Foi como se repentinamente o desejo de não fazer nada tivesse se tornado senhor absoluto do seu corpo. Sentia-o percorrendo cada passagem misteriosa, interpelando cada pequena veia, provocando a dor nos seus traquejos. Alguma coisa, sabia, tinha sido deslocada de sua história. Só mesmo quem experimentou a profunda agonia de não fazer parte poderia mitigar seus demônios. Mas compreendia que isso era de uma vaguidão improvável. Até mesmo aquela cidade, entregue as alegrias famintas e aos heróis violentos da miséria, poderia agora evocar-lhe com segurança o significado de estranheza. Pois sim, a vida que se arrebentava contra os dias, as pessoas que não se entendiam consigo e o dissabor do pertencimento a tudo isso, não lhe poderiam ser mais do que mera estranheza. Assim mesmo, tal como o som da palavra impunha, se embolava na suavidade, no peso e no corte sangrento do seu equívoco. Indizivelmente percebia que o seu tempo ali, que a sua presença tão sutilmente desprezível pelos esbarros do cotidiano, não precisavam mais de sentido, de vinculação, de prosseguimento. E queria partir. Porque se tinha em si o desejo de não fazer nada, tinha no mundo o desejo irrepreensível de fuga. Quando aquela manhã encostou-se suave nas suas imperfeições, caminhou sobre o vento numa rota insegura, desprendida e supostamente vazia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário