Eu quero um livro que não tenha nada escrito. Um texto que eu possa olhar e só contemplar a brancura do papel. Que não tenha absolutamente nada a ser lido, entendido e pensado. Esse livro tem que ser como um espelho de tudo. Para que quando eu olhe, imagine a história que está ali escondida e que não a acho. Para que crie os personagens e os veja transitando de folha em folha até o derradeiro final, que não poderá ser mais do que um começo invertido. Esse livro poderá mostrar-me a aspereza da vida e a crueldade de alguns verdugos. Mas é justamente na sua face mais reflexiva, na superfície mais escancarada que eu quero descobrir a relevância de tudo isso que agora está aqui fora: a relevância do nada.
O primeiro atingiu a pálpebra esquerda, trazendo-lhe o desconforto de estar no mundo. O outro caiu vertiginosamente contra a estrada que seguia. Vendo-o se transformar em nada, se desfazendo diante daquilo que poderia ser a imensidão, sentiu o infortúnio de rasgar-se em vida. E agora que existia, poderia contar algumas histórias
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Parede
Eu quero um livro que não tenha nada escrito. Um texto que eu possa olhar e só contemplar a brancura do papel. Que não tenha absolutamente nada a ser lido, entendido e pensado. Esse livro tem que ser como um espelho de tudo. Para que quando eu olhe, imagine a história que está ali escondida e que não a acho. Para que crie os personagens e os veja transitando de folha em folha até o derradeiro final, que não poderá ser mais do que um começo invertido. Esse livro poderá mostrar-me a aspereza da vida e a crueldade de alguns verdugos. Mas é justamente na sua face mais reflexiva, na superfície mais escancarada que eu quero descobrir a relevância de tudo isso que agora está aqui fora: a relevância do nada.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Nos Caracoles
Toda a vida parece traduzida nessa estrada : ainda que dê muitas voltas em torno de um imenso precipício, que faça prender a respiração a cada curva e que levante um pouco da poeira, nos consternando com um cenário tão grandioso, distante e, ao mesmo tempo, tão íntimo, a estrada, a estrada...só segue.
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terça-feira, 25 de outubro de 2011
Sagrado
No silêncio, escutou o canto mais bonito. Eram rimas de profundo amor, eram versos sobre aquilo que é mais importante em toda a existência: o nada. Naquele instante foi deslizando-se para o ar, desfazendo-se em vento. E todo seu corpo sentia essa liberdade, esse estranho regozijo que para alguns é crença, e para outros não pode ser mais do que o instante célebre da larga caminhada.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Da volta
Tantas coisas eu tenho a contar que coloco tudo num pedacinho de mar. Que é pra deixar assim mesmo à deriva e ver tudo partir pra alguma paragem distante a procura de um abraço, de uma grama verde, de uma montanha silenciosa, de um rio pedregoso, de uma acerola colhida do pé pelo vento. Um dia eu também parto para esse lugar, a reencontrar-me com tudo o que foi e que segue, a reencontra-me com o todo sem começo e sem fim.
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segunda-feira, 6 de junho de 2011
A verdadeira vida de Sebastian Knight
A resposta a todas as questões da vida e da morte, “a solução absoluta”, estava escrita no mundo inteiro que ele conhecera, era como se um viajante percebesse que a região inóspita pela qual viajava não era apenas um conjunto acidental de fenômenos naturais, mas a página de um livro onde aquelas montanhas e florestas, campos e rios, se achavam dispostos de modo a formar uma frase coerente; a vogal de um lago a fundir-se com a consoante de uma colina sibilante; as curvas de uma estrada a escrever a sua mensagem numa caligrafia, tão clara quanto a letra de nosso pai; as árvores a conversar numa linguagem de mudos, compreensível aos que aprenderam a linguagem dos gestos...Assim, o viajante soletra a paisagem, e o seu sentido se lhes revela; do mesmo modo, o intricado o desenho da vida humana demonstra ser monográfico, agora bastante claro ao olho íntimo que desamaranha as letras entrelaçadas. E o mundo , cujo sentido sentido então aparece, é espantoso em sua simplicidade – e a surpresa maior talvez consista em que, no transcurso de toda nossa existência terrena, com o nosso cérebro limitado por um círculo de ferro, pelos sonhos bem apertados de nossa própria personalidade; não se fez, por puro acaso, aquele simples movimento mental que teria libertado o pensamento aprisionado, concedendo-lhe grande compreensão. Agora enigma estava decifrado. E como o significado de todas as coisas brilhava através de suas formas, muitas idéias e acontecimentos, que tinham parecido de máxima importância, diminuíam a seus olhos, não a ponto de tornar-se insignificantes – pois que nada agora poderia ser insignificante- mas chegando ao mesmo tamanho que outras ideias e acontecimentos, aos quais, antes, negara qualquer importância, agora adquirida.
Nabokov pra essa manhã.
sábado, 4 de junho de 2011
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