domingo, 22 de novembro de 2009

No reino da beleza


"Gente bonita" é possivelmente a expressão mais sutil que a classe média usa para expressar seu desagrado com gente preta de cabelo trançado. Tocar novamente no âmago do racismo pode até parecer repetitivo e apelativo, já que estamos no novembro negro. O mote para esse escrito, no entanto, é a recorrência com que escuto alguns desorientados de fora da Bahia (ou de dentro) se espantarem com a suposta feiúra do povo, especificamente, daqueles que circulam pelo Pelourinho, Cidade Baixa e Invasões. Preliminarmente, a acusão genérica não tem eco numa realidade que é tão plural e diversa. Notem que não estou caindo no simplismo de apenas dizer que na Bahia não há feios, se é que podemos lidar com essa terminologia. O meu exercício aqui é destrinchar que por trás dessa fala se esconde uma ideologia. É o que Roland Barthes trata no seu texto clássico Mitologias. Dizer que os baianos são feios esvazia de historicidade o conceito de beleza, de negritude e de afirmação da cultura. Mas, ao esvaziar de sentido, produz a ressignificação. E aí, crescem as raízes da discriminação racial.

Percebam que se a festa cool, com convidados da classe média e alta, tem "gente bonita", de antemão nós sabemos que se trata da branquitude subserviente ao modelo hegemônico de beleza. Por outra via, se o aglomerado humano se balança ao som do pagode e deixa ao vento seu rastafari a primeira coisa dita é: "deus me livre! Só tem gente feia e pancadaria". O que pode ser traduzido, sem nenhuma reserva, como só tem preto. Entretanto, no Brasil, racismo bom é racismo estrututante. É aquele que se esconde na base das instituições e que se firma nos laços societários com poucos vestígios de sua presença. Somente um olhar apurado torna capaz de desnudar a falsa naturalidade. É, precisamente por essa razão, que quando alguém fala só tem "gente bonita", o sujeito constituído não se sente racista - ele consegue distinguir pessoas belas das feias porque sabe, por exemplo, que a Mãe Menininha é feia, a Deusa do Ébano é exótica e Gisele Bunchen é bonita.

Se racismo nesse país é coisa de negro, eu como um, quero ser racista pra dizer: na Bahia só tem gente bonita.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Viver a vida


Na semana da Consciência Negra, Manoel Carlos deu o seu recado para a militância e simpatizantes da causa: continua tudo igual. Para não cair no sectarismo, quase tudo igual. A mucama comete um crime do qual não é culpada, pede perdão à senhora e, não suficientemente humilhada, se ajoelha para receber uma bofetada violenta. A personagem açoitada chama-se Helena, nome cuja tradição nos nossos canônes literários e televisivos remete a uma senhora branca e elitista. A cena se desenrola com hostilidade e com uma ameaça velada: ou se comporta ou vai pro tronco.

Não, a novela não se passa no século XVII. A Helena, de Manoel Carlos, é uma mulher pós-moderna e pós-racial. Aqui os rótulos não são meramente adjetivos, mas uma liguagem extremamente refinada, pensada e naturalizada para esconder o racismo estruturante e celebrar, sem o menor constrangimento, o mito da democracia racial. Escapando do combate, Gilberto Freire vive. Talvez o maior celeuma deixado de legado pelo episódio é o reforço veemente à ideia de que o senso de justiça, que nesse caso nem existe, é muito superior as questões raciais, e que, consequentemente, são dois polos intocáveis. Ora, é a história e o presente que nos mostram o quanto esses elementos estão tão intimamente vinculados ,que é impossível dissociá-los sem afetar consideravelemente o outro.

Manoel Carlos despreza estupidamente a realidade em nome de sua ficção que, curiosamente, se pretende ser realista. Respeito a licença poética e a criação, embora não respeite o silêncio frente ao racismo. Poderíamos mesmo imaginar o contrário? Subverter essa relação? Se a negrinha estivesse no lugar de Tereza, e o golpe fosse desferido contra a mulher branca, a moral e os bons costumes mandariam surrá-la na primeira esquina. E, como no Leblon, as pessoas confundem atores com personagens, Thaís Araújo correria o risco de ser massacrada na vida real. Essa sempre foi a forma deles de sufocarem o que é da ordem da historicidade. Foi o negro brutalmente escravizado e ojerizado. E foi também, na dura resistência de 5 séculos, que estamos vivos pra contar uma outra novela. O tapa foi dado em Helena, mas doeu em todos nós.

sábado, 7 de novembro de 2009

Pássaro Verde



Foi pensando no instante em que me sentei no banco duramente espumado que tomei conta do escrito. Escrevo da rodoviária. A senhora gorda trajando um azul recém comprado no centro espreita o bloco de papel disfarçadamente. Embora ela não seja capaz de perceber que escrevo sobre seu comportamento, sobre como o meu pensamento me diz que ela acabará com o coração estagnado num rompante emocional, há naquele olhar a curiosidade que aprecio. Que instiga e que não permite a incerteza de não tentar, do não saber, do não querer. Aqueles ombros transversais e os braços esticados coadunavam com a repetição do dedo massageando a cadeira. Era nesse gesto repetitivo, nesse estampido desconcertante, que se lia a sedução exercida por um papel tocado pela tinta pesarosa da caneta. Uma cena imprestável, como todo o resto. Naquele jeito de caminhar, uma mulher católica. Uma procissão vagarosa. As senhoras católicas tem verdadeiro apreço por sacolinhas brancas. Ela os tinha de todos os tamanhos e para todas as utilidades. Era a comida da viagem, o remédio de enjôo da neta, a escova de cabelo e garrafa de água. Medidas cautelosas que, sem cautela alguma, revelam o comportamento dessa senhora. As unhas do pé foram pintadas no salão do bairro na manhã chuvosa dessa primavera. Vermelhas para ter algum luxo. Há uma pintura simpaticamente lasciva nelas. É passageira, embora. E se me esquecesse desse papel propositalmente no banco? Teria coragem de ver a expressão de desgosto saltando nas suas expressões inertes? Teria mesmo o direito de acrescentar algum sentimento ali? Não poderia precisar a sensação de descontentamento que existe na traição.É uma traição. Assim como esse relato. O papel que vou destacar e abandonar sobre sua mala antes de partir me denunciam. Como poderia desconfiar que ao não se inquietar com a minha presença estaria me permitindo desnudá-la, colocando nela as minhas roupas? É por se sentar de costas, num ato deliberadamente inequívoco de quem perdeu o controle de seu corpo e de suas vontades, que me enfio para sua tristeza.


A filha lixa preguiçosamente a unha. As duas crianças acompanham o vagar solitário da máquina de limpeza. É um grande desconforto, estou certo. Como em todos nós, essa perdição ensaiada nos enche de vazio, de perda de alma, de controle dos dedos e do que se olha. Há seis pessoas sentadas nessa fila. Todas separadas por um banco e pela imposição do silêncio que a madrugada nos obriga. Que silêncio, ouço. O sapato toca o chão provocando estalidos inócuos. Não poderia representar, por assim dizer, aquela ruptura. Silêncio – era uma respiração, uma vida dentro da outra. Num gesto habitualmente despretensioso ela tomou o neto para uma andança. Vendo-os passar por mim, já não éramos seis pessoas cerradas por essa morte sem cheiro. Agora sim, eu poderia saber, estiveram vivos.

I wanna be Neruda


Sei que pode parecer um comentário i wanna be cult, mas tenho que dizer: Pablo Neruda é um mestre. Categoricamente.

domingo, 11 de outubro de 2009

Ciclos


Toda viagem passa por um ciclo de preparo, consumo e consequências. O meu é sempre vicioso.

TRISTEZA E CONTENTAMENTO (Referente a 1ª Etapa) É quando sua rotina está uma droga e aquele seu sonho de morar em NY anda tão distante que qualquer promoção aérea para Minas Gerais já te deixa animado. Perceba, é somente Minas Gerais.

DÚVIDA (A etapa que não é primeira nem segunda)
Você ouve alguém na rua falar uai e trem bã (se não for MG pensa no sotaque do lugar que você vai e substitui. A fórmula funciona). Imediatamente, você se lembra de que vai para esse lugar e que vai ser assistido por pessoas que se comunicam assim. Should i stay or should i go?

PLANOS (2ª Etapa)
Vendo que não é um bom negócio cancelar a passagem e perder paciência e dinheiro, você confirma o hostel. Uma vez concluído o processo, é hora de fazer planos do que fazer e ver. E aí, pirem, você acaba descobrindo que o ponto turístico da cidade é uma lagoa. Pirem de novo: é artificial.

ANIMAÇÃO (Da etapa em que o desfecho começa a se anunciar)
Uma lagoa é um lugar aprazível. Um trânsito pesado é sinônimo de vivacidade. Um aeroporto na casa do inferno é sinal de planejamento urbano. Um povo caipira é excelente fonte de estudo antropológico. Temeridade, lixo é o seu lugar.

CRISE BRUTA (Etapa Crítica)
É o momento em que a empolgação se encontra com o pouco que sobrou do seu senso de realidade (e, convenientemente, com seu senso de rídiculo). Você pensa em cancelar passagem, albergue e congresso. Sabe que será ruim com a mesma certeza de que sabe que precisa ir.

DA ETAPA QUE SE CONCLUI Você viaja. O que vai sobrar disso depende de alguns fatores imprevistos, que embora incertos sempre te levam inevitavelmente a...

...TRISTEZA E CONTENTAMENTO
Porque se sua última viagem foi maravilhosa você fica triste porque acabou e se foi uma porcaria você fica triste porque foi e gastou o dinheiro do aluguel de seu cubículo quarto e sala em NY. É quando sua rotina volta a ficar uma droga e....

Foto:
De uma viagem que passou por todos esses ciclos, mas que ainda não sei o tamanho do sucesso ou fracasso.

PS: Há exatamente um ano eu tinha uma vida em Oslo, na Noruega. Depois, eu tinha uma passagem pra Dublin com conexão em Milão. Em seguida, uma matrícula numa escola em Londres. Quarta-feira estou indo para Belo Horizonte. É pra cortar os pulsos, né não?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

I do believe in


Inspirada nos ideais apurados de Carlota Joaquina, a louca, ela desembarcou no Brasil após o exílio de um ano no Canadá: “Dessa terra, eu quero até o pó”, declarou beijando escandalosamente o solo do Aeroporto Internacional Dois de Julho, em Salvador. Depois da rápida temporada de seis meses na capital do acaraxé, Camila Mathias, filha da socióloga Viviane e do filósofo Carlos, sobrinha de Xalala, prima do entrevistado anterior, Daniel Fonseca, amiga de Sarah, conhecida de Taiana Pinho, reconhecida ortograficamente pelo Word, encontrada no topo da lista de presença da Unicamp, inteligente de nascença, diz que tem um sonho: quer ser apenas Camila Mathias. Como boa pós-moderna, odeia rótulos. Geminiana do tipo que se divide em três, Camilinha, como prefere ser chamada até os 65, vive a rotina atribulada e desesperada de qualquer estudante universitário brasileiro na bouca de se formar: cursa Ciências Sociais [atente para o fato de que é uma Ciência e não um Serviço] e presta trabalho escravo ao Nepo, Núcleo de Alguma Coisa que Até Hoje não Sabemos o Que É. Nesse turbilhão, a grande baianinha de 1,53m reservou um pequeno espaço na sua gaula cotidiana pra mostrar que quer e pode dar respostas capazes de Roda® Tudo. Cinco meses após o envio das perguntas, nos deparamos com respostas mais complexas do que a nossa vã filosofia é capaz de alcançar - ainda que filosofar, para ela, seja bem menos interessante do que uma assadeira de cookies e ou queijinhos no Porto da Barra.


Quero começar a entrevista perguntando da sua origem mesmo. Onde você nasceu? Em que ma
ternidade? Qual o seu signo?

Nasci em Salvador, óbvio (É que o Brasil só tem mais de cinco mil municípios, bem natural ela nascer aqui), mais precisamente no Hospital Espanhol. Tive o privilégio de já chegar ao mundo com vista para o mar! Sou de gêmeos, acho que isso justifica minha indecisão constante! (risos).

E o seu orixá, você sabe?

Não sei qual é meu orixá, mas confesso que fiquei curiosa e fui procurar no Google.

Um lugar bem confiável pra jogar os búzios, né?

(Risos) Sei que não é o meio mais adequado, mas enfim...Um dos sites em que entrei disse que meu orixá protetor é Yemanjá. Outro disse que é Ibeji. E outro disse que é Òdí. Conclusão: continuo não sabendo! (risos).

Todo mundo te acha bem estudiosa. Mas você acha que estuda muito ou que só está assumindo as responsabilidades pelas suas escolhas?

Olha, acho que hoje eu posso dizer que estudo pra assumir minhas responsabilidades mesmo. Mas, na época do ISBA, vamos ser sinceros, eu acho que eu era meio biruta! (Risos, risos)! Já me perguntei várias vezes como eu conseguia estudar daquele jeito. Acho que hoje eu sei equilibrar melhor as coisas!


Nada. A gente até gostava de saber do gaba
rito oficial antes do professor. Mas me diz, você raramente revelava sua notas (certamente para não deixar que 99% dos colegas chegassem em casa e perguntassem aos pais se não tinham um cérebro mais legal pra colocar naquele corpinho). Mas alguma vez você já tirou nota abaixo de 7?

Claaaaaro que sim! Várias vezes (tá 6,9 não conta). Avisa que tirei 3,25 na prova de matemática da segunda fase da Unicamp (enche o peito em sinal de orgulho)! (Risos)! E só fui descobrir isso essa semana, quando fui pedir meu histórico escolar.

É, mas quando você tira 3,25 na prova de matemática da Unicamp, você fica em quarto lugar. Já aconteceu de você ter um rendimento ruim e chorar bastante em casa?

Tá brincando, né?


Não, estou falando sério. Outra coisa também. A gente q
uase nunca te vê xingando. É por opção ou por falta de repertório?

Puta que pariu, você nunca me vê xingando é? Como assim, seu filho da puta? Em que mundo você vive, seu porra? (risos). Sempre falei palavrão. Olha só como soa natural. E tenho dito.

Bem, já vi que repertório você tem. Falta só a prática mesmo. Você, além de simples, é muito calminha. Quando é que você sai do sério?

Quando minha professora de antropologia me faz adiar três vezes a passagem de volta pra Salvador; me faz pagar uma multa de quase R$200,00 pra alterar a data e ainda me diz: “Pense que você vai pra Salvador em algum momento, querida. E eu, que nem pra lá vou?”

Risos. Dá pra notar que o mundo é mesmo muito injusto e que a gente precisa ser um pouco mais compreensivo com as pessoas. Quando você voltou do Canadá (pela primeira vez), a experiência de morar fora te deixou um pouco mais faladeira. Por quê?

Porque assim, né, eu voltei de lá, tipo 10 horas de viagem, aí eu cheguei e papapapapa. Queria falar tudo de uma vez e pior é que eu me confundia (ia?) toda. Eu começava a falar, aí esquecia as palavras (Amnésia?). Na aula de redação de Zé Gomes, eu esquecia como escrever em português toda hora!! Mas aí, no dia que eu cheguei era aula de Carrera, e não podia ficar falando. Peguei os balões (as meninas tinham colocado vários balões na sala... tão bonitinho isso, né? Uma graça! E era tudo cor de rosa, se eu me lembro bem)... Mas aí Carrera tava dando aula, e eu fiz um lacinho com os balões na cabeça dele (zzzzzzzZZZZZ). Foi lindo aquilo. Ele não entendeu nada. Achou que eu era louca, né?!

Ele achou, foi? Acho que carece de provas.

Pois é, aí eu saí da sala e meniiiiino (zzzZZZZZZZZZZZZZZZZ), fiquei com uma crise de rinite no dia seguinte. Fiquei de cama vários dias. Aí que não podia falar mesmo... mas, peraí, qual era a pergunta mesmo? (risos).

Hã? Ah, então, queria saber se você era faladeira, mas nem precisa responder.

(Risos) Respondendo de verdade agora (medo!). Acho que sempre fui meio faladeira (supresa!) ! Você que só percebeu isso com um pouco de atraso! (risos) Vai ver que foi saudade de vocês, uai... Tinha muita coisa pra contar!

Teve algo que você fez no Canadá que ninguém, absolutamente ninguém sabe?

Com certeza! Você queria que eu narrasse todas as vezes que fui ao banheiro fazer pipi?

Tá, tudo bem, não precisa falar do restante. Eu tenho uma outra curiosidade. O que você acha que aconteceria se você ficasse bêbada?

Eu acho que já nasci num estado não-alcóolico de embriaguez eterna, sabe?

Mas, enfim, eu ficaria bem mais tonta do que já sou!!!! E episódios como o da “gaula”, o da piada do biscoito, o do “EU NÃO FAÇO FILOSOFIA!” e o do “toma R$5,50, mas se for mais que R$5,00 não compra não” seriam bem mais freqüentes. Ah, e provavelmente minha voz sairia bem mais esganiçada também...


Você tem alguma preocupação com seu país?

Claro que sim. Por que outra razão eu faria Ciências Sociais? (Riiiiioooooo 2016!!!! UHUUUUUUU)

Aproveitando a euforia com a Copa do Mundo e a com Olimpíada, que, né, demonstram bem a sua preocupação com o Brasil, então, por que pensa em ir embora?

Perguntinha só pra me irritar, né? (risos). Porque tem um pedacinho de mim que mora lá fora. Porque eu adoro a sensação de chegar num lugar diferente. Porque eu sonho em rodar o mundo. E porque nada disso muda ou diminui meus sentimentos em relação ao Brasil.


Nesse caso, você pretende voltar a morar em Salvador ou acha que ficou pequena demais?

Por enquanto acho que não. Mas ninguém sabe o que o futuro reserva (frase original). Salvador sempre vai ser meu lar e nunca vai ser pequena demais.

Claro, é como ter um sítio no interior. Você sabe que ele é seu, mas não precisa pisar em titica de galinha pra saber que ele existe, né? Enfim, retomando, quem do besteirol que faria você ficar feliz em qualquer situação?

Acho que você mesmo, Gilzu...Até quando você é irritante, você me faz rir! (risos).


Alguém do besteirol que faria você ficar triste em qualquer situação?

Não conheço todo mundo do besteirol. (Vejamos, quem ela não conhece do Besteirol. Paula!)


Alguém do besteirol que você levaria pra uma Ilha Deserta e alguém do besteirol que você deixaria pra sempre numa ilha deserta?

Eu levaria Boi pra uma ilha deserta, porque ele, como bom irmão e boiólogo, ia me proteger de todos os insetos malignos e seres da escuridão. E eu também o deixaria lá depois pra fazer amizade com os elefantes.

Não conheço muitas ilhas desertas que tenham elefante, mas deixa quieto. Qual é a frase que define seu lema de vida?

I do believe in fairies, I do, I do!

Quantos anos você tem mesmo, hein?

21.

O que você acha da sua imagem de muito inteligente? Te agrada ou você desejaria ser conhecida primeiramente sobre outro estigma?

Não sou adepta a rótulos.

Curiosidades:

- Que Camilinha já fez intercâmbio para o Canadá isso todo mundo já ta canadense de saber. Agora, ela pouco revela sobre o mega tour que fez para Europa. A viagem pelo velho mundo, que iria marcar definitivamente todo o pensamento humanista dela, envolveu cidades como Paris, Londres e Bruxelas.

- Apesar de ter ficado um ano fora do país e ter sido obrigada a fazer prova de Ensino Religioso no terceiro ano, Mathias não perdeu o fôlego e foi a primeira colocada no vestibular de Ciências Sociais da UFBA e quarta na classificação geral. Foi aprovada também no vestibular da Unicamp, onde está concluindo a graduação.

- Embora afirme conhecer seu Orixá tanto quanto o Google entende de Candomblé, ela é do tipo que faz por onde quando o assunto é se proteger de mau olhado. Todo ano, alugar um barco e leva, no 2 de fevereiro, perfumes e flores pra Yemanjá. “Mandinga da gente continua...”

- Enquanto boa parte de seus amigos, estavam planejando que lanche comprar quando a moça da bilheteria deu o troco a mais, Camilinha só pensava na forma mais discreta de devolver o dinheiro para não prejudicar a atendente.

- No primeiro dia de aula, pós intercâmbio, Camilinha abre a porta da sala dos professores e diz: “Oieee, alguém lembra de mim?!” SILÊNCIO!

- Até o segundo ano, Camilinha se escondia no banheiro feminino toda vez que avistava Victor Vaqueiro no corredor. Não precisa dizer por que. Quando não conseguia escapar, a gente sempre ouvia o grito de desespero. “Camilinha foi atacada”.

- Na única aula de Educação Física que fez, Daniela Cipó assustou tanto Camilinha na corrida que ela quebrou o dente. Desde então, acha uma selvageria jogar futebol sem alambrado.

- No último Censo Besteiropopuli, Camilinha foi a mais lembrada quando o assunto foi ética, caráter e senso de justiça.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Lambe chão.


Estava prepararando um texto sobre o transporte de Salvador. Nunca é notícia velha o drama de que na terceira maior cidade do Brasil, o primeiro grande problema seja se lomover. A verdade é que já li e vi bastante sobre o preço da tarifa, o arrastão na Lapa, o ônibus vomitando gente pela janela, a margem de lucro da empresa, etc. E as dúvidas insolúveis ou motivada pela curiosidade infantil são massacradas na minha cabeça fervilhando de problemas. Algo que ninguém nunca li nem vi é como os próprios rodoviários transitam. A conversa que tive com o motorista da BTU esclareceu a minha inquietação boba: Se os ônibus em Salvador param de circular, a exceção dos corujões, que na fauna do transporte público da cidade é espécie em extinção, quem é que leva os motoristas para casa depois que eles param o ônibus na garagem? E quem é que leva quem levou o motorista? E, se as 4h da manhã alguns ônibus já começam a circular na cidade, como os rodoviários chegam para trabalhar na madrugada se na madrugada não tem ônibus? As prováveis respostas cor de rosa que eu sempre dava aos meus 12 anos eram:

1- A empresa dá prefêrencia a funcionários que moram perto da garagem.
2 - Cada empresa tem um dormitório com roupa de cama limpa e moça servindo cafezinho na noite.
3 - Tem um ônibus especial, como os do Polo de Camaçari.
4 - Eles pegam um táxi e a empresa os reembolsa mensalmente.

Ontem, saindo da Castro Alves, o executivo Praça da Sé - Imbuí, reconhecido pelo número de assaltos e pelo ar condicionado quebrado, foi a única opção para sair do caos provocado pelos fãs da antimpática Capital Inicial. Depois do motorista ter feito questão de dizer que só me levaria na Cardeal porque ele queria, dado que o horário dele já tinha sido completado e que, portanto, ele poderia ir para garagem, percebi que o fato do ônibus estar vazio era a oportunidade quase ideal para saber como os motoristas chegam em casa e voltam para o trabalho, na madrugada, numa cidade que não tem transporte público das 00h às 04h da manhã. Quase ideal porque o rapaz era do tipo que fazia trejeitos de irritação toda vez que seu desabafo ia ser interrompido. Com um pouco de insistência e de baianês, cavei a reposta desanimadora: "Cada um tem que se virar. As pessoas nessa cidade tem respeito por rodoviários e oferecem carona quando vê a gente esperando o transporte. Aconteceu isso hoje. O velhinho me viu parado e disse 'rodoviário tem que ser ajudado, vocês fazem a cidade funcionar' e me levou até a garagem". Tá, mas e quando não tem carona? "Olhe rapaz, tem um ônibus da empresa chamado Leva e Traz. É o manobrista da garagem que faz o circuito. Ele sai duas da manhã e volta umas três e meia. Vai deixando os motoristas que trabalharam na noite e pegando os que saem no começo da manhã." Ah, então, tem essa saída. "Mais ou menos, né? Porque se a gente acaba o serviço 23h40, a gente não vai esperar até as 02h da manhã. Prefere aventurar e ir catando nas linhas de outras empresas até chegar em casa. E pra chegar cedo também, o Leva e Traz não para na porta de sua casa. Você tem se dirigir pra rua que ele passa". E se ele passar numa rua distante? "Ai, pode complicar. Se não tiver carona, você vai andando ou espera pra ver se o Leva e Traz de outra empresa pode colocar você na rota". Tá, mas ficar no ponto de ônibus não é perigoso? "E ficar aqui no ônibus? Você acha que é seguro é? A gente se vira nessa vida, meu jovem". Só quem se vira aqui nessa cidade é quem não tem, eu acho. "Pois é, mas a gente até tinha uma moto. Aí facilitava, né? Porque a gente ia de moto e parava lá dentro da garagem. Sabe o que o dono da empresa fez? Pregou um aviso informando que estava proibido estacionar veículos dentro da empresa. Você acredita nisso? Gente esperta, malandra. E ainda teve a cara de pau, de indicar um lugar pra vender as motos da gente. Não dei ousadia e não vendi". Se duvidar, essa tal loja devia ser dele ou de parente. "Oxe, e você tem dúvida é? Olhe, a BTU, a Rio Vermelho, a Ondina, todos da mesma família. Uns espanhóis. Era uma empresa só, mas rico quanto mais tem mais briga. Ai estão meio separados. Ganham um dinheiro. Esses ônibus mais novos eles fazem é uma tal de franquia, não é nem empréstimo, porque não precisa. Num mês, já dá lucro". E quem trabalha mais no executivo, ganha mais? "Ganha essa roupa aqui e uma coleção de assaltos. Aqui a gente não ganha nada, nada. É um massacre. Já teve dia de fazer 16 viagens. Cada uma dura 1h. 15 minutos de intervalo não vou nem ao banheiro. E se você não cumprir a tabela, tá fora. Massacre, massacre mesmo. A gente só não lambe o chão porque a língua é pequena."