Se algum dia na vida eu fosse ter filhos, eles, parafraseanedo aquelas comunidades toscas de rockeirinhos do orkut, leriam Charles Dickens. Minha infância para sempre carregará esse espaço vazio de mundo. E seria cruelmente calculista se fizesse alguém padecer da mesma sina.
O primeiro atingiu a pálpebra esquerda, trazendo-lhe o desconforto de estar no mundo. O outro caiu vertiginosamente contra a estrada que seguia. Vendo-o se transformar em nada, se desfazendo diante daquilo que poderia ser a imensidão, sentiu o infortúnio de rasgar-se em vida. E agora que existia, poderia contar algumas histórias
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Errante navegante, por mais distante, eu jamais te esqueceria.
Ao regressar do outro lado da montanha, João Celestioso, com o vagar próprio dos sábios e dos homens mais sensíveis às reflexões sobre a existência, deixa-se saborear pela força de suas palavras: “Afinal, tudo são luzes e a gente se acende é nos outros. A vida é um fogo: nós somos suas breves incandescências”. Como num grandessíssimo espetáculo dado as atuações intensas, capazes de nos rasgar em humanidade e de nos encetar pelos caminhos dos mistérios que perfazem o nosso “ser”, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (Companhia das Letras, pgs. 262, R$ ?) , do escritor Mia Couto, é uma convocatória do descobrir-se.
Descobrir-se indo ao âmago daquilo que nos faz existir, descobrir-se pelas alegrias e pesares alheios, descobrir-se retirando de si o que encobre e o que torna distante. Descobrir-se é também um exercício de imiscuir no íntimo aquilo que o poeta uma vez chamou de “Sentimento do Mundo”. É dessa convocatória que se começa a partilhar quando nas primeiras páginas, Mariano, jovem universitário, embarca rumo à sua terra natal com o objetivo ardiloso de comandar a cerimônia fúnebre de seu avô, Dito Mariano. A África, ventre da humanidade, torna-se aqui o terreno da partida, da chegada, do encontro e da vida que se acende e se incendeia com tudo. Metáfora de si, do mundo e da existência, apresenta-se como a mãe condutora do enredo preenchendo-o com cantos escuros, com os mistérios mais difíceis e com a necessidade veemente de viver. A esse desafio, Mariano entrega-se.
O cenário, Luar-do-Chão, que por natureza nos impele para a sensação de que contemplar o distante é ilusão, uma vez que ele está sob os nossos pés e alcances, é Moçambique, terra de Mia Couto. Quem espera ver no país, resumido pela obra na rígida fronteira cidade-ilha, a pobreza generalizada, vista, revista, filmada e fotografada pelas lentes ocidentais, se surpreende com riqueza. Com riqueza de histórias, de personagens, de misticismo e de tradições e de valores de um mundo que já não é, mas que segue pulsante. A surpresa, entretanto, não permite cair em ilusões e na fuga – é ficção, mas existe um real sendo representado, dando pistas imprescindíveis para falar de um povo e de suas vivências. Assim é que, mesmo não se tratando de um texto assentado na crueldade do realismo, na denúncia explícita das questões envolvendo África e seus filhos, a pobreza, a miséria social – muitas vezes imbricada na miséria humana-, a relação de exploração bem como a busca infinda pela dominação daquilo que está além do nosso poder, são elementos que interferem no desenvolvimento da trama e no desenrolar de seus conflitos. Uma noção de interferência, a bem da verdade, amplificada, posto que Luar do Chão e a cidade esboçam e traduzem o mundo verdadeiro (é possível mesmo haver essas distinção?) e os seus (des) encontros.
Costurada por frases que, muitas vezes, parecem ter sido talhadas pelas mãos negras dos canaviais, rasgando-se na busca por ritmos e cadências particulares, a obra resvala-se no universal. É uma luta permanente entre permanecer resistindo e se entregar os desvarios da cobiça, da ganância e de todos os elementos que afastam o homem do seu descobrir-se. Assim é que o regresso de Mariano da cidade, completamente lavada pela água do capitalismo moderno, à Luar de Chão expõe o confronto dos universos. É um dilema que se coloca acima de reproduzir, grosso modo, o maniqueísmo da literatura oitocentista européia. Não é escolher entre o bem e o mal, mas entre ir ou não ao essencial, ao essencial que, como pronunciou o português Saramago, é “invisível aos olhos”.
Nessa briga, permeada pelos ditames do pós-colononialismo, é como se ao mundo inteiro fosse feito o pedido bíblico de voltar ao pó, de se reduzir para renascer verdadeiramente grandioso. Assim é que a cega Miserinha, a mãe Mariavilhosa, a avó Dulcinesa, o pai Fulano Malta, o avô e diversos outros que,como João Celestioso, nem adentram de fato na narrativa, seguem a risca essa empreitada. Aos poucos, os enigmas por trás da morte do avô e o passado, que, de forma recorrente, é objeto de esquecimento e de lembrança, se fundem para um tempo muito próprio: o tempo da existência. É desse ritual que os personagens, no confronto por despir-se e se achar, compartilham.
Evidente que todo esse jogo recai sobre muitas metáforas, artífices importantes para a compreensão do nosso mundo independente de fronteiras entre ilhas e cidades. Couto, também autor do magistral Terra Sonâmbula, faz uma leitura da existência humana sobre a terra a partir da contemplação do que lhe é mais caro: o rio, as árvores, o céu, a terra, o ar tocando as rugas do rosto e o fogo incandescente, dono da vida. Os próprios nomes atendem a esse propósito, aqui construído de maneira aparentemente despropositada. Na casa intitulada Nyumba-Kaya, transcorrem os mistérios dos homens. Essa casa, transformada em personagem tamanha sua força e vestígio de humanidade que possui, nada mais representa do que a própria terra, tal como nos indica o título original da obra. Mas, afinal, foi dado ao ser humano a possibilidade de encontrar algo no seu “descobrir-se”? O que exatamente se poderia encontrar nessa busca tão confusa, sem regras ou caminhos estabelecidos?
A estas perguntas, numa das secretas cartas, o protagonista nos responde questionando: “A terra pode amolecer por força do amor?”. E, logo em seguida, nos dá o ponto de partida e de chegada de todos os demais personagens da história: “Só se o amor for uma chuva que nos molha a alma por dentro”. Adiante, esclarece: “A chuva é só uma. É sempre a mesma chuva, apenas interrompida de quando em quando”. É para esse momento de interrupção que Mia Couto nos propõe a travessia. Religar os fios do mundo para nos entender e nos fazer des-cobrir da nossa loucura e da indiferença cotidiana. Pintá-lo com as cores da beleza, demovendo-lhe da feiúra, da mesquinhez, da sua pobreza, fazendo-o respirar, enchendo rios com esperança. Do ideal leve e, ao mesmo tempo, comprometedor de perceber que encontrar a vida em outro lugar é encontrá-la em si mesmo, sumindo, reforçando-se e se alimentando dessa seiva que emana da mãe terra e do senhor tempo. “Da seiva amor”, nos diz.
Frases bonitinhas pescadas do livro.
“Quando já não havia outro tinta no mundo
Frases bonitinhas pescadas do livro.
O poeta usou de seu próprio sangue.
Não dispondo de papel,
Ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz,
O rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem foz nem nascente”
“Sou como a palavra: minha grandeza é onde nunca toquei.” Avô Mariano.
“-Por que demoraste tanto?
-Não fui eu, Tia. Foi o tempo”.
“Não quero sair nunca mais.
- Tem medo do que?
- O mundo já não tem mais beleza.”
“O mundo já não era um lugar de viver.
Agora, já nem de morrer é”. Avô Mariano.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
E aí, deputado?
Desde o dia quatro de outubro, tenho achado surpreendente a ojeriza destilada pelos os nossos setores médios pretensamente intelectualizados ao deputado federal mais votado do país, o cearense Tiririca - para o qual William Bonner se refere como "palhaço", num jogo dúbio de palavras visando a desqualificação e a picardia generalizada. Foram 1 milhão e 500 mil eleitores que, ao verem a cara do celebrado artista dos anos 90/00, autor de hits como Clementina de Jesus e manjedouro de bordões quilate "Não sei tu me amas, pra que tu me seduz", apertaram com força o botão verde - que, felizmente, não pertencia a onda do soumarineiro43. Agora, a Justiça brasileira, gestada no ranço preconceituoso, elitista e extremamente raivoso e racista de São Paulo, quer cassar seu mandato antes mesmo dele assumir. Alegam fraude onde só existe perseguição com fortes doses de mal-estar.
Não faço coro de apoio, não pretendo pintar a cara e sair pelas ruas defendendo essa candidatura. As qualificações já demonstradas de Tiririca o impelem para os palcos e não para o Congresso Nacional. Embora se palhaço, tal qual Bonner rotulou o artista, tenha casa, essa casa tem endereço: Brasília. O estarrecimento da situação vem do lamentável fato de que não vi nenhuma pessoa - cabe, salientar, pessoa na timeline- fazendo alguma provocação interessante sobre essa vitória esmagadora, incontestável e legítima. Vitória essa que nos permite leituras fundamentais sobre a nossa democracia e sobre a confiança que o povo brasileiro tem nas suas instituições.
Não faço coro de apoio, não pretendo pintar a cara e sair pelas ruas defendendo essa candidatura. As qualificações já demonstradas de Tiririca o impelem para os palcos e não para o Congresso Nacional. Embora se palhaço, tal qual Bonner rotulou o artista, tenha casa, essa casa tem endereço: Brasília. O estarrecimento da situação vem do lamentável fato de que não vi nenhuma pessoa - cabe, salientar, pessoa na timeline- fazendo alguma provocação interessante sobre essa vitória esmagadora, incontestável e legítima. Vitória essa que nos permite leituras fundamentais sobre a nossa democracia e sobre a confiança que o povo brasileiro tem nas suas instituições.
Só mesmo sendo leviano e tendo muita, muita má-fé se poderia dizer que os eleitores de Tiririca são todos ignorantes, tapados e descomprometidos com o seu país. Pessoas loucas que votaram por protesto – aqui recorrendo a essa odiosa expressão, que além de vazia e de pouco esclarecedora reduz as convicções e os pensamentos das pessoas a um mero “protesto”. São 1 milhão e meio de pessoas. Nesse pacote, cabem pessoas estúpidas, torcedor do Corinthians, hipponga, concurseiro, franelinha, agente comunitário de saúde, baleiro de sinaleira, vendedor de coxinha, etc e tal...e até intelectual da Usp. São pessoas que, independente das motivações, percebem, inevitavelmente, como a nossa democracia chafurda na lama, esgotando-se porcamente em si mesmo e sujando tudo o que se encontra num raio que vai do Oipoque ao Chuí. Claro que a reação delas a esse fato não é das melhores nem a única alternativa – por sorte nossa, uma vez que são nesses momentos de ausência de referências e de caminhos que costumam surgir fenômenos como Tiririca, Mulher Pêra, Popó e assim por diante.
Mas há, nessa eleição, traços inequívocos de que nosso sistema representativo faliu. Se durante todo esse tempo enviou-se pessoas ditas “sérias”, com notório saber social, de reputação ilibada, dentre outras qualidades inquestionáveis no nosso jogo de distribuição de competências, e essas pessoas responderam com lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, troca de favores, clientelismo, cometendo crimes constantes e irremediáveis contra a administração pública e, portanto, contra o país, então, nada mais adequado do que fazer a arruaça, cair nas graças do oba-oba e fazer de Brasília uma imensa brincadeira. Exatamente como os políticos, que historicamente tem se dirigido para lá, tem tratado o país.
Para além desse fardo pesaroso, paira outro aspecto: os nossos velhos ideais iluministas de querer sempre tutelar as escolhas do povo, se excluindo, inclusive desse coletivo, menosprezando os seus saberes. A posição sempre cômoda de enxergar o inferno nos outros. Como se a indignação por Tiririca fosse algo realmente necessário, bom e oportuno. Esquecendo, por assim dizer, que nossa ira salvaguardadora dos ideais democráticos deveria recair implacavelmente contra a ida de Fernando Collor ao 2º turno, contra a vitória de Renan Calheiros ao Senado, de Mário Negromononte – sanguessuga - ao Congresso, da possibilidade de vitória de Weslian Rorirz em Brasília, e de tantos outros que usaram a máquina pública para fazer cair pesadíssimas barras de ouro em suas respectivas contas bancárias nas Ilhas Cayman. Ou mesmo daqueles que representam severos entraves aos avanços pela liberdade e pela igualdade social. A corja que sobe no púlpito para cuspir perdigotos contra o casamento gay, o aborto, em defesa dos transgênicos, contra a demarcação de terras indígenas e quilombolas, aqueles que, como Demóstenes Torres, acham que racismo é coisa da cabeça trançada de preto. Para os canalhas, a Justiça se faz seletiva, inoperante e, costumeiramente, parceira.
Esses sim, são os que nos matam. São os que estrangulam nossas utopias e nos empurram para o calabouço do atraso, da ignorância. Condenam-nos a viver com medo, cerceados do nosso direito de existir coletivamente. De Tiririca, não se pode temer. Ele ainda sequer sabe o que um deputado faz, o que, nesse estágio, é um ponto extremamente considerável. E convenhamos algumas palhaçadas e projetos malfadados no meio desse caldeirão, definitivamente, não são capazes de fazerem as coisas ficarem pior do que já estão.
Na foto: A capa do jornal Meia Hora dando o tom dos próximos quatro anos. Muito suspense e terror no cemitério Brasil.
Na foto: A capa do jornal Meia Hora dando o tom dos próximos quatro anos. Muito suspense e terror no cemitério Brasil.
domingo, 3 de outubro de 2010
Descanso
"Dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundezas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma. Felicidade se acha é só em horinhas de descuido".
Guimarães Rosa - Manuelzã e Miguilim
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Outubro
Primeiro que achei a coisa toda muito cômica e definitivamente encontrei a definição para o estado de espírito que pode misturar desconfiança e fofura. Segundo que o espião claramente tem problemas existenciais, de identidade e de aceitação - percebam: ele realmente tem cara de que acredita ser um gato. Sou eu. E, por fim, essa é a exata sensação que tenho na minha vida hoje: Eu acho que existe um espião entre nós (e não, não é o Google Street View). Bem vindo, Outubro! Acabe logo com o ano.
Da esquerda pra direita: Eu, Lucas Thethê, Glauber (claro) e Thiago.
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Incompatibilidade de Gênios
Sempre restará ao homem músculos. Esse talvez seja um dos maiores legados da contemporaneidade. O fenômeno do corpo tido como perfeito repartiu-se em mil academias para cada 50 mil habitantes. Machões insatisfeitos com a aparência praticamente imutável caíram definitivamente nas garras do adesismo do homem-camarão: cortem a cabeça, comam o resto.
Já que não se podia admirar os traços inequívocos de beleza e a simetria que compõem o próprio corpo, ao menos, pensam, se pode desviar o olhar para a região que segue do pescoço ao dedão do pé. É que para aparecer bem diante de um flash, as lições do mundo pós-moderno foram bem claras: vale tudo. Da barriga tanquinho de guerra (só se for de Cabul) até o volume das batatas, passando pelos energéticos, suplementos e receitas caseiras a base de ovo e sal, tudo está nos conformes, acredita-se.
Num ritmo frenético e avançando ostensivamente sobre os jovens que nem sabem ainda diferenciar uma fralda de um absorvente, o corpo malhado se exarceba pelas ruas do país. Mostra-se de forma ritualística em qualquer estação e, nas cidades litorâneas, são pontos turísticos mais relevantes do que o Farol da Barra ou Calçadão de Copacabana, numa relação simbiótica com a cidade.
Embora o tema não seja absolutamente novo – e, de fato, não é- assusta de forma visível a necessidade de puxar ferros, de correr 2h, 3h sem sair do lugar, de levantar peso em nome da estética. É como num imenso abatedouro. Todo mundo igualzinho, se alimentando da ração que servem, pegando massa, se esforçando para a morte de si mesmo.
Não se sabe ao certo quem imiscuiu na cabeça das pessoas que corpo malhado aumenta as chances da paquera ser bem sucedida. Porque, em geral, essa turma do braço-de-pão com copo de cerveja, que faz VIDA LOKA e coloca no Orkut, se aglutina em espaços onde homens e mulheres pagam para se chupar. Trivela, festivais de Axé Music ou, para não incidir em preconceitos bobos, nas Raves da vida. Se a pessoa pactua com aquelas condições, o corpo é só um mero detalhe. Claro que um detalhe sexualizado, que projeta referências de masculinidade, virilidade e até pode fazer mocinhas desavisada confundirem Ricardão com Aquiles. Ou seja, o mérito (se há algum, claro) não é pagar 300 reais na Vila Forma, mas sim pagar 300 reais no Open Bar do Ensaio Geral. E com a bebida fazendo o mundo girar mais depressa, pouca coisa importa e nem precisa divagar muito para saber que fora dali sobra quase nada.
Assim, inevitavelmente é para a região acima do pescoço que as coisas se voltam. Sem fazer discurso de jovem que não freqüenta academias por princípios e que está em fase de intelectualização frouxa, é dessa maneira que precisamos encarar os fatos. Não há nenhum relacionamento sério que se sustente somente entre bíceps e barriguinha bem definida. Desconheço relações heterossexuais – sim esse texto tem orientação – verdadeiras funcionando só a base de academia. Evidentemente, acontece das Barbies se encantarem pelo Ken e fazerem exibicionismo público. Daí que nas 5 primeiras frases cuspidas no bar, a mesa finge que não entende. Nas 3 seguintes, fica o constrangimento. E nas 2 últimas ele nem fala. Porque, embora o fenômeno “come o resto” tenha certo espaço no meio, todo mundo já sabe que camarão que dorme, a onda leva.
PS: Trabalho com generalizações. Quando quero, claro.
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Vila Forma
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
E futuro é o que virá
Gonzaguinha para encerrar os posts desse mês de setembro. Piro com ele falando "Calma, calma, muita calma". Tem sido emblemático nesses dias beligerantes em que tudo é uma questão de pegar o sonho e partir. Ou isso ou uma vida renegada. Às vezes penso que o moço tirou o coração espremeu, torceu, bateu, saculejou e gritou. O que saiu, virou canção. Gonzaguinha é só isso para mim. E isso tudo é muito, sem dúvidas.
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O que é o que é
A alma repleta de chão
A escuridão não me preocupa. Me preocupa a luz. A escuridão é apenas a ausência de luz. Mas a ausência sim me preocupa. A preocupação não. Me é indiferente. No entanto, a indiferença me preocupa muitíssimo. Considero-a uma atitude vergonhosa. Ainda que a vergonha não me preocupe. Antes sim me preocupava. Mas pra mim dá no mesmo o antes e o depois; minha vida não é um desenvolvimento tendente a nada. Por isso, o nada não me tira o sono. O sono, em compensação, é algo que, sim, me interessa. Às vezes passo toda a noite acordado pensando nele. Não chego a nenhuma conclusão, mas as conclusões me exasperam. Prefiro os pontos de partida. Não pelas partidas; pelos pontos. Sempre trato de acumular pontos. Não pelos pontos em si; pela acumulação. A acumulação entendida como uma coisa só, não como um cúmulo de outras. Os cúmulos eu, se pudesse, os desagregaria. As coisas têm que ir separadas; não juntas. Juntas formam outras coisas, e isso traz complicações. Não que eu tenha medo às complicações. O que me assusta é o simples. O simples não se sabe de onde sai; aí é onde está o mistério. Ainda que os mistérios, por sorte, não me interessam. Me interessa a sorte. Que desgraça. Porque a sorte sempre é escassa. E se dissesse que não me preocupa a escassez, mentiria. Mas mentir não me preocupa. O que me preocupa é a verdade. Quando minto não tenho problema; posso dizer qualquer coisa. Ainda que seja verdade, não importa, porque digo de mentira. Mas quando falo a verdade, tenho que andar com mais cuidado. Por via das dúvidas, nesses casos digo o mínimo possível. E depois me desdigo, para cobrir as duas possibilidades. Mas não é que me queira cobrir. Eu faço tudo exposto à tempestade. E se não há lua, melhor. Eu gosto da escuridão. A escuridão não me preocupa. Me preocupa a luz. A escuridão é apenas a ausência de luz. Mas a ausência sim me preocupa. A preocupação não. Me é indiferente.
Leo Masliah - La obscuridad
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