terça-feira, 10 de março de 2009

O Leitor


Se eu tivesse recursos, um pouco mais de vontade, interesse e tempo livre (tá, eu até tenho tempo livre), eu faria um levantamento sobre quantas vezes Hollywood produziu filmes sobre o Nazismo e como, surpreendentemente, consegue se renovar dentro da mesmice do tema. O primeiro filme que vi sobre nazismo foi A lista de Schindler, do Spielberg, lançado em 1993, mas só disponível nas locadoras do interior da Bahia, em 95. Apesar de ter apenas sete anos, ler as legendas e passar 3h diante de uma televisão vendo um filme preto e branco, isso não é que o que se pode considerar como um trunfo quando as opções de lazer para aquelas crianças se limitavam a desenhos animados nada favoráveis à nossa cognição. Antes de Spielberg deve ter tido algumas centenas de filmes A, B, C, D que começa m num plano cinza e com as letrinhas indicando o ano, Alemanha, 1936. Eu não reclamo. Gosto tanto de história que não reclamo. Se eu tivesse conhecido Hobsbawn antes de entrar na universidade, talvez minha escolha do curso tivesse mais coerência e inspiração. Mas como estou na Facom, respirando um ar de cultura bastante rarefeito, me enfiei no cinema pra assistir O Leitor, e pá, vamos lá, mais um. Kate Winslet é convincente. Já gostava dela desde que fez Titanic, sei lá, atores britânicos são naturalmente melhores que os americanos. E o filme é instigante, ainda que Ralph Fiennes, sinceramente, não vai conseguir fazer nada melhor do que sexo no banheiro do avião com uma aeromoça e o meio chato O paciente Inglês, claro. O Leitor é um jogo de sedução, a perda de inocência, a descoberta de si próprio, a redescoberta do mundo pós-guerra, uma fonte que clareia os limites entre a fronteira do sensual e do erótico, sem cair na apelação gratuita. É um livro e, como tal, amplia os horizontes do conhecimento, constrói novas perspectivas, provoca mudanças, irrita e não tem um fim propriamente dito. A justificativa do filme é boa. A narrativa é boa. Mas essa conversão do filme num reflexão social sobre o nazismo e essa história de que as pessoas nem sempre sabiam o que estavam fazendo, e toda aquela coisa sobre os 6 milhões de judeus mortos pelo III Reich, isso, bem, isso não é tão bom assim. E não é tão bom assim porque me parece que os diretores aprenderam que enredos bem feitos, com atores bons, tem mais chance de ganhar o Oscar e baboseiras do tipo, se colocarem uma suástica bem no meio da tela e provar pra meia dúzia de judeus que julgam esses prêmios que eles também são solidários com a causa e o sofrimento desse povo errante. E ainda que isso não chegue a prejudicar o filme, não é nada muito criativo. Mas Stephen Daldry, o mesmo que dirigiu o excelente e melhor do que O Leitor, As Horas, continua absolutamente comovente. O Leitor, mesmo sendo bom, do começo ao fim, poderia ser incrivelmente melhor se continuasse sem aquele julgamento, aquelas cenas do tribunal e aquele professor cheio de boas intenções dando conselhos e fazendo aqueles questionamentos forçados. Porque, às vezes, o cinema é melhor quando faz a gente pensar menos e sentir mais.

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