Eu estou sempre aqui como todas essas coisas. Estou sempre cercado por essa áurea secular da qual se admira a cerâmica. Porque eu também sou como o barro. Feito de inconsistências, deslizes e imperfeições. É essa lama, tocada pela mão fria, que sou. Meu desespero é como ela. Não querendo ser nada, não querendo fazer nada, vou me transformando. Solto, livre e desmanchado, inundo a liberdade sorrateira do mundo. Se me perguntassem o que sinto, devo ser prudente em hesitar, juntar meus sentimentos e sufocá-los imperiosamente com meus demônios, com o que me resta de secura e de polidez.
Dentro do que sou, entretanto, há somente guerra. E sou um homem traído. Traído com o barro que ao artista inspira para logo depois tomá-lo nas mãos e esmagá-lo. Modelando as formas e reinventando o que está posto, ele trai. Cria um monstro de beleza impossível. Assim também sou. Traído pelo artista que me fez e pelo intragável sabor de viver. É para suportar que caminho. Mesmo quando meu corpo quer se desligar de mim, mesmo quando quero cometer um assassinato raivoso do que aí está, há uma vontade desbotada, um desejo que não quer ser.
É precisamente por ser do barro que tento me desfazer todos os dias. Que me entrego ao tempo que se passa sem marcação para me desnudar, me decompor e virar o nada despretensioso. O nada que me torna alguma coisa imprecisa e sentimental. Um castelo num reino de ninguém, uma cólera na vida do artista que me vendo ser feito torna-se deformado. Medonho tal qual o que se cria. Inútil, porque não há vida ali. Somente busca e desencanto. Como uma fórmula inacabada que não satisfeita some de tudo, se esvai, gruda nas pessoas, nas árvores, no mar. Delirante feito o pássaro que arrebenta o vento e se queima com sua própria existência. É desse jeito que me tenho: um desfazer para tudo.
Dentro do que sou, entretanto, há somente guerra. E sou um homem traído. Traído com o barro que ao artista inspira para logo depois tomá-lo nas mãos e esmagá-lo. Modelando as formas e reinventando o que está posto, ele trai. Cria um monstro de beleza impossível. Assim também sou. Traído pelo artista que me fez e pelo intragável sabor de viver. É para suportar que caminho. Mesmo quando meu corpo quer se desligar de mim, mesmo quando quero cometer um assassinato raivoso do que aí está, há uma vontade desbotada, um desejo que não quer ser.
É precisamente por ser do barro que tento me desfazer todos os dias. Que me entrego ao tempo que se passa sem marcação para me desnudar, me decompor e virar o nada despretensioso. O nada que me torna alguma coisa imprecisa e sentimental. Um castelo num reino de ninguém, uma cólera na vida do artista que me vendo ser feito torna-se deformado. Medonho tal qual o que se cria. Inútil, porque não há vida ali. Somente busca e desencanto. Como uma fórmula inacabada que não satisfeita some de tudo, se esvai, gruda nas pessoas, nas árvores, no mar. Delirante feito o pássaro que arrebenta o vento e se queima com sua própria existência. É desse jeito que me tenho: um desfazer para tudo.
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