
De autoritarismo e de excessos, é sabido, a Rússia entende muito. Cerca de 90 anos após a primeira grande Revolução Comunista da história, o país que foi um dos principais palcos do mundo durante todo o século XX, agora se debate com questões que, bem, digamos, não refletem as preocupações mais urgentes da contemporaneidade. Como se não bastasse a volta da poderosa máfia russa, a inflação assombrosa, a corrupção deslavada de sucessivos governos, além da velha e sorrateira espionagem, herança maldita da União Soviética, os dirigente russos muitíssimos interessados com assuntos importantes, tipo a pobreza, aids e África, resolveram proibir, definitivamente, os jovens de se vestirem de emo. Tirando o discurso da defesa incondicional da liberdade de expressão, o mais patético da história (além dos emos, claro), é a alegação de que “de que a moda [emo] atue como incentivo a um comportamento anti-social, à depressão e ao suicídio entre adolescentes”. Ninguém se torna anti-social, depressivo ou comete um suicídio apenas por usar roupas pretas e pink, cintos com peças de metal, unhas bizarramente pintadas, piercings nas orelhas e sobrancelhas e cabelos pretos com franjas que cobrem metade do rosto. Ninguém mesmo. Num século como o nosso pega mal, muito mal explicar questões como essa dessa forma obscura. Eu, por exemplo, também defendo a extinção dos emos. É natural, é saudável e nos livraria da vergonha alheia. Eu acredito que dentro de cada ser humano existe um marco regular de sanidade e de bom senso. Nem sempre funciona, nem sempre dá mostra de sua existência, mas ta lá. E é, por isso, que considero que todas essas extravagâncias patéticas em busca de auto-afirmação, de construção de identidade, nada mais representam do que um distúrbio nesse marco regulador. É assim: ele dá defeito no indivíduo e a sociedade sofre as conseqüências. O que a nova lei pretende é apenas se livrar de algo que ela considera como sendo questão de saúde pública. Ora, acontece que moda nunca foi um problema de saúde pública. O que o governo não entende é que não são as roupas e suas múltiplas combinações as responsáveis por gerar um determinado tipo de comportamento social, mas sim o contrário: o comportamento, o jeito de ser e de pensar é que produz a moda. Portanto, se a idéia é acabar com o suicídio de adolescentes nojentos com carinhas afetadas através do inteligente procedimento de detonar com os seus trajes, esmaltes e apetrechos medíocres, então essa já é uma batalha perdida. É nessa parte que todo mundo senta, chora, ouvi My Chemical Romance, boceja e pensa saudosamente na falta que a turma do Dostoievski e do Lênin fazem.
(Na foto, um bebê levemente feliz por acreditar que a pós modernidade não pode produzir nada pior do que Pútin, emos e afins. Não me convence)