quinta-feira, 24 de julho de 2008

Sobre a falta do que fazer na Rússia


De autoritarismo e de excessos, é sabido, a Rússia entende muito. Cerca de 90 anos após a primeira grande Revolução Comunista da história, o país que foi um dos principais palcos do mundo durante todo o século XX, agora se debate com questões que, bem, digamos, não refletem as preocupações mais urgentes da contemporaneidade. Como se não bastasse a volta da poderosa máfia russa, a inflação assombrosa, a corrupção deslavada de sucessivos governos, além da velha e sorrateira espionagem, herança maldita da União Soviética, os dirigente russos muitíssimos interessados com assuntos importantes, tipo a pobreza, aids e África, resolveram proibir, definitivamente, os jovens de se vestirem de emo. Tirando o discurso da defesa incondicional da liberdade de expressão, o mais patético da história (além dos emos, claro), é a alegação de que “de que a moda [emo] atue como incentivo a um comportamento anti-social, à depressão e ao suicídio entre adolescentes”. Ninguém se torna anti-social, depressivo ou comete um suicídio apenas por usar roupas pretas e pink, cintos com peças de metal, unhas bizarramente pintadas, piercings nas orelhas e sobrancelhas e cabelos pretos com franjas que cobrem metade do rosto. Ninguém mesmo. Num século como o nosso pega mal, muito mal explicar questões como essa dessa forma obscura. Eu, por exemplo, também defendo a extinção dos emos. É natural, é saudável e nos livraria da vergonha alheia. Eu acredito que dentro de cada ser humano existe um marco regular de sanidade e de bom senso. Nem sempre funciona, nem sempre dá mostra de sua existência, mas ta lá. E é, por isso, que considero que todas essas extravagâncias patéticas em busca de auto-afirmação, de construção de identidade, nada mais representam do que um distúrbio nesse marco regulador. É assim: ele dá defeito no indivíduo e a sociedade sofre as conseqüências. O que a nova lei pretende é apenas se livrar de algo que ela considera como sendo questão de saúde pública. Ora, acontece que moda nunca foi um problema de saúde pública. O que o governo não entende é que não são as roupas e suas múltiplas combinações as responsáveis por gerar um determinado tipo de comportamento social, mas sim o contrário: o comportamento, o jeito de ser e de pensar é que produz a moda. Portanto, se a idéia é acabar com o suicídio de adolescentes nojentos com carinhas afetadas através do inteligente procedimento de detonar com os seus trajes, esmaltes e apetrechos medíocres, então essa já é uma batalha perdida. É nessa parte que todo mundo senta, chora, ouvi My Chemical Romance, boceja e pensa saudosamente na falta que a turma do Dostoievski e do Lênin fazem.
(Na foto, um bebê levemente feliz por acreditar que a pós modernidade não pode produzir nada pior do que Pútin, emos e afins. Não me convence)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Embaixo, embaixo, embaixo, ôôôôôô...


Ser turista na própria cidade. É essa a sensação de quem circula na agradável Praça Tereza Batista, no Pelourinho, para assistir ao Ensaio do Olodum. É um programa ímpar, ao salgadíssimo preço de R$30, a meia, para baianos com poucas opções de lazer numa noite de terça-feira de férias. Na Praça, 11 dos 10 transeuntes não nasceram ou não vivem na Bahia ou sequer estiveram aqui alguma vez ou, para piorar, sequer conhecem o mínimo da cultura local. Isso explica, por exemplo, o porquê de tantos coreógrafos pagos para adestrar os turistas mais babões a levantar mãozinha e a sair do chão quando a música começa. Em praticamente todo o Ensaio, o cômico e o ridículo se misturam. Há um certo ar de regozijo por parte dos coreógrafos. Aquela cara de felicidade constante não é só construída a base de dólar ou euro. Tem também um certo deleite em ver os gringos fazendo coisas tão absurdas que mesmo aqui, no Carnaval de Salvador, seriam vistas com estranheza. Mas todo mundo se movimenta, sua, levantas as máquinas digitais super moderninhas para registrar o momento, fazem do quase falecido Tonho Matéria uma celebridade a la Ivete Sangalo e acham tudo muito divertido.
É uma experiência única. Mas não pode ultrapassar a cota de um ensaio por ano. Porque aí dá problema. Dá problema porque certas coisas a gente só atura uma vez a cada doze meses. Não, não estou falando do Olodum. Estou falando dos coadjuvantes. A banda de abertura, por exemplo. Não satisfeita em cantar músicas do tipo Sem Ar, do cantor que enche de paixão lavadeiras de todo o Brasil, The Black, a vocalista da banda, a intragável e desconhecida (para nossa felicidade, claro) Tribo Sul, começava a cantar num dialeto próprio. Para os brasileiros, a língua lembrava um pouco o inglês, bem sofrível, óbvio, arrastado e que mais parecia uma amarração de fonemas incompreensíveis. Para os estrangeiros, soava como um dialeto do Zimbábue e, já que não se entendia nada mesmo, ao menos uns dois minutos de aplausos servem para saudar alguém que canta uma língua dessas.
Além da presença estrangeira, das mulheres prostitutas se insinuando descaradamente para os americanos, do big big que custava 50 centavos a unidade, das danças esdrúxulas protagonizadas por europeus que acreditam que Salvador é mesmo a capital do Congo,tivemos ainda Priscila, uma loira, estilo pré-fabricado Cláudia Leitte que não parava de dar gritinhos alucinados para a platéia e recomendações do tipo: “Vocês já foram ao bar? Quantas cervejas vocês estão carregando? Gente, tem que deixar dinheiro aqui, oh, (apalpava o bolso) dinheiro, dinheiro..”. Dizer que é mais um rostinho não tão bonito, desprovida de neurônios é bem desnecessário, né? Bem desnecessário. O que me deixa estarrecido é que, de fato, as pessoas acreditam que ao não entender o que se pretende dizer, o estrangeiro passa a ser, necessariamente, surdo ou retardo. E aí, vem os gritos, as mímicas idiotas e os comentários infelizes. Priscila, cujo nome da banda é, salvo engano, A cor do Dendê (Precisa comentar? Precisa?) se superou. E, depois disso tudo, ainda vem aquele gordinho vazio do programa mais cult do Estado, Se Liga no Pida, apresentar o show do Olodum: “Quem sabe aqui dançar o samba reggae? Bota o samba reggae Dj para Renata sambar, bota! Não tem som? O som quebrou DJ? Que pena Renata, não vai ter som, mas o colar é seu!”. Aí a menininha, aluna exemplar da escola de Raqueli, disse um “Obrigado” comendo o microfone e desce do palco para abraçar os amigos orgulhosos de tal conquista.
Finalmente, Olodum. E sim, valeu a pena. E como valeu. Podia ser mais barato, poderia ter menos turistas, poderia ter pessoas mais legais e asseadas, poderia ter menos prostitutas, poderia ter menos crianças e idosos, poderia ter pessoas mais inteligentes também, mas aí é pedir demais, né? É pedir demais. Valeu por todos os clássicos do Olodum, que eu nunca tinha ouvido na batida do próprio grupo, mas sempre nas vozes de outros, valeu também pelas homenagens a vários artistas incluindo Raul e Jorge Ben, valeu, principalmente, pela experiência quase antropológica de estar num ambiente diferente de tudo como aquele. A propósito, os behavioristas de plantão teriam um prato cheíssimo para hipóteses, teses e verdades universalmente compartilhadas. Sendo que a primeira de todas é que todo o turista que vem à Bahia tem vocação para ser babaca. Para finalizar, fui dormir com a batida, que não tem nada de primitiva, ecoando o Avisa Lá! Fantástico mesmo. E o Olodum faz todo mundo "pirar de vez", um belo fenômeno de massa.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

De mudança!

O Blog vai ter que mudar um pouco....

terça-feira, 3 de junho de 2008

Semestre bom dura 6 dias e tem brigadeiro no turno oposto!



Tem gente que odeia final de semestre - fica sem tempo, risco de prova final, estudar o que não estudou durante o período, gostar de dizer que anda estressado porque ainda acha que estress é coisa chic e besteiras do tipo. Mas tem aquelas pessoas que amam - gostam, de vez em quando, de ocupar os espaços vazios da vida.

Eu sou do tipo que não tenho preferência por semestre independente do estágio em que ele se encontre. Isso, principalmente, depois de constatar que em duas semanas eu tenho que resolver de vez as coisas pendentes da viagem, tendo paciência pra lidar com a demora da OUC em responder meus emails, duas provas de comunicação e política, que apesar de entender o assunto, gostar da aula e ter lido a bibliografia, ficou aterrorizado porque tenho dificuldade em ordenar meu raciocínio e dominar a minha leve insegurança sobre tudo (sim, insegurança faz parte de minha personalidade), um telejornal problemático, que incluiu da produção à edição num grupo que não funciona, um artigo gigantesco sobre a minha pesquisa na área de jornalismo ambiental feita durante os últimos 12 meses, o que vai me custar noites em claro , e, pra completar o pandemônio que minha vida vai se tornar em alguns dias, eu ainda tenho um caderno especial sobre o dois de julho lá do jornal.

Aí eu abro a minha agenda para organizar o que for possível e descubro que ainda tem a Nave, o Baile, o show de Takai, o show de Vanessa, e um livro de Vírginia Woolf, adquirido na última tentativa de zerar o saldo da poupança. E todos são compromissos altamente irrevogáveis.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O problema do dinheiro é não tê-lo...


Pela primeira vez, desde que me entendo por gente, me senti pobre. Do tipo que tem uma merreca quase desprezível de 70 reais na conta e que não garante nem a combinação da Saraiva de um Kundera com um Hemingway. E, pela primeira vez na vida, eu entendo que a pobreza não produz condições para se falar em vida. A minha pobreza brusca, que vai durar até o momento em que encontrar o HSBC, deve-se a um depósito quase "irrisório" direto na conta da Oslo University College. Algo grave: o depósito não está completo, o que significa dizer que ainda corro o risco de ter o visto negado. Algo mais grave ainda: caso isso aconteça, não faço idéia se receberei o dinheiro de volta, como e quando receberei. Isso significa que até agosto a situação é de total espera. É demais para uma única pessoa agüentar essa expectativa e ainda ter que conviver rodeado pela miséria financeira.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Qualquer um poderia ser minha anta, até Lula.





Nas fotos : Lula, o homem que, para alguns, é o pai do Brasil. Alguém discorda?


Nunca na história desse país tivemos tantos escravos como hoje em dia. Você veja, é tanta escravidão que é uma coisa que até me deixa emocionado. A princesa Chica da Silva, aquele que aboliu a lei áurea, vocês devem conhecer, ela foi um pessoa formidável pra história desse país, uma mulher de fibra. Hoje em dia, tá tudo um beleza. O pobre hoje, né Dilminha, tá numa mordomia que só, tão até comendo carne. Nós tamo fazendo um governo que é pra ferir azelites do país, as zelites que nunca gostaram de nós nordestinos. É o que sempre digo pro Alencar e pro Antônimo Ermírio. Mas veja, onde eu tava mesmo?

-Na escravidão.

- Olha, foi bom você ter tocado nesse assunto porque o Santos perdeu essa semana e eu fiquei em casa me perguntando...
Trabalhar no último feriadão do ano e pedir pra não falar mal de alguém é demais, né? É demais...

domingo, 18 de maio de 2008

O word reconhece. Eu também.

(Na foto Steinbeck fazendo cara-de-quanta-besteira-há-nesse-mundo)

John Steinbeck foi o meu achado literário. Literalmente. Andava revirando uns livros antigos na “biblioteca” de minha casa lá no interior, quando achei um livro amarelado e de título interessante: “A rua das Ilusões Perdidas”. Títulos interessantes me atraem. E eu fiquei me perguntando o que um Nobel estaria fazendo em meio a um punhado de livros infanto-juvenis, espíritas e de medicina. Bem, mas estava lá, paradinho e pedindo para ser lido nas monótonas tardes daquela cidade. Tenho a seguinte mania: assim que acabo um livro bom, vou investigar todas as opiniões sobre a obra. Eis que descubro que ele tinha sido o mesmo autor do aclamado As Vinhas da Ira. Fato que tenho descoberto um excelente autor. E eu gosto de descobri bons autores, assim do nada, sem indicações, sem referências, do nada mesmo. Foi assim que descobri Isabel Allende e Hemingway, por exemplo. Volto e meia tenho essa mania de escolher livros como quem escolhe frutas no mercado: está com uma cara boa, então leva. As vezes dá errado. Deu errado com Borges, por exemplo. A cara estava boa, mas só a cara. Ficções é um livro sofrível, sofrível mesmo, do tipo que você conta quantas páginas faltam para acabar o capítulo. Um dia pretendo relê-lo pra confirmar que eu não estava com problemas quando li. Já quebrei a cara também com esses livros infanto-juvenis que colocam em letras gigantescas na capa: “O melhor livro de fantasia depois do Senhor dos Anéis e de Harry Potter”. E muitos idiotas acreditam piamente que estão prestes a ler uma outra obra-prima. Eu, por exemplo, fico sempre tentado. Já levei dois desses lixos para casa. Mas Steinbeck é diferente (acabo de perceber que Steinbeck é reconhecido pelo Word). Ele é bom nos diálogos, faz páginas inteirinhas super bem escritas, passeia de conversas densas a rotina do dia-a-dia com uma facilidade admirável. E é perverso também. Perverso porque coloca o dedo na ferida humana. Expõe cada contradição nossa e praticamente diz: “e aí, você acha que é diferente disso? Pois saiba que não, você não é. É tão igual ou pior do que eles e agiria exatamente como eles agiram, não é?”. Sim, sim. E, apesar de alguns dizerem que Steinbeck limita-se a sociedade americana, eu tenho absoluta certeza que seus escritos são uma crítica feroz a toda sociedade capitalista. É imperdoável. Uma espécie de Lars Von Trier da Literatura. Com a sutil diferença de que Steinbeck parece crer e nos faz crer que as nossas saídas, que os nossos caminhos estão no próprio homem, mesmo que esse homem seja tão condenável.