate que ninguém acredita


O primeiro encontro dos presidenciáveis ontem, quinta-feira, na Band, pintou a nossa televisão de cores mornas, enchendo de sono corações e mentes. O que poderia marcar uma nova etapa nas discussões políticas, com a ausência de Lula, presente em todos os debates na recente democracia brasileira, não tardou em mostrar carências de ideias, falta de efervescência nas críticas e alguma razão minimamente convincente que nos faça, no dia 3 de outubro, não apertar 00 e confirmar.

Não se trata de apostar que os outros debates tenham sido melhores, mais profundos e enérgicos. A questão é que, nesse momento em que tudo aponta para a descrença das instituições, para a falência de um paradigma em que já não se cria e já não se confia, esperar dos candidatos razões novas e sede de transformação radical do que aí está seria, no mínimo, uma forma de compensação ao eleitorado – tanto o que assistiu ao debate quanto àquele mais esperto, que dormiu.  Ouvir que a saúde e a educação precisam ser melhoradas porque são os pilares capazes de....zzzZZZ, nós já sabemos. Ouvir que segurança pública não se resolve somente como policiais armados, bala e ocupação de favela, mas com educação...zzzzZZZZ, nós também já sabemos – embora nunca entendamos porque as políticas de segurança pública sempre estão dissociadas das políticas de educação e continuam assumindo como prática que jovem negro da periferia bom é jovem negro da periferia morto.  Aceitamos impassíveis essa conversinha mole quando elas partem dos incontáveis candidatos a deputado estadual ou federal – quando a maioria deles, desempregados a procura de um dinheiro fácil, acham conveniente e de bom tom falar em termos simplistas sobre esses temas de apelo social. Mas, se temos a pretensão de contrariar Charles de Gaulle, e ser uma nação séria, não podemos engolir isso das pessoas que querem administrar a nossa soberania.

Enquanto isso, no auditório em São Paulo, vimos a candidata do governo se apoiar inseguramente nos feitos da sua gestão. Dilma-gaga parecia ter uma ânsia desesperada de mostrar resultados em todos os âmbitos, esquecendo-se de que não estava ali como mera prestadora de contas. Acontece é que, num governo tão cheio de contradições, com articulações tão amplas entre deus e o diabo, é comprometedor tentar abraçar tudo com conhecimento de causa. É um tiro no pé. E Dilma saiu mancando. Do outro lado, um José Serra tímido, contido, feito de uma resignação que coaduna com a necessidade velada também de se proteger do desastre que representou a Era F.H.C, da qual foi um árduo defensor. O PSDB ‘evoluído’, quase paz e amor, não é amadurecimento, mas sim a conseqüência de um partido moralmente degenerado, incapaz de ecoar os anseios populares e tratando o Brasil como se fosse aquilo que não é São Paulo – o resto.

Plínio é tendência. Só no Twitter, claro.

Acompanhei a repercussão do debate pelo twitter. O maior sucesso por lá foi a participação de Plínio de Arruda Sampaio. Com uma longa trajetória de luta nos movimentos sociais, ele foi o bobo da corte da noite. Um bobo da corte que fazia graça, evidentemente, pela ingenuidade feroz. Era o candidato necessário para desestabilizar a troca de afagos e de eu-fiz-e-vou-fazer-muito-mais dos demais presentes. Embora tenha feito a graça pelo dissenso, do ponto de vista do projeto político que Plínio representa – a esquerda dita socialista – sua intervenção foi um fracasso sem precedentes. E mais do que isso, causou tanta surpresa que as roupas brancas da executiva do PSOL devem ter enrubescido. O Plínio que eu conhecia, muitas vezes ao vivo, era um senhor de muitas ideias, de análises próximas da realidade, dos problemas da sociedade brasileira, alguém lúcido que lembrava os tempos mais áureos do pensamento comunista no país. Ontem, deu até vergonha. Mal conseguindo completar uma frase com sentido, repetindo de forma sistemática o feijão com arroz da esquerda de boteco meio-intelecutal, meio de esquerda, Plínio parecia desorientado até mesmo na hora de fazer as críticas e reflexões sobre o cenário de disputa política no país. O tom jocoso não raramente incidia sobre piadas desnecessárias e, por vezes,  machistas – quando da vez em que, respondendo a Marina Silva, evocou o personagem Poliana, da ‘mulherzinha ingênua’.

Surpresa boa mesmo foi ouvir Mariana – quando ela falou, claro. Nunca votei e não votarei em Marina Silva. O fato de ser evangélica e carregar uma série de preceitos arcaicos, como a questão do aborto, do casamento gay, etc, é um obstáculo do qual não tenho condições de superar.  Marina também foi a ministra que sucumbiu diante dos transgênicos, da lei de biossegurança, da transposição do São Francisco. Acreditou nesse governo até o último segundo até abandoná-lo em nome do carreirismo ou, se preferir, do oportunismo político deslavado. Vendo-a no debate embolar suas ideias com a de Dilma, está claro que Marina representa o continuísmo, mas o continuísmo que pauta suas propostas em práticas mais humanizadas.

Embora tenha todas essas reservas, o meu olhar sobre a sua fala ontem mostrou uma mulher, acima de tudo, lúcida, que não está perdida no meio dessa escuridão. Uma mulher de ideias claras, de postura firme e que parece carregar nas costas o peso de uma derrota anunciada, mas nem por isso menos significativa. Marina é a candidata que vai perder travando o bom combate. E, num país em que a derrota povoa o imaginário das nossas piores desgraças e temores, alguém ter orgulho dela a ponto de sair de cabeça em pé, com dignidade, é, no mínimo, uma qualidade louvável. Não é a toa que, mesmo em desvantagem, acredito que saiu vitoriosa do debate.

O fim da gestão de Lula nos deixou – e ontem foi um dia exemplar – com a aparente ilusão de que não há mais quadros políticos à altura, que saibam dosar carisma, competência, originalidade e capacidade de provocar reações diversas para além da monotonia. Desse engano, nós não padeceremos. Quadros existem. Gente quer criar coisas novas, quem tem sede disso, está espalhada pelos cantos brasileiros que, infelizmente, não são tão cantados assim pelas tv's, rádios e altas esferas. O que nos falta é entusiasmo e fôlegos para achá-los, para vê-los. E, embora sempre seja possível a opção do off ou do mute a  quem vê e escuta,  com tão poucas referências dormimos e acordamos com a  melancólica sensação de que toda essa estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos. 

Bom dia, sexta-feira. 




quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Mais do mesmo


Mandato de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu,
reles
esnobe
plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles

E a todos que sejam como eles
Todos!Monte de tijolos com pretensões a casa

Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo

Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar
Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Passai Frouxos
Passai radicais do pouco

Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo

Nenhuma idéia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma idéia grão

E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nadaEu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundoProclamo isso bem alto

Braços erguidos
Fitando o Atlântico
E saudando abstractamente o infinito."

Álvaro de Campos, em 1917