-Por acaso você não conhece alguém que gosta muito, que sente saudades, mas que não dá vontade de sair porque a pessoa não sabe ser agradável?
-Claro que conheço.
-Conhece?
-Claro que conheço. Você!
Sempre tão sincera.
O primeiro atingiu a pálpebra esquerda, trazendo-lhe o desconforto de estar no mundo. O outro caiu vertiginosamente contra a estrada que seguia. Vendo-o se transformar em nada, se desfazendo diante daquilo que poderia ser a imensidão, sentiu o infortúnio de rasgar-se em vida. E agora que existia, poderia contar algumas histórias
sábado, 28 de março de 2009
Asa a cobra
Se eu fosse o presidente do Brasil, a minha primeira medida provisória com ares de permanente seria fazer com que todas as escolas obrigassem seus alunos a lerem Raízes do Brasil, Ségio Buarque de Holanda( aquele que é pai do Chico, mas que não tem nada a ver com o Aurélio, ok? Nada). A obrigatoriedade valeria do grupo 05, pré-maternal, até o terceiro ano e funcionaria da forma mais prática e convinientemente mais arbitrária possível: quem não ler todo ano, nunca mudará de série, o que, claro, geraria o inconvinente de ter estudantes com 60 anos sendo pré alfabetizados, pintando os espaços em branco e colorindo o Tio Patinhas. Deus até dá asas a cobras, mas não a todos os tipos de cobras. E como eu não fui nem líder de sala, por opção própria diante do povo que teria de governar, me limito a divulgar o livro aqui e a fazer uns comentários de vez em quando em conversa de bar incitando os amigos mais avançadinhos a lerem também. Não é bondade intelectual, é sobrevivência material.
Na foto, a realidade nua, crua e rechonchudíssima de quem não entendeu que a frase "a poesia é pra se comer" era apenas uma metáfora.
domingo, 22 de março de 2009
O que fazer, né?
Contem quantas coisas se poderiam ser valorizadas em Kid Abelha? Tipo, som, letra, melodia, cantora, potência, etc? Quantas?[Pausa abrupta] .
E agora alguém poderia sugerir porque eles eram tão legais, faziam as melhores músicas de escola ever, eram tão anos 80 e fazem com que de ano em ano eu fique ouvindo os discos? Nem sei se o melhor seria Paula Toller voltar para o grupo porque, digamos, seria como se Ronaldo ficasse magro de novo e quisesse ir pra Copa, mas poderia ser extremamente positivo alguém contar pra ela que sozinha não vai rolar, quer dizer, nem está rolando.
Amanhã é 23 são oito dias para o fim do mês [pânico].
sábado, 21 de março de 2009
The Rest in the West;
John Fante é tão interessante, agradável e inteligente quanto John Steinbeck. Stuart Hall falou sobre a identidade cultural na pós-modernidade da maneira que eu acho que todos os intelectuais sérios devem fazer. João Bosco está aqui cantando incontrolavelmente O Ronco da Cuíca e uns sambas tão bons que não entendo com alguém não gosta dele. Já não seria motivo suficiente ter escrito O bêbado e o equilibrista? Enquanto essas coisas se sucedem fico perguntando como é que vou conseguir me livrar do encargo de 182 reais que Barack Obama está cobrando de mim (sim, sou importante) através do Citigroup (cujo pertencimento é praticamente do governo americano) por meio do Citibank que por sua vez se utilza do famigerado Credicard, com a bandeira Visa, e que tem um cartão específico para Universitários desavidados que contavam com o salário dos pais para pagar sua contas (sim, sou pior que uma ameba). A cada 100 reais que pago, eles cobram 182 de encargos na próxima fatura. Eu realmente perdi o controle e não sei como me livrar do cartão de crédito honradamente, se é que me entendem. Eu me sinto exatamente como qualquer pessoa que se dê o trabalho de fazer leituras críticas do mundo se sentiria vendo o que está sendo posto: desesperado. Sim, porque de um lado Barack Obama, tá soa exagerado? Então, de um lado o Citigroup, a beira da falência e dependente das generosas quantias do governo americano que enfia dinheiro na empresa e rouba os cargos executivos mais importantes, e do outro lado, eu, um deus de bermuda e pé-de-chinelo, reizinho nagô sem terreiro. Se Hall disse que a globalização ao comprimir espaço-tempo relativiza as identidades culturais, imaginem o que eu diria sobre o que acontece com a dignidade humana quando a globalização decide comprimir financeiramente os neosuperpobrinhos como eu? É tão ruim que nem vontade de beber sexta a noite a gente tem. Sentiu a gravidade?
Foto: Na divisão internacional do trabalho, eu já sei muito bem qual é meu papel. A questão é: dá pra trabalhar num lugar menos quente e longe dos meus pais?
Foto: Na divisão internacional do trabalho, eu já sei muito bem qual é meu papel. A questão é: dá pra trabalhar num lugar menos quente e longe dos meus pais?
quinta-feira, 19 de março de 2009
Soldadinho
Hoje fui no IEL atrás de uma vaga de estágio. A sensação abominável de estar desempregado, sem estágio, sendo classe média semi-pobre, a beira de falência, só não é mais desagradável e frustrante do que descobrir que aquele seu estágio que oferecia uma bolsa de 700 reais mais 90 de transporte numa empresa localizada no Centro da cidade foi preenchida por 4 seres hediondos sem emprego, sem estágio, de classe média semi-pobre e a beira da falência. Mas desespero mesmo é o nível que cheguei: mandei currículo para o gabinete de uma vereadora. Tá, assessorar políticos é um caminho a se pensar. Concordemos que na área de assessoria parlamentar basta um pouco de talento e muita esperteza e pronto, nunca mais vou precisar ir pra fila do IEL procurar um estágio desses pra mostrar que posso desempenhar o papel de uma pessoa talentosa (Ninguém precisa saber, de fato, que não tenho talento algum pra nada). E se meu talento encenado não for suficiente, eu posso atuar de pessoa corajosa. Já pulei até de parapente nos Andes e todos os dias me arrisco atravessando aquelas vias do Iguatemi. É por isso que estou convicto, se não consegui estágio ainda, é só por uma questão de foco. A partir de agora, estarei atento as vagas oferecidas para assistente de Dani Monteiro. Ela é meio bonitinha e encena o tipo descolada. E o mais importante: as aventuras sempre envolvem Caribe, água azul, hotel cinco estrelas, viagem paga e turismo de ponta.
Aqui Dani Monteiro "trabalhando" em Salta, norte Argentino. http://tvjam.ig.com.br/verprograma.aspx?p=8&e=41&c=1106&start=1
Foto: Eu também tenho experiência de estátua de cemitério. Me contratem.
Aqui Dani Monteiro "trabalhando" em Salta, norte Argentino. http://tvjam.ig.com.br/verprograma.aspx?p=8&e=41&c=1106&start=1
Foto: Eu também tenho experiência de estátua de cemitério. Me contratem.
quarta-feira, 18 de março de 2009
É bem aqui.
A máquina digital daqui de casa tem uma qualidade boa ainda que o estado de conservação dela seja deplorável. Eu quero ir ao capão na semana santa. Não encontro uma pessoa completamente disposta a isso. Mas, já é sabido, quando eu realmente quero uma coisa, só desisto com um visto negado. Então, vou apontar no mapa e uni-duni-tê (mudou com a reforma ortográfica?) escolher.
terça-feira, 17 de março de 2009
Amarelei
Desde que destruiram meu óculos, razoavelmente caro, belamente fotografável, o mundo se tornou um lugar menos escuro e mais torto. Minha cachorra está internada há mais de 24h. Nem quero falar muito disso para não acabar como Paulo Coelho escrevendo "vale de lágrimas" e clichês sentimentais. Ok, aproveitando me afoguei no O livro amarelo do Terminal, trabalho de conclusão de curso de Vanessa Barbara, jornalista daquele lugar feio (não é ironia), São Paulo. Hum, legal? Muito. Mas livros faceiros, finos e despretensiosos precisam ser mais do que legais para valerem R$35,00 e um frete da Saraiva.
Sorte de ontem: Um pouco menos de orgulho e mais livros legais emprestados trazem mais conforto para a sua fatura.
Foto: É, saudade existe mesmo. E essa história de dizer que o Brasil é o país das belezas naturais é tão chauvinista.
Felicidade é....

...abrir o site da Saraiva e rá:
| Produtos Solicitados | Qtd. Solicitada | Qtd. Atendida | Situação | Data | Cancelar item |
| 1933 Foi um Ano Ruim | 1 | 1 | Postado para Cliente | 17/03/2009 | - |
| Memória de Minhas Putas Tristes | 1 | 1 | Postado para Cliente | 17/03/2009 | - |
| Raízes do Brasil | 1 | 1 | Postado para Cliente | 17/03/2009 | - |
| A Identidade Cultural na Pós-modernidade - 11ª Edição 2006 | 1 | 1 | Postado para Cliente | 17/03/2009 | - |
segunda-feira, 16 de março de 2009
Dúvida

Se estava convicto de que não falaria mais dos filmes de Hollywood e de coisas que pairam num universo acima do meu, intocável, indisposto e indiferente as minhas opiniões e achismos, vou abrir uma singela e elogiosa exceção para comentar sobre Dúvida, do pouco conhecido mas muito competente, John Patrick Shanley. Vencedor do Pulitzer, dramaturgo e com fama de produzir grandiosas interpretações, Shanley, que além de diretor, escritor e responsável pela adaptação do roteiro ao cinema, construiu uma belíssima narrativa que tinha absolutamente tudo para dar certo, e deu. Mesmo porque uma produção que ostenta no mesmo elenco Philip Seymour Hoffman (vencendor do Oscar por Capote e indicado a ator coadjuvante nesse ano) e a Meryl Streep que dispensa a enumeração de prêmios visto que a lista é longa e esse texto pretende ser curto, passaria longe das suspeitas mais vigorosas. Perto deles, qualquer bom ator fica vulnerável. Num dado momento, a grandiosidade é tamanha que esquecemos que são atores encenando, emprestando o corpo, a voz e a alma à irmã Aloysius e ao padre Flynn, seus personagens e nos deparamos com duas pessoas conhecidas numa conversa corriqueira.
A narrativa não faz o tipo fácil, óbvia e comum. Para o público acostumado a embarcar numa locomotiva, conduzida pelo diretor, até a redenção final com a exposição plena e esmiuçada dos fatos e a constituição de uma verdade, certamente, decepção virá. Dúvida é uma metalingugem e uma metáfora de si mesmo. Não foi feito para ter certezas, ainda que como bem sinalize o padre Flynn, o poder e consistência da dúvida seja tão forte e poderosa quanto o da certeza. Nada mais discplicente se buscasse a apreensão do filme somente pelo seu argumento mais claro: houve ou não um caso de assédio sexual na Escola St. Nicholas? Seria o Padre Flynn um dissimulado, pedófilo e desequilibrado ou estávamos diante de um transgressor, de um visionário em busca de uma reforma profunda nos dogmas de uma Igreja Católica notadamente consevadora e hermética frente aos liberais anos 60 ? E quanto a irmã Aloysius, estava realmete seca como aquelas folhas de um outono severo se escondendo em baixo dos seus pés ou era uma mulher que acima da severidade matinha a coerência? Certamente não se pode esperar esperar sempre de um diretor ou roteirista a obrigação de saciar as dúvidas do seu público. Isso nem seria desejável.Quando bem construído, a técnica de explicar-pouco-provocar-mais funciona de maneira impressionante. O mesmo critério serviu para o também excelente Os Estranhos, filme de suspense e terror que realmente atende a prerrogativa básica de um filme desse gênero que é provocar o medo, o susto, o assombro. No caso da Dúvida, a sutileza e sofisticação, evidentemente, é maior. Aqui pouco importa a sua necessidade de saber um ponto de vista e se apegar a ele como um dogma imutável. Também não é o mais importante saber quem estava com a razão, quem estava mentindo, quem manipulou deliberadamente. É como no clássico Dom Casmurro. Ainda que as pessoas insistam maciçamente na discussão pouco racional, muito óbvia e de compreensão mais fácil para os muitos que não tem afinidade com literatura ou mesmo familiaridade com a análise do discurso, sobre se Capitu é adúltera ou não. O que conta no livro de Machado e no filme de Shanley é a construção da linguagem, é o poder dessa linguagem frente a construção da própria narrativa. É aí que reside o atrativo principal e, especialmente, no caso de Machado o toque de genialidade.
A câmera não pode se reduzir à tradução do mundo. Deve ser um recorde, uma abordagem específica, a apresentação de uma versão, o contar de uma história sob um determinado ponto de vista numa determinada cirscuntância, que ratifica a subjetividade humana e, conseqüentemente, provoca em todos o constante questionamento daquilo que se manifesta. Nesse jogo de pistas, reversos, alterações, construção e desconstrução, o roteiro dá movimento e essência aos personagens. Se num primeiro momento, tem-se a impressão de que a irmã Aloysius é um monstro medieval, num outro cria-se afeto e até mesmo cumplicidade e aprovação pelas medidas sérias adotas pela freira como única forma de manter a ordem, a ética e a integridade. E tem um leveza cômica, um riso de canto de boca, uma desconfiança constante. Entre os esconderijos e uma cadeia de pistas, que não podem ser definidas nem como falsas nem verdadeiras, chegamos ao momento que, a desconhecida e incrível, Violeta Davis contracena com Meryl Streep. Discutiam o comportamento do filho do personsagem de Violeta, o primeiro estudante negro a fazer parte de uma escola branca e de filhos de descendentes diretos de Europeus endinheirados. Enquanto Aloysius acreditava piamente na culpa do padre, disposta a expulsá-lo da escola a qualquer preço e claramente incomodada com o carisma, simpatia e progressismo de Flynn, o público, a essa altura, passa a desconfiar até mesmo da irmã James, personagem coadjuvante e de relevância considerável para a realização da obra. Acontece que a revelação de que a criança apanhava do pai porque se assemelhava com homossexuais seria a prova que faltava para culpar Flynn. A mãe, numa acesso impecável, afirma categoricamente que não interessa o que padre podia ter feito, abre mão de certa dignidade que também é posta em dúvida, sob a alegação aceitável de que num mundo dividido por tantas cores, diferenças e falta de oportunidade, o filho tinha alguém que o tratava como igual. Assim, ao invés de esclarecer algum impasse, cria-se outros questionamentos.
E mesmo na última cena, extremamente simbólica, em que a irmã James e a irmã Aloysius, se fundem numa só, tamanha a aproximação e reconstrução de identidades, a dúvida permanece inquieta, sorrateira e instigante. Tal como a América no ano de 1964, com a morte de JFK e a turbulência de tantas mudanças em marcha, e , exatamente. da mesma maneira que o mundo se encontra hoje. E o que agrada é a desconstrução constante de valores e crenças. Se isso não ajuda (por sorte) a entender o filme pela maneira convencional, ao menos pode servir para que as nossas cabeças iluminadas aprendam que aquilo que acreditamos é só a nossa verdade e qualquer tentativa de imposição sobre o outro senão inútil, é totalmente sórdida e por que não desproposital?
Na foto a dupla que só pelo encontro valeria qualquer filme.
A narrativa não faz o tipo fácil, óbvia e comum. Para o público acostumado a embarcar numa locomotiva, conduzida pelo diretor, até a redenção final com a exposição plena e esmiuçada dos fatos e a constituição de uma verdade, certamente, decepção virá. Dúvida é uma metalingugem e uma metáfora de si mesmo. Não foi feito para ter certezas, ainda que como bem sinalize o padre Flynn, o poder e consistência da dúvida seja tão forte e poderosa quanto o da certeza. Nada mais discplicente se buscasse a apreensão do filme somente pelo seu argumento mais claro: houve ou não um caso de assédio sexual na Escola St. Nicholas? Seria o Padre Flynn um dissimulado, pedófilo e desequilibrado ou estávamos diante de um transgressor, de um visionário em busca de uma reforma profunda nos dogmas de uma Igreja Católica notadamente consevadora e hermética frente aos liberais anos 60 ? E quanto a irmã Aloysius, estava realmete seca como aquelas folhas de um outono severo se escondendo em baixo dos seus pés ou era uma mulher que acima da severidade matinha a coerência? Certamente não se pode esperar esperar sempre de um diretor ou roteirista a obrigação de saciar as dúvidas do seu público. Isso nem seria desejável.Quando bem construído, a técnica de explicar-pouco-provocar-mais funciona de maneira impressionante. O mesmo critério serviu para o também excelente Os Estranhos, filme de suspense e terror que realmente atende a prerrogativa básica de um filme desse gênero que é provocar o medo, o susto, o assombro. No caso da Dúvida, a sutileza e sofisticação, evidentemente, é maior. Aqui pouco importa a sua necessidade de saber um ponto de vista e se apegar a ele como um dogma imutável. Também não é o mais importante saber quem estava com a razão, quem estava mentindo, quem manipulou deliberadamente. É como no clássico Dom Casmurro. Ainda que as pessoas insistam maciçamente na discussão pouco racional, muito óbvia e de compreensão mais fácil para os muitos que não tem afinidade com literatura ou mesmo familiaridade com a análise do discurso, sobre se Capitu é adúltera ou não. O que conta no livro de Machado e no filme de Shanley é a construção da linguagem, é o poder dessa linguagem frente a construção da própria narrativa. É aí que reside o atrativo principal e, especialmente, no caso de Machado o toque de genialidade.
A câmera não pode se reduzir à tradução do mundo. Deve ser um recorde, uma abordagem específica, a apresentação de uma versão, o contar de uma história sob um determinado ponto de vista numa determinada cirscuntância, que ratifica a subjetividade humana e, conseqüentemente, provoca em todos o constante questionamento daquilo que se manifesta. Nesse jogo de pistas, reversos, alterações, construção e desconstrução, o roteiro dá movimento e essência aos personagens. Se num primeiro momento, tem-se a impressão de que a irmã Aloysius é um monstro medieval, num outro cria-se afeto e até mesmo cumplicidade e aprovação pelas medidas sérias adotas pela freira como única forma de manter a ordem, a ética e a integridade. E tem um leveza cômica, um riso de canto de boca, uma desconfiança constante. Entre os esconderijos e uma cadeia de pistas, que não podem ser definidas nem como falsas nem verdadeiras, chegamos ao momento que, a desconhecida e incrível, Violeta Davis contracena com Meryl Streep. Discutiam o comportamento do filho do personsagem de Violeta, o primeiro estudante negro a fazer parte de uma escola branca e de filhos de descendentes diretos de Europeus endinheirados. Enquanto Aloysius acreditava piamente na culpa do padre, disposta a expulsá-lo da escola a qualquer preço e claramente incomodada com o carisma, simpatia e progressismo de Flynn, o público, a essa altura, passa a desconfiar até mesmo da irmã James, personagem coadjuvante e de relevância considerável para a realização da obra. Acontece que a revelação de que a criança apanhava do pai porque se assemelhava com homossexuais seria a prova que faltava para culpar Flynn. A mãe, numa acesso impecável, afirma categoricamente que não interessa o que padre podia ter feito, abre mão de certa dignidade que também é posta em dúvida, sob a alegação aceitável de que num mundo dividido por tantas cores, diferenças e falta de oportunidade, o filho tinha alguém que o tratava como igual. Assim, ao invés de esclarecer algum impasse, cria-se outros questionamentos.
E mesmo na última cena, extremamente simbólica, em que a irmã James e a irmã Aloysius, se fundem numa só, tamanha a aproximação e reconstrução de identidades, a dúvida permanece inquieta, sorrateira e instigante. Tal como a América no ano de 1964, com a morte de JFK e a turbulência de tantas mudanças em marcha, e , exatamente. da mesma maneira que o mundo se encontra hoje. E o que agrada é a desconstrução constante de valores e crenças. Se isso não ajuda (por sorte) a entender o filme pela maneira convencional, ao menos pode servir para que as nossas cabeças iluminadas aprendam que aquilo que acreditamos é só a nossa verdade e qualquer tentativa de imposição sobre o outro senão inútil, é totalmente sórdida e por que não desproposital?
Na foto a dupla que só pelo encontro valeria qualquer filme.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Zootécnicos sabem lidar com Antas?

Eu nunca achei que pudesse discriminar alguém pela escolha do curso , a não ser eu mesmo, claro. Até porque sempre defendi que a universidade não deve ser vista como o único caminho para salvar os jovens desesperados com a initerrupta crise do mundo, com o seu vazio por não ser nada nem ninguém e blablabla. Entrar na Universidade tem algo ligado a vocação. E, vamos admitir, as pessoas ou não tem vocação ou, geralmente, não sabem reconhecê-la. Pois bem, fui apresentado indiretamente a uma amiga de uma amiga minha que faz o curso de Zootecnia na Ufba. Ninguém faz Zootecnia por vocação, sacerdócio ou sonho de infância. E posso afirmar isso com a certeza de que as pessoas só sabem que existe um curso superior desse quando, no seu terceiro ano escolar ou no quinto ano de cursinho (caso dela), se deparam com a lista de cursos oferecidos pela instituição. E é, precisamente, nessa hora que surge a brilhante idéia: já que eu não posso entrar numa universidade federal fazendo medicina por que não, não é mesmo minha gente, tentar um curso similar, tipo Zootecnia, em que o único concorrente de peso é a minha própria massa cinzenta (ou a inexistência dela)? Por essa lógica incrível, que combina o sentimento de não suporto-mais-cursinho com a sutil ameaça que os pais fazem (ou passa ou sai de casa), a menininha foi lá e se inscreveu em Zootecnia.
Agora, voltemos a minha idéia de que universidade é vocação. Alguém, sinceramente, acha que uma pessoa cujo nome é Kelyne (com K e com Y mesmo) teria alguma vocação natural, espontânea, para estar num ambiente universitário? Não, né, não. Daí que ela fez vestibular, teve um sonho inesperado, sabe? E aí o anjo disse, Vai Kelyne, vai ser Zootécnica na vida. E ela foi. E se tremeu toda com a possibilidade de perder na segunda fase em que a concorrência é de meia pessoa para uma vaga e meia. Na véspera do vestibular, foi buscar ajuda na casa dessa minha amiga, um pacote mínimo de química, física e biologia pra não zerar a prova. Achou tudo tão complicado, tudo tão cheio de números, códigos, genes, reações, soma, divisão e multiplicação que na terceira hora pediu dispensa: Desisto! E naquele esquiminha meio rebelde sem causa, foi fazer a prova no estilo seja-lá-o-que-deus-quiser. E, Deus, não satisfeito em vê-la espalhando pelo mundo comum pérolas do tipo "Preciso Almusar" "Vou deichar ligado" "agente" e outros, quis que Kelyne, linda e bela (será?), passasse no vestibular. E lá está ela agora. Sentada, feliz, numa universidade pública, recheando os sonhos dos pais e da família e absorta com a possibilidade de sair da sala sem pedir ao professor. Kelyne é do tipo que se incomoda com o dogma de sorte no jogo, azar no amor (e vice-versa). E, se o jogo vai bem, por que não usar a boa fase para buscar uma paixão? Paixão daquelas bem fortes, vermelhas, que comemoram aniversário de namoro mandando carro de som pra porta da faculdade . E falando em namorado, ela até tinha um, sabe? Mas, como muitas coisas, fracassou. A explicação foi pragmática, imcompatibilidade de agendas: quando ela queria ir ao motel, ele não podia e quando ele podia ela não queria. Ok, agora, desempedida, universitária, cheia de planos mirabolantes na cabecinha, a menina vai levar a sério o papel de gatchenha descolada: quer mesmo é beijar na boca e ser feliz antes de mais nada, como bem nos ensinou a filósofa do verão baiano, Claudinha Leitte. Aos interessados, Kelyne é do tipo que preza pela privacidade da vida íntima, entendem? Assim, se está solteira a melhor forma é esconder o máximo que pode, não deixar os outros saberem. E, por isso mesmo, divulgação do status civil, por uma questão de princípios, só se for no nick do Msn ou na necessidade pública e veemente de encontrar o quanto antes um par de calças: "Preciso conhecer seus amigos homens!".
Se alguém souber a direção dessa desmiolada, corre, mas corre mesmo porque, nesse caso, o perigo é real.
Foto: Já que no zoológico de lá não tinha Anta, fica aí o Elefante.
Agora, voltemos a minha idéia de que universidade é vocação. Alguém, sinceramente, acha que uma pessoa cujo nome é Kelyne (com K e com Y mesmo) teria alguma vocação natural, espontânea, para estar num ambiente universitário? Não, né, não. Daí que ela fez vestibular, teve um sonho inesperado, sabe? E aí o anjo disse, Vai Kelyne, vai ser Zootécnica na vida. E ela foi. E se tremeu toda com a possibilidade de perder na segunda fase em que a concorrência é de meia pessoa para uma vaga e meia. Na véspera do vestibular, foi buscar ajuda na casa dessa minha amiga, um pacote mínimo de química, física e biologia pra não zerar a prova. Achou tudo tão complicado, tudo tão cheio de números, códigos, genes, reações, soma, divisão e multiplicação que na terceira hora pediu dispensa: Desisto! E naquele esquiminha meio rebelde sem causa, foi fazer a prova no estilo seja-lá-o-que-deus-quiser. E, Deus, não satisfeito em vê-la espalhando pelo mundo comum pérolas do tipo "Preciso Almusar" "Vou deichar ligado" "agente" e outros, quis que Kelyne, linda e bela (será?), passasse no vestibular. E lá está ela agora. Sentada, feliz, numa universidade pública, recheando os sonhos dos pais e da família e absorta com a possibilidade de sair da sala sem pedir ao professor. Kelyne é do tipo que se incomoda com o dogma de sorte no jogo, azar no amor (e vice-versa). E, se o jogo vai bem, por que não usar a boa fase para buscar uma paixão? Paixão daquelas bem fortes, vermelhas, que comemoram aniversário de namoro mandando carro de som pra porta da faculdade . E falando em namorado, ela até tinha um, sabe? Mas, como muitas coisas, fracassou. A explicação foi pragmática, imcompatibilidade de agendas: quando ela queria ir ao motel, ele não podia e quando ele podia ela não queria. Ok, agora, desempedida, universitária, cheia de planos mirabolantes na cabecinha, a menina vai levar a sério o papel de gatchenha descolada: quer mesmo é beijar na boca e ser feliz antes de mais nada, como bem nos ensinou a filósofa do verão baiano, Claudinha Leitte. Aos interessados, Kelyne é do tipo que preza pela privacidade da vida íntima, entendem? Assim, se está solteira a melhor forma é esconder o máximo que pode, não deixar os outros saberem. E, por isso mesmo, divulgação do status civil, por uma questão de princípios, só se for no nick do Msn ou na necessidade pública e veemente de encontrar o quanto antes um par de calças: "Preciso conhecer seus amigos homens!".
Se alguém souber a direção dessa desmiolada, corre, mas corre mesmo porque, nesse caso, o perigo é real.
Foto: Já que no zoológico de lá não tinha Anta, fica aí o Elefante.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Hey, Twitter.
Eu deletei o Twitter por achar aquilo lá uma bobagem sem fim e sem fins. E continuo achando. Mas reconheço que, às vezes, é importante dizer ao mundo o que está sentindo ou, no caso, fazendo. Mesmo que esse mundo, claro, se resuma a você num monólogo interminável com você mesmo. Tipo, meu caso. Daí que estou com uma dorzinha de cabeça chata desde o domingo ou talvez segunda. Nunca sei precisar quando fico levemente abalado. Até pensei que fosse dengue, mas os sintomas pararam na dor de cabeça. Agora acabei de tomar um daqueles analgésicos super providencias e posso até olhar pra tela do computador sem vontade de quebrá-la. E estou aqui vendo Chico cantar Roda Viva, em 1967, mandando currículo para estágios e pensando na vida enquanto crio coragem para retomar a leitura de Gramsci (Os Intelectuais e a Organização da Cultura). O mais surpeendente do livro foi ver que tem um carimbo imenso sinalizando: Tombamento Patrimonial da UFBA. Levando em consideração as folhas quase soltas, a contra-capa presa por uma etiqueta bizarra e o cheiro, literalmente, desesperado do livro, acho que o tombamento veio tarde demais ou, na melhor das hipóteses, veio com ares de piada mal resolvida.
Ok, voltemos a Gramsci.
Ok, voltemos a Gramsci.
terça-feira, 10 de março de 2009
O Leitor

Se eu tivesse recursos, um pouco mais de vontade, interesse e tempo livre (tá, eu até tenho tempo livre), eu faria um levantamento sobre quantas vezes Hollywood produziu filmes sobre o Nazismo e como, surpreendentemente, consegue se renovar dentro da mesmice do tema. O primeiro filme que vi sobre nazismo foi A lista de Schindler, do Spielberg, lançado em 1993, mas só disponível nas locadoras do interior da Bahia, em 95. Apesar de ter apenas sete anos, ler as legendas e passar 3h diante de uma televisão vendo um filme preto e branco, isso não é que o que se pode considerar como um trunfo quando as opções de lazer para aquelas crianças se limitavam a desenhos animados nada favoráveis à nossa cognição. Antes de Spielberg deve ter tido algumas centenas de filmes A, B, C, D que começa m num plano cinza e com as letrinhas indicando o ano, Alemanha, 1936. Eu não reclamo. Gosto tanto de história que não reclamo. Se eu tivesse conhecido Hobsbawn antes de entrar na universidade, talvez minha escolha do curso tivesse mais coerência e inspiração. Mas como estou na Facom, respirando um ar de cultura bastante rarefeito, me enfiei no cinema pra assistir O Leitor, e pá, vamos lá, mais um. Kate Winslet é convincente. Já gostava dela desde que fez Titanic, sei lá, atores britânicos são naturalmente melhores que os americanos. E o filme é instigante, ainda que Ralph Fiennes, sinceramente, não vai conseguir fazer nada melhor do que sexo no banheiro do avião com uma aeromoça e o meio chato O paciente Inglês, claro. O Leitor é um jogo de sedução, a perda de inocência, a descoberta de si próprio, a redescoberta do mundo pós-guerra, uma fonte que clareia os limites entre a fronteira do sensual e do erótico, sem cair na apelação gratuita. É um livro e, como tal, amplia os horizontes do conhecimento, constrói novas perspectivas, provoca mudanças, irrita e não tem um fim propriamente dito. A justificativa do filme é boa. A narrativa é boa. Mas essa conversão do filme num reflexão social sobre o nazismo e essa história de que as pessoas nem sempre sabiam o que estavam fazendo, e toda aquela coisa sobre os 6 milhões de judeus mortos pelo III Reich, isso, bem, isso não é tão bom assim. E não é tão bom assim porque me parece que os diretores aprenderam que enredos bem feitos, com atores bons, tem mais chance de ganhar o Oscar e baboseiras do tipo, se colocarem uma suástica bem no meio da tela e provar pra meia dúzia de judeus que julgam esses prêmios que eles também são solidários com a causa e o sofrimento desse povo errante. E ainda que isso não chegue a prejudicar o filme, não é nada muito criativo. Mas Stephen Daldry, o mesmo que dirigiu o excelente e melhor do que O Leitor, As Horas, continua absolutamente comovente. O Leitor, mesmo sendo bom, do começo ao fim, poderia ser incrivelmente melhor se continuasse sem aquele julgamento, aquelas cenas do tribunal e aquele professor cheio de boas intenções dando conselhos e fazendo aqueles questionamentos forçados. Porque, às vezes, o cinema é melhor quando faz a gente pensar menos e sentir mais.
domingo, 1 de março de 2009
Mais um sonho impossível (ou nem tanto assim)...
Se de repente eu sonho que meu pai pertence a um grupo de extermínio, que minha mãe o ajuda com a munição e que eu vou tomar banho de cachoeira num povoado chamado Oricó, é porque a vida não deve estar muito boa. E realmente não está. Achei esse sonho tão significativo que em algum ponto para além da cena grotesca, deve ter alguma coisa de real nisso tudo. É como me sinto.
Arrependimento: Eu acho que nesse exato momento, há pouco mais de sete horas, antes do começo do semestre eu conclui que tomei a decisão errada - pra variar, claro. Era melhor ter ido pra Londres, passado dois meses e meio, aprender pouco inglês e ser feliz o resto do ano inteiro, do que ter ido pro país vizinho e ter ficado pobre da noite pro dia.
Foto: Pra falar a verdade, acho tosco isso de explicar as fotos, mas nunca disse que criatividade era meu forte (se é que tenho algum). Eu bem queria me atirar de novo nisso aí. Por alguns minutos, sentir a linha tênue entre vida e morte. Estranho de explicar, estranho...
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