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quarta-feira, 31 de março de 2010

De manhã


Foi como se repentinamente o desejo de não fazer nada tivesse se tornado senhor absoluto do seu corpo. Sentia-o percorrendo cada passagem misteriosa, interpelando cada pequena veia, provocando a dor nos seus traquejos. Alguma coisa, sabia, tinha sido deslocada de sua história. Só mesmo quem experimentou a profunda agonia de não fazer parte poderia mitigar seus demônios. Mas compreendia que isso era de uma vaguidão improvável. Até mesmo aquela cidade, entregue as alegrias famintas e aos heróis violentos da miséria, poderia agora evocar-lhe com segurança o significado de estranheza. Pois sim, a vida que se arrebentava contra os dias, as pessoas que não se entendiam consigo e o dissabor do pertencimento a tudo isso, não lhe poderiam ser mais do que mera estranheza. Assim mesmo, tal como o som da palavra impunha, se embolava na suavidade, no peso e no corte sangrento do seu equívoco. Indizivelmente percebia que o seu tempo ali, que a sua presença tão sutilmente desprezível pelos esbarros do cotidiano, não precisavam mais de sentido, de vinculação, de prosseguimento. E queria partir. Porque se tinha em si o desejo de não fazer nada, tinha no mundo o desejo irrepreensível de fuga. Quando aquela manhã encostou-se suave nas suas imperfeições, caminhou sobre o vento numa rota insegura, desprendida e supostamente vazia.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Despedida


O rio dos fundos da casa da avó era o que nele despertava aquela persistência quase infantil, aquele tênue fio de passagem lembrou ali dentro algo perdido. Daqueles dias se recordava do menino distraído. O infinito negrume preenchendo olhos e alma trazia sorrateiramente a vaguidão de uma presença tão necessária. Como aquele fluxo de água, rasgava com violência sedenta as pedrinhas pisadas. Quando muito servia para amaciar folhas amareladas e desprovidas da plenitude que é viver. Sabia das suas vontades porque conhecera muito antes a raiva dos amores. E era tudo como uma revolta improvável, explodia, silenciava e reiniciava a respiração com dissabores. Pois sim, senhor, não estava disposto a comprar esse risco. Acabar com uma ternura verdadeira sem nenhuma resposta e deixar-se envelhecer. Por esse fulgor de juventude não poderia se atirar. Um caminho ordinário não valeria qualquer certeza, embora soubesse que vivia por elas.


Parado, olhando, entregava-lhe o mundo e ele, cuspindo algumas indiferenças e surpresas, fitava abstratamente o desconhecimento de tudo e daquilo que lhe era mais caro: o não saber nada de si mesmo.