Abdicar do mundo e fazer da vida apenas um instante ou um renascimento diário tem sido provavelmente uma das maiores ambições da juventude, do espírito de juventude, pra ser mais genérico. Há 60 anos, na segunda metade do século XX, no desolado pós-guerra, a humanidade tomou de assalto esse sonho e pintou muros, paixões e uma história inteira não pra ser contada, mas para ser vivida na intensidade daqueles tempos. É desse sonhar impossível que nos fala Jack Kerouac em On The Road, originalmente escrito nos últimos anos da famigerada década de 40.
Costuma-se no meio literário repetir com veemência que ler somente os grandes clássicos de uma época ou de um só autor é uma das bobagens mais empobrecedoras da vida. Este é um fato. Não lê-los, entretanto, ultrapassa qualquer limite razoável demarcado pela besteira: é um ato de estupidez. Considerado com Ícone da geração hippie, ícone da geração beat, ícone de um monte de coisas que viriam a estourar nos anos subseqüentes, On the Road é, a bem da verdade, uma fotografia dinâmica de um novo despertar. Décadas e décadas se passaram e lemos a história de Sal Paradise e de Dean Moriarty na apreensão e na certeza de que a próxima página resvalará numa explosão de tudo o que se mostra podre, infecundo, obsoleto. E assim o foi e assim o é.
Nesse ponto reside o poder de um clássico. A capacidade de manter permanentemente viva a chama e o envolvimento do que está sendo narrado. Em On The Road não estamos lidando com impressões, mas com certezas. É com convicção que desejamos a liberdade de romper as rígidas relações sociais que mesmo quando se transformam continuam velhas, que pretendemos nos lançar na estrada para assistir o mais o bonito nascer do sol, para dizer que cada dia é uma vida nova e é preciso fazê-la acontecer. Tampouco há titubeios em arrumar a mochila com o essencial e desbravar o novo, cruzar o país, as fronteiras, chegar ao íntimo das coisas e das pessoas somente pelo prazer de senti-las pulsar. “Não havia cidades, povoados, nada, apenas a selva, selva interminável, quilômetros e quilômetros e quilômetros”, diz Sam.
A leitura de Kerouac é a da ruptura. Cortam-se estruturas inteiras para fazer o tempo se encontrar com o espaço. E o local desse casamento é a estrada, a busca incansável, a inquietude, o dizer não três vezes, tal como Judas, ao que permanece. “Ele estava atingindo sua decisões taoístas de uma maneira simples e direta. ‘Qual é a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada...Há sempre um estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?’. As respostas são tão efêmeras quanto a durabilidade do velho Ford 37 cruzando Denver, Texas, Frisco ou o México. Não sabemos, não queremos saber e isso não nos faz a menor diferença – desde que tenhamos alguns dólares, dois litros de gasolina, uma jukebox, Billie Holiday e o sabor do primeiro trago de um Lucky Strike.
Mesmo sendo dividido em cinco partes, o livro não é um vai e volta. Não há pontos de chegadas, só partidas, só o ir além e além. Da vida pregressa de cada personagem pouco se sabe. Isso talvez tenha motivado a crítica a atacá-lo como um romance de figuras rasas. Embora não haja esse tipo de detalhamento psicológico (saliente-se aqui proposital), os conflitos que perfazem a profundidade daqueles jovens estão todos ali – as vezes nas entrelinhas, as vezes expostos a olho nú. Independente do ritmo e do descompasso que existe entre eles, sabe-se que estão perseguindo o mesmo caminho.
Eventualmente, alguém se dá conta de tanta busca desajeitada e tão necessária para ratificar os compromissos com o presente vivido a queima roupa: “O velho Stan está certo, o velho Stan não está nem aí. Continua com a cabeça tão feita por causa daquelas mulheres, daquela maconha e daquele mambo do outro mundo impossível de absorver, tão estridente que meus tímpanos continuam zumbindo – uau! Ele está tão doido que só ele sabe o que está fazendo.” Só ele sabe o que está fazendo é o resguardo do autor para que não se tente apreender ou descobrir tudo sobre os personagens. É como se ele dissesse: “Ei, não adianta querer entender o que significa o mundo impossível dele, porque dessa responsabilidade e desse conhecimento só ele pode partilhar.” Ou de uma forma mais grosseira: Dá o fora da vida dele.
O que salta aos olhos não é simplesmente a ideia de que a vida imita a arte – uma vez que o livro é anterior aos anos 60 – mas como as duas coisas estão imbricadas de forma inseparável. Não sobreviveriam em dimensões distintas. Os personagens se tornam tão próximos do leitor que nasce ali uma amizade. E se essa relação poderia esbarrar nos limites da obra ficcional, ela se realiza na absorção do mundo impossível que ali materializamos. Sim, tudo em On the Road – Pé na Estrada (também não entendi a bizarrice do título em português) vira palpável – está ali, sem a menor dose de súplica ou auto-ajuda – em nossas mãos. Exatamente como a geração posterior ensinaria ao mundo que pra ser realista é preciso exigir, no mínimo, o impossível.
Como também escreveu Kundera, de tradição diferente, mas não menos emblemática, Kerouac nos diz que a vida está em outro lugar. O tempo todo é preciso viajar, se desprender de si para encontrá-la, para se reencontrar – na fuga e na eterna ausência/presença do passageiro. Essa tônica é o que certamente tem inspirado e encantado gerações que se debruçam sobre aqueles lugares, cheiros, cidades, pessoas, sexo, drogas, excessos sem culpa e por que não vaidades? Toda poeira desse nosso caminho é para ser sacudida sem acuidade.
Assim On The Road, lido ou não por um jovem sul americano sem bússolas, mas com ordem deliberada de partida, lembra a vibração e poder de As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. A tensão incansável entre o ser humano e o ímpeto é aqui revisitada de forma visceral. Se você não se contamina pelo desejo irrepreensível de mudança, de avanço e de derrubada, ao menos se deixar atentar, reparar que algo pode e deve ser diferente. Esse sentimento é o que precisamente nos dá licença para protestar frente aos acadêmicos sisudos: a literatura não é passatempo, não é bobagem para ocupar os espaços vazios.
A literatura é um conhecimento de si, do pertencimento com o que existe. É nascer do sol, é como a vida que Kerouac mostrou: sempre estrada. Ou como transcreveu Sal:“Quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice. Penso então em Dean Moriarty, penso no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos, penso em Dean Moriarty”.
Foto: Billie Holiday.







