
Mais um post falando de John Steinbeck e eu não aguentaria. Só que acabar As Vinhas da Ira e não deixar um mero registro aqui seria uma palhaçada criminosa. Sério que nem botava tanta fé nesse livro, apesar de ser o mais conhecidinho e já ter virado filme vencedor do Oscar e todas essas coisas que atraem boa parte das pessoas sem grandes referências. As Vinhas da Ira é de causar suspiros. Tem os melhores diálogos e a miséria mais miserável de toda a história da literatura. Sério, até eu me, veja, até eu, me senti rico. Acreditem, mas já existiu Etiópia na América. Vou reforçar: antológico.
Sente o clima:
E esses dois vão para a Califórnia; vão para lá a fim de se sentarem no halll do Beverly-Wilshire Hotel e olhar os que passam e eles invejam, olham as montanhas – montanhas, está vendo, e árvores copadas e altas! -, ele como olhos cheios de preocupação e ela pensando em como o sol vai ressecar-lhe a cútis. Vão ver o Oceano Pacífico, e eu aposto 100 mil dólares contra nada em como ela dirá: “Olha, não é tão grande como eu pensava!” E ela terá inveja dos corpos jovens e frescos que se revolvem na areia das praias. Eles vão à Califórnia para poderem regressar da Califórnia, e para poderem dizer: “Fulano e Sicrano estiveram sentados bem ao lado da nossa mesa, no Trocadero. Ela não presta, mas se veste admiravelmente.” E ele: “Encontrei uns negociantes graúdos. Eles dizem que as coisas só melhorarão quando a gente se livrar daquele sujeito que ainda está na Casa Branca”. E: “Alguém me disse, alguém bem informado, que ela tem sífilis, sabe? Aquela que fez cinema graças aos homens que teve. Bem, ela teve o que merecia”. Mas os olhos preocupados jamais têm paz, e a boca zangada jamais se abre num sorriso. O carro enorme e luxuoso passa a 100 por hora. (Página 193)
E sempre que um homem tivesse um pouco de dinheiro podia embriagar-se. Aí acabavam-se as arestas, e tudo era quente, confortador. Aí não havia mais solidão, pois que o cérebro povoa-se de amigos e o homem podia achar seus inimigos e aniquilá-los. O homem sentava-se num buraco e a terra tornava-se macia debaixo dele. A desgraça doía menos e o futuro não mais aterrorizava. E a fome não mais rondava por perto, o mundo era suave e sem complicações e o homem podia chegar onde quisesse. As estrelas desciam maravilhosamente próximas e o céu era tão encantador! A morte era um amigo e o sono era irmão da morte (...). As estrelas tão pertinho da gente, e a tristeza e o prazer tão perto um do outro, a mesma coisa, no fundo. Só queria estar o tempo todo bêbado. Quem foi que disse que isso não prestava? Quem ousa dizer isto? Os pregadores, mas eles têm a sua maneira própria de se embebedar. Mulheres magras, estéreis, mas estas são por demais miseráveis para compreenderem uma coisa assim. Os reformadores, mas estes não conhecem a vida bastante de perto para poder julgá-la. Não senhor... As estrelas estão muito próximas, tão próximas, e eu pertenço à confraria do mundo. E tudo é sagrado...tudo até mesmo eu. (Página 417)
Daí que reli isso e fiquei pensando se deveria deixar um depoimento com um trecho de um livro de Virgínia Woolf pra uma amiga. Naturalmente, não ia colocar as referências nem nada disso. Mas, quer saber, acho que não vale a pena gastar a literatura.
Nenhum comentário:
Postar um comentário