Assim vou deixando de ser aos poucos, me apagando no café da manhã, no galho caído, na curiosidade de qualquer transeunte, na dor de ninguém. Vejo em mim uma vontade cansada de partir, um desejo inescrutável de novidade. Novidade do que sou e de todo o resto.
O primeiro atingiu a pálpebra esquerda, trazendo-lhe o desconforto de estar no mundo. O outro caiu vertiginosamente contra a estrada que seguia. Vendo-o se transformar em nada, se desfazendo diante daquilo que poderia ser a imensidão, sentiu o infortúnio de rasgar-se em vida. E agora que existia, poderia contar algumas histórias
sábado, 18 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Configuração
Tive que alterar o layout do blog pra essa coisa semi-bizarra e confusa porque o blogspot está com a página inicial toda desconfigurada. A parte de apresentação, quem sou eu, antecedentes, etc. está toda lá embaixo. Dai, como ainda não descobri o que está acontecendo e como se resolve (Alguém SABE?) adaptei para esse layout. A questão é que as coisas continuam lá embaixo. Não foi uma troca muito vantajosa, eu sei.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Há uma semana
Antes que o relógio pudesse marcar seis horas e que a Ave Maria anunciasse no rádio o repouso do dia, trouxeram a notícia de sua partida. Lá já se reconhecia que tudo sempre é repentino, súbito, e que a morte é por excelência o ato mais dramático dessa peça que vivemos. De repente, ficou ali naquele ventre o desespero se debatendo em grunhidos, um pouco de sangue tentando alimentar uma vida que já não existia. Deitado, tremendo, tal qual ela deve ter tremido, fechando e abrindo os olhinhos como sempre fizera, pensaram juntos em tantas coisas. Ele levantou-se e ela se foi. Não poderiam compreender esse manto invisível que nos cobre e que nos leva ao ser. Diante disso, desse medo, desse não saber, viviam. E para viver também era preciso ir.
domingo, 5 de setembro de 2010
Blogspot confuso
Alguém me explica por que na página de abertura desse blog o perfil, os posts antigos, etc, estão aparecendo lá embaixo e não do lado dos textos? Que ódio.
Difícil é fazer diferente
Depois que as mais de 17 câmeras de última geração instaladas em pontos estratégicos do Madison Square Garden, em Nova York, foram desligadas e que a tsunami da euforia levou para casa os 15 mil pagantes de ontem, dia 4 de setembro, é oportuno (e justo) pensar na carreira de Ivete Sangalo. Falado por 11 em cada 10 veículos de comunicação do país, o espetáculo foi, sem dúvidas, o show mais esperado de 2010. Com tantos elogios e, evidentemente, demonstrações explícitas de puxa-saquismo, Ivete pretendia, com esse trabalho, ser um marco brasileiro dentro da cultura de massa americana – algo feito, dentro de seus respectivos quadrados e gêneros , claro, por outro juazeirense, João Gilberto, nos anos de 1950 com a bossa-nova.
Embora se tentasse recobrar, digamos, a lucidez diante de tantas expectativas e devaneios dos milhões de fãs que tem no Brasil, ninguém, nem Ivete, nem Jesus, nem a Caco de Telha, nem mesmo a TAM, escondia que esse seria o salto mais desafiador de sua carreira e a possibilidade ímpar de abrir as portas, ainda muito restritas para a sua música, no exterior. De fato esse era e continua sendo o desafio imposto e que, a julgar pela noite de ontem, está bem longe de ser superado.
Com investimentos batendo a marca dos R$ 5 milhões (Quantos podem bancar essa cifra?), o show no Madison poderia ter primado pela ousadia, pela inovação. Se foi um risco empregar tanto capital (simbólico e material), que, pelo menos, o risco fosse vivido até a última gota. Se foi um desafio e todas essas incontáveis pessoas coadunaram com a possibilidade de enfrentá-lo que se buscassem saídas mais criativas e mais originais. O que se viu,entretanto, pelos vídeos já lançados na internet, pelas informações presentes nos principais meios na manhã desse domingo, é que Ivete optou pelo mais do mesmo, pelo caminho mais seguro e do retorno garantido.
Feijão com Arroz
Mesmo com todos os efeitos, da cenografia, da montagem e de todo preparo exigido na composição do show, a sua essência foi a mesma que a de outros. As canções, inclusive, se repetiam sucessivamente. Certo que num estilo que ainda se pauta pelo “pula, sai do chão”, música conhecida é o elemento mágico infalível para encher de alegrias mil qualquer televisor. Apesar disso, num cenário em que pouco se cria de novo e que, paralelamente, tanto clama por novidades e tem sede de inovação, a ousadia de dominar o público pela surpresa é o que pode, aparentemente, garantir boas transformações e novas musicalidades. Pelo menos, é isso que se atesta nos últimos 60 anos da música popular brasileira.
Não é que estejamos aqui repetindo os argumentos superficiais, pueris, de que é vendida ao sistema, de que é produto, de que é caça-níquel. Da indústria cultural, nem o Teatro Mágico, que diz sobreviver com bilheteria e venda própria de cd’s, escapa. Isso, creiam, nunca foi necessariamente ruim – exceto para Adorno e para a Teoria Crítica. Tantos outros que se vendem como alternativos são muitos mais submissos e entregues aos ditames do mercado do que Veveta. Até porque sejamos realistas: se existe alguém que pode dizer o que quer e o que não quer fazer, hoje, na música brasileira, esse alguém tem nome e residência fixa no Campo Grande, em Salvador (E, não, não é Gal Costa). Não desmerecendo seu talento, mas é desse contexto que surge a frustração.
Frustração pelo feijão com arroz – já tomando parte aqui do álbum homônimo de Daniela para um inevitável e sempre temida palavra: comparação. Costuma-se dizer, na Bahia, que La Mercury é parâmetro para as demais. Longe das rivalidades levianas e da troca de farpas dos fãs mais ardilosos, as comparações quase sempre precisam aparecer para termos referências. E o que a gente nota é que não ter medo de vaias, não ter receio de críticas dissonantes e de entrar num círculo “onde-queres-leblon-sou-pernambuco” é um passo necessário para a reciclagem do artista e da sua própria arte. Por trazer as velhas fórmulas e inserí-las em algo que só é grandioso pelos valores monetários aplicados, essa virada que Ivete poderia trazer foi, novamente, adiada. A cobrança poderia ser exagerada se esse trabalho não se propusesse a tantas complexidades: é uma mulher, latina, nos Estados Unidos, cantando basicamente em português, num formato diferente das ‘divas americanas’, etc e tal - sendo ela, inclusive, melhor do que a maioria desses produtos esterializados.
Tem seu preço inovar? Claro que sim. Pode sucumbir na sua própria loucura ‘vanguardista’? Pode. Pode desagradar fãs, pode até perdê-los, pode conquistar inimigos? Pode. E ser rotulada de perdida e outras expressões não tão nobres? Certamente será. Mas esse também pode ser um preço justo em nome do compromisso que se tem com a sua arte, com sua criação, com a cultura, enfim, com o seu povo. Quando se tem compromisso com isso, que fique claro.
Talvez o temor de uma aparição discreta ou de uma carreira internacional fugaz tenham impelido para que a sua inserção recaísse sobre a colônia de brasileiros. Não são poucas as tentativas mal-sucedidas de nossos artistas . Vencer uma barreira de preconceitos não é suficiente: é preciso mostrar qualidade, dialogar musicalmente com quem nada entende de sua língua. Desse pecado, por exemplo, padeceu a dupla Sandy & Junior, engolidos pelo desequilibrado tripé da maturidade, da originalidade e da criatividade.
Reinventar as formas
É inegável que a sua trajetória na música brasileira tem sido vitoriosa. Depois de lançar-se solo, no momento em que o Axé Music dava passos vacilantes, Ivete traçou um rápido caminho para o posto de mais importante artista do show business brasileiro. Rápido, nesse caso, é pura modéstia: foi avassalador mesmo. Aproveitando o excelente momento em 2002, com a vitória surpreendente do Brasil na Copa da Coréia e do Japão, cravou nos corações e mentes dos 180 milhões de brasileiros a música Festa. Em seguida, as multidões que a seguiam no carnaval da Bahia, a acompanharam nas maratonas dos estádios brasileiros: primeiro o disco da MTV, na Fonte Nova (último gravado lá antes da demolição) e, logo depois, o DVD Ao Vivo no Maracanã, uma mega produção raramente vista no país. Uma pausa para o suspiro e para a gravidez e veio o singelo Pode Entrar, que entrou no mercado fonográfico superando, em definitivo, qualquer dúvida sobre a força de Ivete. Nesse ínterim, teve ainda o disco infantil gravado com o sempre razoável Saulo Fernandes. Com canções do nível e qualidade de Funk do Xixi, esse álbum é a flecha no calcanhar de qualquer Aquiles e merece cair nas graças da Inquisição.
A apresentação de ontem foi uma etapa importante da carreira de Ivete...da carreira dela aqui no Brasil. Com um nome consolidado e um espaço intocável, Ivete tem todo poder e legitimidade para continuar cantando Sorte Grande, Pererê e afins por todo país. Mas se de fato tem como pretensão ser um artista do mundo, já se viu que, com todo respeito e amor pelo carnaval baiano, ser somente Barra – Ondina ainda é muito pouco para qualquer Big Apple.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
De Janeiro a Janeiro
Como se retoma a vida que se tinha outrora?
Como se continua a viver quando, lá no fundo do coração, se
começa a perceber que não se pode voltar atrás?
Que há coisas que o tempo não cura...
Como se continua a viver quando, lá no fundo do coração, se
começa a perceber que não se pode voltar atrás?
Que há coisas que o tempo não cura...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Em outro lugar ou aqui.
Olhando, com sensata timidez, os carros e as pessoas que lhe cumprimentavam, respondia sempre com aqueles murmúrios incompreensíveis. Tinha medo de todas elas. Nenhuma lhe tocava: pareciam todas limpas. Limpas em suas rotinas, em seus estudos, festejos. LIM-PAS - repetia devorando saborosamente cada sílaba. Aquilo era o seu ritual asséptico.
Andou em direção a beirada para ver o mar. Vinham todas, todas, todas, todas, lá de onde a vista não alcança. As ondas subiam, avançavam, arrebentavam-se na sua frente. E outra lá atrás emergia com mais voracidade, com sede violenta de lhe mostrar a vida. Arrebentava-se. E, de novo, nascia uma onda que somava-se a outra e, naquele galope branco de espumas e sal, rumava decidida contra ele. Vendo essa explosão inexplicável, esse oceano escapando para o abstrato e todo aquele e vir morrendo diante de seus olhos, entendeu porque deveria continuar. Era a vida e isso era tudo e nada mais.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
No lado esquerdo ou em outro lugar.
A vida era mesmo inexplicável, pensou. De repente, estava cercado por todas as angústias que cabiam no mundo. Seria a linha da loucura cortando-lhe a pele, fazendo o sangue cair do seu corpo gota por gota num sofrimento infinito?
Certamente sabia de suas dores, da incompreensão de todos em entendê-las. E, por isso, também sofria: pelos outros. Passava-lhe tudo que tinha acontecido e o que havia perdido. Para todas as mínimas coisas atravessadas no seu destino crescia a importância e, junto com ela, a fragorosa sensação de perda. "Eu perdi? Quem se atreve a dizer que não?".
Se não existia atrevimento, havia a certeza: sim, perdera. Todos os livros que leu, todos os clichês que escutou e todo o resto que nunca sucumbia com o raiar do sol mostrava-lhe um coro vazio, sem resposta, de que a vida deveria continuar. Era esse o limiar de sua loucura: caía tentando agarrar-se em qualquer coisa e só conseguia agarrar-se a si mesmo. Pensando nisso, era pavor o que sentia.
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