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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Em outro lugar ou aqui.

Olhando, com sensata timidez, os carros e as pessoas que lhe cumprimentavam, respondia sempre com aqueles murmúrios incompreensíveis. Tinha medo de todas elas. Nenhuma lhe tocava: pareciam todas limpas. Limpas em suas rotinas, em seus estudos, festejos. LIM-PAS - repetia devorando saborosamente cada sílaba. Aquilo era o seu ritual asséptico.

Andou em direção a beirada para ver o mar. Vinham todas, todas, todas, todas, lá de onde a vista não alcança. As ondas subiam, avançavam, arrebentavam-se na sua frente. E outra lá atrás emergia com mais voracidade, com sede violenta de lhe mostrar a vida. Arrebentava-se. E, de novo, nascia uma onda que somava-se a outra e, naquele galope branco de espumas e sal, rumava decidida contra ele. Vendo essa explosão inexplicável, esse oceano escapando para o abstrato e todo aquele e vir morrendo diante de seus olhos, entendeu porque deveria continuar. Era a vida e isso era tudo e nada mais.

quarta-feira, 31 de março de 2010

De manhã


Foi como se repentinamente o desejo de não fazer nada tivesse se tornado senhor absoluto do seu corpo. Sentia-o percorrendo cada passagem misteriosa, interpelando cada pequena veia, provocando a dor nos seus traquejos. Alguma coisa, sabia, tinha sido deslocada de sua história. Só mesmo quem experimentou a profunda agonia de não fazer parte poderia mitigar seus demônios. Mas compreendia que isso era de uma vaguidão improvável. Até mesmo aquela cidade, entregue as alegrias famintas e aos heróis violentos da miséria, poderia agora evocar-lhe com segurança o significado de estranheza. Pois sim, a vida que se arrebentava contra os dias, as pessoas que não se entendiam consigo e o dissabor do pertencimento a tudo isso, não lhe poderiam ser mais do que mera estranheza. Assim mesmo, tal como o som da palavra impunha, se embolava na suavidade, no peso e no corte sangrento do seu equívoco. Indizivelmente percebia que o seu tempo ali, que a sua presença tão sutilmente desprezível pelos esbarros do cotidiano, não precisavam mais de sentido, de vinculação, de prosseguimento. E queria partir. Porque se tinha em si o desejo de não fazer nada, tinha no mundo o desejo irrepreensível de fuga. Quando aquela manhã encostou-se suave nas suas imperfeições, caminhou sobre o vento numa rota insegura, desprendida e supostamente vazia.

terça-feira, 9 de março de 2010

Março


Duas mangas e um abacate, senhor. É isso que sou agora. Contra qualquer tipo de pretensão moral, política e bobagens egocêntricas, é tudo o que sou agora. Perguntava-me, afinal, se aquilo seria a luta desesperada pela vida? Sim, era aquilo. Era precisamente daquilo que falavam as antigas canções, entoadas pelos mais velhos. A luta pela vida é tão intensa e perseverante que, mesmo quando não há mais vida, ela não desaparece. Continua ali, se debatendo num corpo vazio, degradado pelas intempéries e desonestidades do mundo, procurando perdida uma veia capaz de rasgar-se em vida.

Aquela criatura que certamente não percebia minha presença, que não me olhava, que não me sentia; aquela criatura morta, de miserável existência, que parecia não existir para mim, carregava dentro si algo impossível de ser tocado pela racionalidade bruta. Existia, dentro dela, a luta pela vida. Assim, assistindo nu à sua ferocidade absolutamente destemida engolindo-me, eu não era absolutamente nada – somente um abacate e duas mangas. E isso em mim, creio, também era a luta pela vida.