sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Incompatibilidade de Gênios


Sempre restará ao homem músculos. Esse talvez seja um dos maiores legados da contemporaneidade. O fenômeno do corpo tido como perfeito repartiu-se em mil academias para cada 50 mil habitantes. Machões insatisfeitos com a aparência praticamente imutável caíram definitivamente nas garras do adesismo do homem-camarão: cortem a cabeça, comam o resto.

Já que não se podia admirar os traços inequívocos de beleza e a simetria que compõem o próprio corpo, ao menos, pensam, se pode desviar o olhar para a região que segue do pescoço ao dedão do pé. É que para aparecer bem diante de um flash, as lições do mundo pós-moderno foram bem claras: vale tudo. Da barriga tanquinho de guerra (só se for de Cabul) até o volume das batatas, passando pelos energéticos, suplementos e receitas caseiras a base de ovo e sal, tudo está nos conformes, acredita-se.

Num ritmo frenético e avançando ostensivamente sobre os jovens que nem sabem ainda diferenciar uma fralda de um absorvente, o corpo malhado se exarceba pelas ruas do país. Mostra-se de forma ritualística em qualquer estação e, nas cidades litorâneas, são pontos turísticos mais relevantes do que o Farol da Barra ou Calçadão de Copacabana, numa relação simbiótica  com a cidade.

Embora o tema não seja absolutamente novo – e, de fato, não é- assusta de forma visível a necessidade de puxar ferros, de correr 2h, 3h sem sair do lugar, de levantar peso em nome da estética. É como num imenso abatedouro. Todo mundo igualzinho, se alimentando da ração que servem, pegando massa, se esforçando para a morte de si mesmo.

Não se sabe ao certo quem imiscuiu na cabeça das pessoas que corpo malhado aumenta as chances da paquera ser bem sucedida. Porque, em geral, essa turma do braço-de-pão com copo de cerveja, que faz VIDA LOKA e coloca no Orkut, se aglutina em espaços onde homens e mulheres pagam para se chupar. Trivela, festivais de Axé Music ou, para não incidir em preconceitos bobos, nas Raves da vida. Se a pessoa pactua com aquelas condições, o corpo é só um mero detalhe. Claro que um detalhe sexualizado, que projeta referências de masculinidade, virilidade e até pode fazer mocinhas desavisada confundirem Ricardão com Aquiles. Ou seja, o mérito (se há algum, claro) não é pagar 300 reais na Vila Forma, mas sim pagar 300 reais no Open Bar do Ensaio Geral.  E com a bebida fazendo o mundo girar mais depressa, pouca coisa importa e nem precisa divagar muito para saber que fora dali sobra quase nada.  

Assim, inevitavelmente é para a região acima do pescoço que as coisas se voltam. Sem fazer discurso de jovem que não freqüenta academias por princípios e que está em fase de intelectualização frouxa, é dessa maneira que precisamos encarar os fatos.  Não há nenhum relacionamento sério que se sustente somente entre bíceps e barriguinha bem definida. Desconheço relações heterossexuais – sim esse texto tem orientação – verdadeiras funcionando só a base de academia. Evidentemente, acontece das Barbies se encantarem pelo Ken e fazerem exibicionismo público. Daí que nas 5 primeiras frases cuspidas no bar, a mesa finge que não entende. Nas 3 seguintes, fica o constrangimento. E nas 2 últimas ele nem fala. Porque, embora o fenômeno “come o resto” tenha certo espaço no meio, todo mundo já sabe que camarão que dorme, a onda leva. 

PS: Trabalho com generalizações. Quando quero, claro. 

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