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segunda-feira, 12 de abril de 2010

do outro lado do muro


Havia terminado, por fim, a esperança de um dia pertencer. Nenhum lugar de seu agrado, nenhuma pessoa de seu carinho, nenhum sentimento de euforia explosiva. Nada parecia existir para além de seus breves contentamentos. Queria ser como o horário fora do relógio ou talvez como a estrada proibida guardando caminhos, matas e ribeirões de cores límpidas. Era para esse desejo insolúvel que se entregava.
A canção do rádio celebrava a intensa melancolia do encontro da chuva com o vidro. E era tudo como uma prisão: silenciosa, entrecortada pelas raivas e cerrada no estampido de certa monotonia. Quando se dava conta sentia a necessidade criminosa de se calar para seguir adiante. Por essa condição é que naquela noite sentiu em seu corpo uma solidão devastadora. Sabia que em breve precisaria de caminhos e de partidas. Nos pequenos olhinhos marejados pela fúria , via-se que tudo não poderia passar de uma grande ilusão, cheia de inconseqüências e de vontades inconciliáveis. E isso, acreditava, era então o não pertencimento.

quarta-feira, 31 de março de 2010

De manhã


Foi como se repentinamente o desejo de não fazer nada tivesse se tornado senhor absoluto do seu corpo. Sentia-o percorrendo cada passagem misteriosa, interpelando cada pequena veia, provocando a dor nos seus traquejos. Alguma coisa, sabia, tinha sido deslocada de sua história. Só mesmo quem experimentou a profunda agonia de não fazer parte poderia mitigar seus demônios. Mas compreendia que isso era de uma vaguidão improvável. Até mesmo aquela cidade, entregue as alegrias famintas e aos heróis violentos da miséria, poderia agora evocar-lhe com segurança o significado de estranheza. Pois sim, a vida que se arrebentava contra os dias, as pessoas que não se entendiam consigo e o dissabor do pertencimento a tudo isso, não lhe poderiam ser mais do que mera estranheza. Assim mesmo, tal como o som da palavra impunha, se embolava na suavidade, no peso e no corte sangrento do seu equívoco. Indizivelmente percebia que o seu tempo ali, que a sua presença tão sutilmente desprezível pelos esbarros do cotidiano, não precisavam mais de sentido, de vinculação, de prosseguimento. E queria partir. Porque se tinha em si o desejo de não fazer nada, tinha no mundo o desejo irrepreensível de fuga. Quando aquela manhã encostou-se suave nas suas imperfeições, caminhou sobre o vento numa rota insegura, desprendida e supostamente vazia.