(Desse acasalamento nasceram: essa imagem, A Lentidão e o Tom Zé, claro)Confesso que li A Lentidão, do Milan Kundera, esperando mais. O livro até seria fantástico e original. Seria. Bastava que não fosse do Milan Kundera. Depois de ler A Ignorância, A Cortina, A Brincadeira e A Insustentável Leveza do Ser o leitor é automaticamente levado a condição de máxima exigência: ou é fantástico ou é “legalzinho”. Já ouvi rumores de que A Lentidão, cujo tempo máximo de leitura equivale a uma aula pífia de Comunicação e Ética, é o livro mais engraçado do Kundera. Francamente, não é engraçado. As pessoas devem rir da palavra cú, usada inúmeras vezes em diálogos, sub-pensamentos, bocejos e nota de rodapé durante todo livro. Não vi graça. Tom Zé, no show bizarro que fez no Porto da Barra, declarou em alto e baixo som (sim, estava péssimo) que aquela era a primeira vez que conseguia ver a vagina da praia porque antes só via o cú do porto. Cerca de 40% das pessoas presentes bateram palma porque sempre batem palma pra tudo que alguém, dotado de um microfone, de uma banda e de um palco, fala. 5% ficaram sem entender a analogia, metáfora, comparação ou o absurdo literário disparado por aquele senhor com claros sintomas de que está entrando pra quarta idade – a da caduquice. 5% entenderam ou pensam que entenderam, fizeram murmúrios estilo ele-já-fez-coisas-melhores. O restante achou genial alegando a suposta genialidade sobre o fortíssimo, longo e explicativo argumento de “é genial, porque foi genial, genial mesmo, o cara é genial!”. Deve ser mais ou menos essa a reação dos leitores de A Lentidão. Eu, pelo menos, continuo na mesma do ele-já-fez-coisas-melhores.


