O primeiro atingiu a pálpebra esquerda, trazendo-lhe o desconforto de estar no mundo. O outro caiu vertiginosamente contra a estrada que seguia. Vendo-o se transformar em nada, se desfazendo diante daquilo que poderia ser a imensidão, sentiu o infortúnio de rasgar-se em vida. E agora que existia, poderia contar algumas histórias
domingo, 13 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Ao caos
Eu estou sempre aqui como todas essas coisas. Estou sempre cercado por essa áurea secular da qual se admira a cerâmica. Porque eu também sou como o barro. Feito de inconsistências, deslizes e imperfeições. É essa lama, tocada pela mão fria, que sou. Meu desespero é como ela. Não querendo ser nada, não querendo fazer nada, vou me transformando. Solto, livre e desmanchado, inundo a liberdade sorrateira do mundo. Se me perguntassem o que sinto, devo ser prudente em hesitar, juntar meus sentimentos e sufocá-los imperiosamente com meus demônios, com o que me resta de secura e de polidez.
Dentro do que sou, entretanto, há somente guerra. E sou um homem traído. Traído com o barro que ao artista inspira para logo depois tomá-lo nas mãos e esmagá-lo. Modelando as formas e reinventando o que está posto, ele trai. Cria um monstro de beleza impossível. Assim também sou. Traído pelo artista que me fez e pelo intragável sabor de viver. É para suportar que caminho. Mesmo quando meu corpo quer se desligar de mim, mesmo quando quero cometer um assassinato raivoso do que aí está, há uma vontade desbotada, um desejo que não quer ser.
É precisamente por ser do barro que tento me desfazer todos os dias. Que me entrego ao tempo que se passa sem marcação para me desnudar, me decompor e virar o nada despretensioso. O nada que me torna alguma coisa imprecisa e sentimental. Um castelo num reino de ninguém, uma cólera na vida do artista que me vendo ser feito torna-se deformado. Medonho tal qual o que se cria. Inútil, porque não há vida ali. Somente busca e desencanto. Como uma fórmula inacabada que não satisfeita some de tudo, se esvai, gruda nas pessoas, nas árvores, no mar. Delirante feito o pássaro que arrebenta o vento e se queima com sua própria existência. É desse jeito que me tenho: um desfazer para tudo.
Dentro do que sou, entretanto, há somente guerra. E sou um homem traído. Traído com o barro que ao artista inspira para logo depois tomá-lo nas mãos e esmagá-lo. Modelando as formas e reinventando o que está posto, ele trai. Cria um monstro de beleza impossível. Assim também sou. Traído pelo artista que me fez e pelo intragável sabor de viver. É para suportar que caminho. Mesmo quando meu corpo quer se desligar de mim, mesmo quando quero cometer um assassinato raivoso do que aí está, há uma vontade desbotada, um desejo que não quer ser.
É precisamente por ser do barro que tento me desfazer todos os dias. Que me entrego ao tempo que se passa sem marcação para me desnudar, me decompor e virar o nada despretensioso. O nada que me torna alguma coisa imprecisa e sentimental. Um castelo num reino de ninguém, uma cólera na vida do artista que me vendo ser feito torna-se deformado. Medonho tal qual o que se cria. Inútil, porque não há vida ali. Somente busca e desencanto. Como uma fórmula inacabada que não satisfeita some de tudo, se esvai, gruda nas pessoas, nas árvores, no mar. Delirante feito o pássaro que arrebenta o vento e se queima com sua própria existência. É desse jeito que me tenho: um desfazer para tudo.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Da praga de não poder decidir
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
56 anos até o dia D
Um quizz do facebook disse que eu irei morrer aos 77 anos, retirando o lixo de casa. Significa dizer que tenho apenas 56 anos de vida e que toda aquela dose de cinismo e de drama que poderiam coroar meu grande final definitivamente não passará de uns garrafas vazias de whisky e um enlatado de carne moída. Tá, não se anime não que é só um teste.
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Amor, Festa e Devoção
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domingo, 22 de novembro de 2009
No reino da beleza
"Gente bonita" é possivelmente a expressão mais sutil que a classe média usa para expressar seu desagrado com gente preta de cabelo trançado. Tocar novamente no âmago do racismo pode até parecer repetitivo e apelativo, já que estamos no novembro negro. O mote para esse escrito, no entanto, é a recorrência com que escuto alguns desorientados de fora da Bahia (ou de dentro) se espantarem com a suposta feiúra do povo, especificamente, daqueles que circulam pelo Pelourinho, Cidade Baixa e Invasões. Preliminarmente, a acusão genérica não tem eco numa realidade que é tão plural e diversa. Notem que não estou caindo no simplismo de apenas dizer que na Bahia não há feios, se é que podemos lidar com essa terminologia. O meu exercício aqui é destrinchar que por trás dessa fala se esconde uma ideologia. É o que Roland Barthes trata no seu texto clássico Mitologias. Dizer que os baianos são feios esvazia de historicidade o conceito de beleza, de negritude e de afirmação da cultura. Mas, ao esvaziar de sentido, produz a ressignificação. E aí, crescem as raízes da discriminação racial.
Percebam que se a festa cool, com convidados da classe média e alta, tem "gente bonita", de antemão nós sabemos que se trata da branquitude subserviente ao modelo hegemônico de beleza. Por outra via, se o aglomerado humano se balança ao som do pagode e deixa ao vento seu rastafari a primeira coisa dita é: "deus me livre! Só tem gente feia e pancadaria". O que pode ser traduzido, sem nenhuma reserva, como só tem preto. Entretanto, no Brasil, racismo bom é racismo estrututante. É aquele que se esconde na base das instituições e que se firma nos laços societários com poucos vestígios de sua presença. Somente um olhar apurado torna capaz de desnudar a falsa naturalidade. É, precisamente por essa razão, que quando alguém fala só tem "gente bonita", o sujeito constituído não se sente racista - ele consegue distinguir pessoas belas das feias porque sabe, por exemplo, que a Mãe Menininha é feia, a Deusa do Ébano é exótica e Gisele Bunchen é bonita.
Se racismo nesse país é coisa de negro, eu como um, quero ser racista pra dizer: na Bahia só tem gente bonita.
Percebam que se a festa cool, com convidados da classe média e alta, tem "gente bonita", de antemão nós sabemos que se trata da branquitude subserviente ao modelo hegemônico de beleza. Por outra via, se o aglomerado humano se balança ao som do pagode e deixa ao vento seu rastafari a primeira coisa dita é: "deus me livre! Só tem gente feia e pancadaria". O que pode ser traduzido, sem nenhuma reserva, como só tem preto. Entretanto, no Brasil, racismo bom é racismo estrututante. É aquele que se esconde na base das instituições e que se firma nos laços societários com poucos vestígios de sua presença. Somente um olhar apurado torna capaz de desnudar a falsa naturalidade. É, precisamente por essa razão, que quando alguém fala só tem "gente bonita", o sujeito constituído não se sente racista - ele consegue distinguir pessoas belas das feias porque sabe, por exemplo, que a Mãe Menininha é feia, a Deusa do Ébano é exótica e Gisele Bunchen é bonita.
Se racismo nesse país é coisa de negro, eu como um, quero ser racista pra dizer: na Bahia só tem gente bonita.
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