O primeiro atingiu a pálpebra esquerda, trazendo-lhe o desconforto de estar no mundo. O outro caiu vertiginosamente contra a estrada que seguia. Vendo-o se transformar em nada, se desfazendo diante daquilo que poderia ser a imensidão, sentiu o infortúnio de rasgar-se em vida. E agora que existia, poderia contar algumas histórias
Toda viagem passa por um ciclo de preparo, consumo e consequências. O meu é sempre vicioso.
TRISTEZA E CONTENTAMENTO (Referente a 1ª Etapa)É quando sua rotina está uma droga e aquele seu sonho de morar em NY anda tão distante que qualquer promoção aérea para Minas Gerais já te deixa animado. Perceba, é somente Minas Gerais.
DÚVIDA (A etapa que não é primeira nem segunda)Você ouve alguém na rua falar uai e trem bã (se não for MG pensa no sotaque do lugar que você vai e substitui. A fórmula funciona). Imediatamente, você se lembra de que vai para esse lugar e que vai ser assistido por pessoas que se comunicam assim. Should i stay or should i go?
PLANOS (2ª Etapa)Vendo que não é um bom negócio cancelar a passagem e perder paciência e dinheiro, você confirma o hostel. Uma vez concluído o processo, é hora de fazer planos do que fazer e ver. E aí, pirem, você acaba descobrindo que o ponto turístico da cidade é uma lagoa. Pirem de novo: é artificial.
ANIMAÇÃO (Da etapa em que o desfecho começa a se anunciar)Uma lagoa é um lugar aprazível. Um trânsito pesado é sinônimo de vivacidade. Um aeroporto na casa do inferno é sinal de planejamento urbano. Um povo caipira é excelente fonte de estudo antropológico. Temeridade, lixo é o seu lugar.
CRISE BRUTA (Etapa Crítica)É o momento em que a empolgação se encontra com o pouco que sobrou do seu senso de realidade (e, convenientemente, com seu senso de rídiculo). Você pensa em cancelar passagem, albergue e congresso. Sabe que será ruim com a mesma certeza de que sabe que precisa ir.
DA ETAPA QUE SE CONCLUIVocê viaja. O que vai sobrar disso depende de alguns fatores imprevistos, que embora incertos sempre te levam inevitavelmente a...
...TRISTEZA E CONTENTAMENTOPorque se sua última viagem foi maravilhosa você fica triste porque acabou e se foi uma porcaria você fica triste porque foi e gastou o dinheiro do aluguel de seu cubículo quarto e sala em NY. É quando sua rotina volta a ficar uma droga e....
Foto: De uma viagem que passou por todos esses ciclos, mas que ainda não sei o tamanho do sucesso ou fracasso.
PS: Há exatamente um ano eu tinha uma vida em Oslo, na Noruega. Depois, eu tinha uma passagem pra Dublin com conexão em Milão. Em seguida, uma matrícula numa escola em Londres. Quarta-feira estou indo para Belo Horizonte. É pra cortar os pulsos, né não?
Inspirada nos ideais apurados de Carlota Joaquina, a louca, ela desembarcou no Brasil após o exílio de um ano no Canadá: “Dessa terra, eu quero até o pó”, declarou beijando escandalosamente o solo do Aeroporto Internacional Dois de Julho, em Salvador. Depois da rápida temporada de seis meses na capital do acaraxé, Camila Mathias, filha da socióloga Viviane e do filósofo Carlos, sobrinha de Xalala, prima do entrevistado anterior, Daniel Fonseca, amiga de Sarah, conhecida de Taiana Pinho, reconhecida ortograficamente pelo Word, encontrada no topo da lista de presença da Unicamp, inteligente de nascença, diz que tem um sonho: quer ser apenas Camila Mathias. Como boa pós-moderna, odeia rótulos. Geminiana do tipo que se divide em três, Camilinha, como prefere ser chamada até os 65, vive a rotina atribulada e desesperada de qualquer estudante universitário brasileiro na bouca de se formar: cursa Ciências Sociais [atente para o fato de que é uma Ciência e não um Serviço] e presta trabalho escravo ao Nepo, Núcleo de Alguma Coisa que Até Hoje não Sabemos o Que É. Nesse turbilhão, a grande baianinha de 1,53m reservou um pequeno espaço na sua gaula cotidiana pra mostrar que quer e pode dar respostas capazes de Roda® Tudo. Cinco meses após o envio das perguntas, nos deparamos com respostas mais complexas do que a nossa vã filosofia é capaz de alcançar - ainda que filosofar, para ela, seja bem menos interessante do que uma assadeira de cookies e ou queijinhos no Porto da Barra.
Quero começar a entrevista perguntando da sua origem mesmo. Onde você nasceu? Em que maternidade? Qual o seu signo?
Nasci em Salvador, óbvio (É que o Brasil só tem mais de cinco mil municípios, bem natural ela nascer aqui), mais precisamente no Hospital Espanhol. Tive o privilégio de já chegar ao mundo com vista para o mar! Sou de gêmeos, acho que isso justifica minha indecisão constante! (risos).
E o seu orixá, você sabe?
Não sei qual é meu orixá, mas confesso que fiquei curiosa e fui procurar no Google.
Um lugar bem confiável pra jogar os búzios, né?
(Risos) Sei que não é o meio mais adequado, mas enfim...Um dos sites em que entrei disse que meu orixá protetor é Yemanjá. Outro disse que é Ibeji. E outro disse que é Òdí. Conclusão: continuo não sabendo! (risos).
Todo mundo te acha bem estudiosa. Mas você acha que estuda muito ou que só está assumindo as responsabilidades pelas suas escolhas?
Olha, acho que hoje eu posso dizer que estudo pra assumir minhas responsabilidades mesmo. Mas, na época do ISBA, vamos ser sinceros, eu acho que eu era meio biruta! (Risos, risos)! Já me perguntei várias vezes como eu conseguia estudar daquele jeito. Acho que hoje eu sei equilibrar melhor as coisas!
Nada. A gente até gostava de saber do gabarito oficial antes do professor. Mas me diz, você raramente revelava sua notas (certamente para não deixar que 99% dos colegas chegassem em casa e perguntassem aos pais se não tinham um cérebro mais legal pra colocar naquele corpinho). Mas alguma vez você já tirou nota abaixo de 7?
Claaaaaro que sim! Várias vezes (tá 6,9 não conta). Avisa que tirei 3,25 na prova de matemática da segunda fase da Unicamp (enche o peito em sinal de orgulho)! (Risos)! E só fui descobrir isso essa semana, quando fui pedir meu histórico escolar.
É, mas quando você tira 3,25 na prova de matemática da Unicamp, você fica em quarto lugar. Já aconteceu de você ter um rendimento ruim e chorar bastante em casa?
Tá brincando, né?
Não, estou falando sério. Outra coisa também. A gente quase nunca te vê xingando. É por opção ou por falta de repertório?
Puta que pariu, você nunca me vê xingando é? Como assim, seu filho da puta? Em que mundo você vive, seu porra? (risos). Sempre falei palavrão. Olha só como soa natural. E tenho dito.
Bem, já vi que repertório você tem. Falta só a prática mesmo. Você, além de simples, é muito calminha. Quando é que você sai do sério?
Quando minha professora de antropologia me faz adiar três vezes a passagem de volta pra Salvador; me faz pagar uma multa de quase R$200,00 pra alterar a data e ainda me diz: “Pense que você vai pra Salvador em algum momento, querida. E eu, que nem pra lá vou?”
Risos. Dá pra notar que o mundo é mesmo muito injusto e que a gente precisa ser um pouco mais compreensivo com as pessoas. Quando você voltou do Canadá (pela primeira vez), a experiência de morar fora te deixou um pouco mais faladeira. Por quê?
Porque assim, né, eu voltei de lá, tipo 10 horas de viagem, aí eu cheguei e papapapapa. Queria falar tudo de uma vez e pior é que eu me confundia (ia?) toda. Eu começava a falar, aí esquecia as palavras (Amnésia?). Na aula de redação de Zé Gomes, eu esquecia como escrever em português toda hora!! Mas aí, no dia que eu cheguei era aula de Carrera, e não podia ficar falando. Peguei os balões (as meninas tinham colocado vários balões na sala... tão bonitinho isso, né? Uma graça! E era tudo cor de rosa, se eu me lembro bem)... Mas aí Carrera tava dando aula, e eu fiz um lacinho com os balões na cabeça dele (zzzzzzzZZZZZ). Foi lindo aquilo. Ele não entendeu nada. Achou que eu era louca, né?!
Ele achou, foi? Acho que carece de provas.
Pois é, aí eu saí da sala e meniiiiino (zzzZZZZZZZZZZZZZZZZ), fiquei com uma crise de rinite no dia seguinte. Fiquei de cama vários dias. Aí que não podia falar mesmo... mas, peraí, qual era a pergunta mesmo? (risos).
Hã? Ah, então, queria saber se você era faladeira, mas nem precisa responder.
(Risos) Respondendo de verdade agora (medo!). Acho que sempre fui meio faladeira (supresa!) ! Você que só percebeu isso com um pouco de atraso! (risos) Vai ver que foi saudade de vocês, uai... Tinha muita coisa pra contar!
Teve algo que você fez no Canadá que ninguém, absolutamente ninguém sabe?
Com certeza! Você queria que eu narrasse todas as vezes que fui ao banheiro fazer pipi?
Tá, tudo bem, não precisa falar do restante. Eu tenho uma outra curiosidade. O que você acha que aconteceria se você ficasse bêbada?
Eu acho que já nasci num estado não-alcóolico de embriaguez eterna, sabe?
Mas, enfim, eu ficaria bem mais tonta do que já sou!!!! E episódios como o da “gaula”, o da piada do biscoito, o do “EU NÃO FAÇO FILOSOFIA!” e o do “toma R$5,50, mas se for mais que R$5,00 não compra não” seriam bem mais freqüentes. Ah, e provavelmente minha voz sairia bem mais esganiçada também...
Você tem alguma preocupação com seu país?
Claro que sim. Por que outra razão eu faria Ciências Sociais? (Riiiiioooooo 2016!!!! UHUUUUUUU)
Aproveitando a euforia com a Copa do Mundo e a com Olimpíada, que, né, demonstram bem a sua preocupação com o Brasil, então, por que pensa em ir embora?
Perguntinha só pra me irritar, né? (risos). Porque tem um pedacinho de mim que mora lá fora. Porque eu adoro a sensação de chegar num lugar diferente. Porque eu sonho em rodar o mundo. E porque nada disso muda ou diminui meus sentimentos em relação ao Brasil.
Nesse caso, você pretende voltar a morar em Salvador ou acha que ficou pequena demais?
Por enquanto acho que não. Mas ninguém sabe o que o futuro reserva (frase original). Salvador sempre vai ser meu lar e nunca vai ser pequena demais.
Claro, é como ter um sítio no interior. Você sabe que ele é seu, mas não precisa pisar em titica de galinha pra saber que ele existe, né? Enfim, retomando, quem do besteirol que faria você ficar feliz em qualquer situação?
Acho que você mesmo, Gilzu...Até quando você é irritante, você me faz rir! (risos).
Alguém do besteirol que faria você ficar triste em qualquer situação?
Não conheço todo mundo do besteirol. (Vejamos, quem ela não conhece do Besteirol. Paula!)
Alguém do besteirol que você levaria pra uma Ilha Deserta e alguém do besteirol que você deixaria pra sempre numa ilha deserta?
Eu levaria Boi pra uma ilha deserta, porque ele, como bom irmão e boiólogo, ia me proteger de todos os insetos malignos e seres da escuridão. E eu também o deixaria lá depois pra fazer amizade com os elefantes.
Não conheço muitas ilhas desertas que tenham elefante, mas deixa quieto. Qual é a frase que define seu lema de vida?
I do believe in fairies, I do, I do!
Quantos anos você tem mesmo, hein?
21.
O que você acha da sua imagem de muito inteligente? Te agrada ou você desejaria ser conhecida primeiramente sobre outro estigma?
Não sou adepta a rótulos.
Curiosidades:
- Que Camilinha já fez intercâmbio para o Canadá isso todo mundo já ta canadense de saber. Agora, ela pouco revela sobre o mega tour que fez para Europa. A viagem pelo velho mundo, que iria marcar definitivamente todo o pensamento humanista dela, envolveu cidades como Paris, Londres e Bruxelas.
- Apesar de ter ficado um ano fora do país e ter sido obrigada a fazer prova de Ensino Religioso no terceiro ano, Mathias não perdeu o fôlego e foi a primeira colocada no vestibular de Ciências Sociais da UFBA e quarta na classificação geral. Foi aprovada também no vestibular da Unicamp, onde está concluindo a graduação.
- Embora afirme conhecer seu Orixá tanto quanto o Google entende de Candomblé, ela é do tipo que faz por onde quando o assunto é se proteger de mau olhado. Todo ano, alugar um barco e leva, no 2 de fevereiro, perfumes e flores pra Yemanjá. “Mandinga da gente continua...”
- Enquanto boa parte de seus amigos, estavam planejando que lanche comprar quando a moça da bilheteria deu o troco a mais, Camilinha só pensava na forma mais discreta de devolver o dinheiro para não prejudicar a atendente.
- No primeiro dia de aula, pós intercâmbio, Camilinha abre a porta da sala dos professores e diz: “Oieee, alguém lembra de mim?!” SILÊNCIO!
- Até o segundo ano, Camilinha se escondia no banheiro feminino toda vez que avistava Victor Vaqueiro no corredor. Não precisa dizer por que. Quando não conseguia escapar, a gente sempre ouvia o grito de desespero. “Camilinha foi atacada”.
- Na única aula de Educação Física que fez, Daniela Cipó assustou tanto Camilinha na corrida que ela quebrou o dente. Desde então, acha uma selvageria jogar futebol sem alambrado.
- No último Censo Besteiropopuli, Camilinha foi a mais lembrada quando o assunto foi ética, caráter e senso de justiça.
Estava prepararando um texto sobre o transporte de Salvador. Nunca é notícia velha o drama de que na terceira maior cidade do Brasil, o primeiro grande problema seja se lomover. A verdade é que já li e vi bastante sobre o preço da tarifa, o arrastão na Lapa, o ônibus vomitando gente pela janela, a margem de lucro da empresa, etc. E as dúvidas insolúveis ou motivada pela curiosidade infantil são massacradas na minha cabeça fervilhando de problemas. Algo que ninguém nunca li nem vi é como os próprios rodoviários transitam. A conversa que tive com o motorista da BTU esclareceu a minha inquietação boba: Se os ônibus em Salvador param de circular, a exceção dos corujões, que na fauna do transporte público da cidade é espécie em extinção, quem é que leva os motoristas para casa depois que eles param o ônibus na garagem? E quem é que leva quem levou o motorista? E, se as 4h da manhã alguns ônibus já começam a circular na cidade, como os rodoviários chegam para trabalhar na madrugada se na madrugada não tem ônibus? As prováveis respostas cor de rosa que eu sempre dava aos meus 12 anos eram:
1- A empresa dá prefêrencia a funcionários que moram perto da garagem. 2 - Cada empresa tem um dormitório com roupa de cama limpa e moça servindo cafezinho na noite. 3 - Tem um ônibus especial, como os do Polo de Camaçari. 4 - Eles pegam um táxi e a empresa os reembolsa mensalmente.
Ontem, saindo da Castro Alves, o executivo Praça da Sé - Imbuí, reconhecido pelo número de assaltos e pelo ar condicionado quebrado, foi a única opção para sair do caos provocado pelos fãs da antimpática Capital Inicial. Depois do motorista ter feito questão de dizer que só me levaria na Cardeal porque ele queria, dado que o horário dele já tinha sido completado e que, portanto, ele poderia ir para garagem, percebi que o fato do ônibus estar vazio era a oportunidade quase ideal para saber como os motoristas chegam em casa e voltam para o trabalho, na madrugada, numa cidade que não tem transporte público das 00h às 04h da manhã. Quase ideal porque o rapaz era do tipo que fazia trejeitos de irritação toda vez que seu desabafo ia ser interrompido. Com um pouco de insistência e de baianês, cavei a reposta desanimadora: "Cada um tem que se virar. As pessoas nessa cidade tem respeito por rodoviários e oferecem carona quando vê a gente esperando o transporte. Aconteceu isso hoje. O velhinho me viu parado e disse 'rodoviário tem que ser ajudado, vocês fazem a cidade funcionar' e me levou até a garagem". Tá, mas e quando não tem carona? "Olhe rapaz, tem um ônibus da empresa chamado Leva e Traz. É o manobrista da garagem que faz o circuito. Ele sai duas da manhã e volta umas três e meia. Vai deixando os motoristas que trabalharam na noite e pegando os que saem no começo da manhã." Ah, então, tem essa saída. "Mais ou menos, né? Porque se a gente acaba o serviço 23h40, a gente não vai esperar até as 02h da manhã. Prefere aventurar e ir catando nas linhas de outras empresas até chegar em casa. E pra chegar cedo também, o Leva e Traz não para na porta de sua casa. Você tem se dirigir pra rua que ele passa". E se ele passar numa rua distante? "Ai, pode complicar. Se não tiver carona, você vai andando ou espera pra ver se o Leva e Traz de outra empresa pode colocar você na rota". Tá, mas ficar no ponto de ônibus não é perigoso? "E ficar aqui no ônibus? Você acha que é seguro é? A gente se vira nessa vida, meu jovem". Só quem se vira aqui nessa cidade é quem não tem, eu acho. "Pois é, mas a gente até tinha uma moto. Aí facilitava, né? Porque a gente ia de moto e parava lá dentro da garagem. Sabe o que o dono da empresa fez? Pregou um aviso informando que estava proibido estacionar veículos dentro da empresa. Você acredita nisso? Gente esperta, malandra. E ainda teve a cara de pau, de indicar um lugar pra vender as motos da gente. Não dei ousadia e não vendi". Se duvidar, essa tal loja devia ser dele ou de parente. "Oxe, e você tem dúvida é? Olhe, a BTU, a Rio Vermelho, a Ondina, todos da mesma família. Uns espanhóis. Era uma empresa só, mas rico quanto mais tem mais briga. Ai estão meio separados. Ganham um dinheiro. Esses ônibus mais novos eles fazem é uma tal de franquia, não é nem empréstimo, porque não precisa. Num mês, já dá lucro". E quem trabalha mais no executivo, ganha mais? "Ganha essa roupa aqui e uma coleção de assaltos. Aqui a gente não ganha nada, nada. É um massacre. Já teve dia de fazer 16 viagens. Cada uma dura 1h. 15 minutos de intervalo não vou nem ao banheiro. E se você não cumprir a tabela, tá fora. Massacre, massacre mesmo. A gente só não lambe o chão porque a língua é pequena."
Não tenho escolha, careta, vou descartar Quem não rezou a novena de Dona Canô Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor Quem não amou a elegância sutil de Bobô Quem não é recôncavo e nem pode ser reconvexo.
Vendo fotos terrivelmente mal tiradas de um festa que reuniu 100% dos indieOTAs de Salvador, fico incrivelmente feliz de saber que existem pessoas piores que eu. Gente tosca e pretensiosa. Pra todas elas mando meu desprezo.
1. Comprar 7 livros, num único volume, por R$15,90é tendência, minha gente. Melhor investimento que fiz desde que passei a viver na linha da pobreza.
2. Abomino gente que diz que o mundo tá decadente. Por acaso alguém conhece aí a época de ouro da história?
3. É desesperador estar no penúltimo semestre vivendo como se tivesse sido aprovado no vestibular ontem.
4. O que se pode fazer quando se chega aos 21 e já não se acredita na sua carreira, em gente organizada, na possibilidade de ganhar na loteria ou, pior, no futuro ?
5. 18h. Ave Maria. Alguém aí por cima intercede porque o negócio aqui embaixo tá bem, mais bem por mais mesmo.
Elis uma vez disse que se Deus existisse, teria a voz de Milton. Deu vontade de falar dele hoje. Poderia escrever tantas coisas de várias músicas, mas acho que Elis já disse muito mais do que eu conseguiria.
O desejo mais óbvio de qualquer estudante às vésperas de se formar é ter muito dinheiro. Quer dizer, acho bem provável que esse seja o desejo de qualquer pessoa prestes a ter uma vida. O que certamente me diferencia das criaturas que agonizam na fila da loteria é que, definitivamente, ter dinheiro não me tiraria apenas da pobreza material. Ainda que, combinemos, isso seja altamente louvável. Enquanto meus pares contemplam o Morada dos Cardeais e se deliciam com a possibilidade de terem seis dígitos na poupança, eu tento calcular se é realmente possível comprar a coleção de Monet, Degas ou Portinari depois de ter montado um museu de Van Gogh para uso exclusivamente pessoal. Com o dinheiro que vou ganhar trabalhando como escravo numa Universidade sucateada, nem falsificações eu conseguirei. Acho que poderia parar aqui com a prosa. Tudo o que eu pretendia dizer era que gostaria de ir embora dessa cidade, desse país, acordar a cada dia num lugar novo, esquecer de muitas coisas e viver um período nas montanhas. E o problema é só um. Veja, eu nem imploro muita coisa. Custa muito deixar Salvador? Não. Custa muito deixar o Brasil? Menos ainda. Conhecer gente nova? É até prazeroso. Viver nas montanhas? Gente, teria maior benefício pra conceder a humanidade do que esse??? Acho que não. Mas eu, entregando o braço em troca de umas moedas, vivo praticamente na linha da pobreza. E não existe nada mais degradante do que receber chicotadas e ser rodeado por pessoas deliberadamente inferiores. Mentalmente inferiores. Incapazes. Posso não abominar todas essas pessoas que viajam para Amsterdam porque acham que liberar maconha é mais legal do que a casa de Rembrandt? Tem outro sentimento que não seja desprezo por todas as pessoas que, sei lá, gastam 3 mil reais ouvindo Bel Marques perder a voz enquanto você não tem 3 mil reais pra chegar até a casa de Neruda em Valparaíso? Pode existir sensação pior do que gente fyna e ryca que fala amega e acha que Vidas Secas foi o maior trauma da escola? Quer dizer, é direito legítimo ficar profundamente aborrecido. Perder a paciência e um pouco da razão. Via de regra, quem sai da vida tacanha pra se banhar na luz, volta correndo pra se esconder embaixo dos lençois. Mundo desigual, have a nice day.
Ontem Luamorena me disse que acessou o blog. Ela procurou no google o nome dela e pá, caiu aqui. Temeroso, asi estoy yo. Porque se eu exclui esse blog da página de recados do orkut, do perfil e do mundo visível seguramente era com a intenção de escrever abertamente. E tem uns posts meus que foram além da proposta de rodar tudo. Temeroso, asi estoy yo. Enquanto, Sebastião vai levando leite no carrinho, eu andei me perguntando como seria o dia em que deixaria Salvador. Sorrateiramente, escancaradamente e fugazmente.
Mari Betha, minha companhia de horas desoladoras. Cada um tem seus mistérios, seu sofrer, sua ilusão. Casinha Branca