terça-feira, 21 de setembro de 2010

Unidos da Bancarrota


As solenidades de formatura universitária, em geral, pintam com maestria o cenário do ensino superior no Brasil hoje: massificação da educação, seguida de ausência de educação social e humana, apimentada com doses de histeria e excesso de desencontros. São elas que têm roubado sistematicamente todos os postos de cafonice do mundo - onde quer que eles estejam, independentemente de quem os possua. É a celebração do quase sempre muito pouco e, portanto, da necessidade obrigatória de provocar o exagero. Um recorte de monstruosidade, retalhada por incompetência, falas repetitivas e retrógradas oriundas de gente jovem reunida disposta a ser a turminha que vai aprontar altas diversões na sua noite.

Quando, nesse país, existiam apenas duas ou três universidades por Estado da Federação – perceba que hoje existem duas por bairro - fazia algum sentido expor de forma ostentosa o fato de que você, jovem, esperto, inteligente, realmente participava de um seleto grupo de pessoas. Haveria, a bem da verdade, poucos sorrisos de canto de boca quando sua mãe chorasse pela dificuldade que você enfrentou durante a graduação, ninguém ficaria com vergonha alheia se a Pri, a Juli ou Teu se atirasse no chão agradecendo aos céus por aquele pedaço de papel. Porque, de fato, na parede do escritório de advocacia só você e seu sócio possuíam esse hieróglifo. Mas em 2010, precisa de muita distração e uma super vaidade para não perceber que alguma coisa está, como profetizou Caetano, fora da ordem.

Está fora ritmo há algumas décadas, descompassando-se e vivendo num tempo, mas pensando e agindo como se estivesse em outro. Certo que em 1970 já era ruim fazer solenidades, já se revelava o nosso profundo ranço aristocrático do colonizado vestido de toga européia, num aspecto que definitivamente não combina com a nossa natureza tropical. Apesar disso, em 1970, ter um diploma significava realmente algo muito maior na sua existência material e simbólica do que nesses dias igualmente desleais de agora.

Cabe ressaltar que é ótimo que tenhamos mais universidades – embora esse processo de abertura tenha e continue sendo devastador, oportunista, cruel – e mais jovens formados. Sabemos que a população que migra das péssimas escolas secundaristas para ocupar as cadeiras do nível superior ainda é ínfima. Ínfima não significa inexistente e, sobretudo, ínfimo dentro de um quadro de milhões e milhões nos rende uma multidão. Pra mim, se eu tenho algo que somente 30 pessoas podem ter a cada semestre, até seria motivo de orgulho (até seria porque jamais me orgulharia de algo menor que ter uma ilha na Polinésia Francesa), mas qual é o sentido de eu criar, fantasiar um mundo de dificuldade, seletivo e criterioso sendo que a cada dois meses eu tenha, apenas em Salvador, pelo menos 100, 200, quiçá 400 advogados ou jornalistas ou psicólogos sendo jogados de cara no mercado de trabalho? Pra que eu preciso acreditar que meu filho é o único graduado em engenharia civil se tá estampado em todos os lugares que existem mais 700 deles completando o curso naquele momento?

Se tenho uma graduação concluída, parabéns campeão. Você vai ter um emprego melhor – isso é exceção, que fique claro -, você até poderá fazer concurso para nível superior, etc e tal, e só. Perceba: não serve mais nem pra cela especial. Sentiu 1929 quebrando radicalmente o valor do seu diploma? Daí que, sem sectarismos, acho justo termos alguma felicidade. Nos livramos de faculdade precárias, de metodologias quase sempre aborrecidas de ensino, das xerox ilegíveis, de alguns muitos professores picaretas que se inserem no meio acadêmico e se acomodam no seu conhecimento livresco rasteiro, muita gente se livra dos colegas com déficit mental em etapa avançada, há também quem deixe para trás a sua faculdade caça níquel-shopping Center que cobra até pela água do bebedouro,  enterramos de vez tudo isso e por alguns poucos dias acreditamos no samba de Simone: que a vida vai melhorar, que a vida vai melhorar. Sim, tudo isso é motivo de celebração. A questão é: de que tipo?

O Banquete que Platão não queria

Filhos sem nenhum senso de realidade, irmãos e colegas suspeitos prováveis de incendiarem a biblioteca de Alexandria e a Babilônia, pais dispostos a manter as aparências, o figurino (quase sempre muito bregas, vale o destaque), e o personagem “sim, sou classe média, mas sou mais classe média que você”. Eis a fórmula completa para o completo fiasco. Lá se vão 4h de sua vida perdidas entre vídeos toscos de gente bêbada rebolando até o chão – deixa isso guardado pros seus amigos-, tentativas visivelmente forçadas de mostrar o quanto a turma é unida, familiares chorosos, piegas e sempre beligerantes – eles levam cornetas, cartazes indicativos, bombas e confetes pra comemorar o fim da guerra-, professores, reitores e homenageados notadamente constrangidos com tanta efusividade e uma platéia que interpreta os sete anões: tem zangados, tem atchins, tem dungas, sonecas, dengosos, mestres e, sejamos justos,  um ou outro feliz.  

No cerne dessa perdição ou produção de classe que arrancaria sem transtornos de Gilberto Gil um “desnecessário, Preta, desnecessário”, ficam os produtores da algazarra. Gente que entende tanto de organização, cultura e bons modos quanto eu de física quântica – acho que um pouco menos. Daí esse povo esperto e doido para ganhar dinheiro com a babaquice dos nossos setores médios pretensamente intelectualizados entendeu que só aquilo não enchia os olhos de nenhuma menina - que dirá de uma recém-formada. E re-criaram os famigerados bailes de formatura.

Em geral, nos bailes, a riqueza, poder e ostentação devem aparecer no começo, uma vez que depois da quarta dose de roska não será percebido se a flor é artificial ou se é uma autêntica dama da noite. E assim servem-se o espumante cuja embalagem melhor lembre uma champagne, até que ele acabe. Depois se passa para o Red Label servido de forma periódica que é pra né vocês sabem. Enquanto isso os morangos são misturados com a vodca e a banda começa. Três horas e 90% da festa já desceu do salto, está enrolada em coisas horrorosas, e dançando pagode de tal forma que Léo Santana ficaria com ciúmes.

Agora depois desse tratado, de cunho impessoal, vale salientar, me diz: tem como perder tanto babado, tiroteio e confusão? - N

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eu vim correndo à frente do sol


Falar da cor dos temporais
Do céu azul, das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu
O mundo lá sempre a rodar
E em cima dele tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor,
Estrada de fazer o sonho acontecer

sábado, 18 de setembro de 2010

Eu não posso deixar de dizer

Assim vou deixando de ser aos poucos, me apagando no café da manhã, no galho caído, na curiosidade de qualquer transeunte, na dor de ninguém.  Vejo em mim uma vontade cansada de partir, um desejo inescrutável de novidade. Novidade do que sou e de todo o resto.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Configuração

Tive que alterar o layout do blog pra essa coisa semi-bizarra e confusa porque o blogspot está com a página inicial toda desconfigurada. A parte de apresentação, quem sou eu, antecedentes, etc. está toda lá embaixo. Dai, como ainda não descobri o que está acontecendo e como se resolve (Alguém SABE?) adaptei para esse layout. A questão é que as coisas continuam lá embaixo. Não foi uma troca muito vantajosa, eu sei.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Há uma semana


Antes que o relógio pudesse marcar seis horas  e que a Ave Maria anunciasse no rádio o repouso do dia, trouxeram a notícia de sua partida. Lá já se reconhecia que tudo sempre é repentino, súbito, e que a morte é por excelência o ato mais dramático dessa peça que vivemos. De repente, ficou ali naquele ventre o desespero se debatendo em grunhidos, um pouco de sangue tentando alimentar uma vida que já não existia. Deitado, tremendo, tal qual ela deve ter tremido, fechando e abrindo os olhinhos como sempre fizera, pensaram juntos em tantas coisas. Ele levantou-se e ela se foi. Não poderiam compreender esse manto invisível que nos cobre e que nos leva ao ser. Diante disso, desse medo, desse não saber, viviam. E para viver também era preciso ir. 

domingo, 5 de setembro de 2010

Blogspot confuso

Alguém me explica por que na página de abertura desse blog o perfil, os posts antigos, etc, estão aparecendo lá embaixo e não do lado dos textos? Que ódio.

Difícil é fazer diferente



Depois que as mais de 17 câmeras de última geração instaladas em pontos estratégicos do Madison Square Garden, em Nova York, foram desligadas e que a tsunami da euforia levou para casa os 15 mil pagantes de ontem, dia 4 de setembro, é oportuno (e justo) pensar na carreira de Ivete Sangalo. Falado por 11 em cada 10 veículos de comunicação do país, o espetáculo foi, sem dúvidas, o show mais esperado de 2010. Com tantos elogios e, evidentemente, demonstrações explícitas de puxa-saquismo, Ivete pretendia, com esse trabalho, ser um marco brasileiro dentro da cultura de massa americana – algo feito, dentro de seus respectivos quadrados e gêneros , claro,  por outro juazeirense, João Gilberto, nos anos de 1950 com a bossa-nova.
Embora se tentasse recobrar, digamos, a lucidez diante de tantas expectativas e devaneios dos milhões de fãs que tem no Brasil, ninguém, nem Ivete, nem Jesus, nem a Caco de Telha, nem mesmo a TAM, escondia que esse seria o salto mais desafiador de sua carreira e a possibilidade ímpar de abrir as portas, ainda muito restritas para a sua música, no exterior. De fato esse era e continua sendo o desafio imposto e que, a julgar pela noite de ontem, está bem longe de ser superado.
Com investimentos batendo a marca dos R$ 5 milhões (Quantos podem bancar essa cifra?), o show no Madison poderia ter primado pela ousadia, pela inovação. Se foi um risco empregar tanto capital (simbólico e material), que, pelo menos, o risco fosse vivido até a última gota. Se foi um desafio e todas essas incontáveis pessoas coadunaram com a possibilidade de enfrentá-lo que se buscassem saídas mais criativas e mais originais. O que se viu,entretanto, pelos vídeos já lançados na internet, pelas informações presentes nos principais meios na manhã desse domingo, é que Ivete optou pelo mais do mesmo, pelo caminho mais seguro e do retorno garantido.
Feijão com Arroz
Mesmo com todos os efeitos, da cenografia, da montagem e de todo preparo exigido na composição do show, a sua essência foi a mesma que a de outros. As canções, inclusive, se repetiam sucessivamente. Certo que num estilo que ainda se pauta pelo “pula, sai do chão”, música conhecida é o elemento mágico infalível para encher de alegrias mil qualquer televisor. Apesar disso, num cenário em que pouco se cria de novo e que, paralelamente, tanto clama por novidades e tem sede de inovação, a ousadia de dominar o público pela surpresa é o que pode, aparentemente, garantir boas transformações e novas musicalidades. Pelo menos, é isso que se atesta nos últimos 60 anos da música popular brasileira. 
Não é que estejamos aqui repetindo os argumentos superficiais, pueris, de que é vendida ao sistema, de que é produto, de que é caça-níquel. Da indústria cultural, nem o Teatro Mágico, que diz sobreviver com bilheteria e venda própria de cd’s, escapa. Isso, creiam, nunca foi necessariamente ruim – exceto para Adorno e para a Teoria Crítica. Tantos outros que se vendem como alternativos são muitos mais submissos e entregues aos ditames do mercado do que Veveta.  Até porque sejamos realistas:  se existe alguém que pode dizer o que quer e o que não quer fazer, hoje, na música brasileira, esse alguém tem nome e residência fixa no Campo Grande, em Salvador (E, não, não é Gal Costa). Não desmerecendo seu talento, mas é desse contexto que surge a frustração.
Frustração pelo feijão com arroz – já tomando parte aqui do álbum homônimo de Daniela para um inevitável e sempre temida palavra: comparação. Costuma-se dizer, na Bahia, que La Mercury é parâmetro para as demais. Longe das rivalidades levianas e da troca de farpas dos fãs mais ardilosos, as comparações quase sempre precisam aparecer para termos referências. E o que a gente nota é que não ter medo de vaias, não ter receio de críticas dissonantes e de entrar num círculo “onde-queres-leblon-sou-pernambuco” é um passo necessário para a reciclagem do artista e da sua própria arte. Por trazer as velhas fórmulas e inserí-las em algo que só é grandioso pelos valores monetários aplicados, essa virada que Ivete poderia trazer foi, novamente, adiada. A cobrança poderia ser exagerada se esse trabalho não se propusesse a tantas complexidades: é uma mulher, latina, nos Estados Unidos, cantando basicamente em português, num formato diferente das ‘divas americanas’, etc e tal - sendo ela, inclusive, melhor do que a maioria desses produtos esterializados.  
Tem seu preço inovar? Claro que sim. Pode sucumbir na sua própria loucura ‘vanguardista’? Pode. Pode desagradar fãs, pode até perdê-los, pode conquistar inimigos? Pode.  E ser rotulada de perdida e outras expressões não tão nobres? Certamente será. Mas esse também  pode ser um preço justo em nome do compromisso que se tem com a sua arte, com sua criação, com a cultura, enfim, com o seu povo. Quando se tem compromisso com isso, que fique claro.
Talvez o temor de uma aparição discreta ou de uma carreira internacional fugaz tenham impelido para que a sua inserção recaísse sobre a colônia de brasileiros.  Não são poucas as  tentativas mal-sucedidas de nossos artistas . Vencer uma barreira de preconceitos não é suficiente: é preciso mostrar qualidade, dialogar musicalmente com quem nada entende de sua língua. Desse pecado, por exemplo, padeceu a dupla Sandy & Junior, engolidos pelo desequilibrado tripé da maturidade, da originalidade e da criatividade.
Reinventar as formas
É inegável que a sua trajetória na música brasileira tem sido vitoriosa. Depois de lançar-se solo, no momento em que o Axé Music dava passos vacilantes, Ivete traçou um rápido caminho para o posto de mais importante artista do show business brasileiro. Rápido, nesse caso, é pura modéstia: foi avassalador mesmo. Aproveitando o excelente momento em 2002, com a vitória surpreendente do Brasil na Copa da Coréia e do Japão, cravou nos corações e mentes dos 180 milhões de brasileiros a música Festa. Em seguida, as multidões que a seguiam no carnaval da Bahia, a acompanharam nas maratonas dos estádios brasileiros: primeiro o disco da MTV, na Fonte Nova (último gravado lá antes da demolição) e, logo depois, o DVD Ao Vivo no Maracanã, uma mega produção raramente vista no país.  Uma pausa para o suspiro e para a gravidez e veio o singelo Pode Entrar, que entrou no mercado fonográfico superando, em definitivo, qualquer dúvida sobre a força de Ivete.  Nesse ínterim, teve ainda o disco infantil gravado com o sempre razoável Saulo Fernandes. Com canções do nível e qualidade de Funk do Xixi, esse álbum é a flecha no calcanhar de qualquer Aquiles e merece cair nas graças da Inquisição.
A apresentação de ontem foi uma etapa importante da carreira de Ivete...da carreira dela aqui no Brasil. Com um nome consolidado e um espaço intocável, Ivete tem todo poder e legitimidade para continuar cantando Sorte Grande, Pererê e afins por todo país. Mas se de fato tem como pretensão ser um artista do mundo, já se viu que, com todo respeito e amor pelo carnaval baiano, ser somente Barra – Ondina ainda é muito pouco para qualquer Big Apple.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

De Janeiro a Janeiro


Como se retoma a vida que se tinha outrora?
Como se continua a viver quando, lá no fundo do coração, se
começa a perceber que não se pode voltar atrás?
Que há coisas que o tempo não cura...