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segunda-feira, 19 de abril de 2010

É um pouquinho de Brasil, iá iá



Na hora clamada
o grito que lança
afronta
é pra mudar
Não demora
tudo muda
Na ruas, escolas,
a mão que, enfim, levanta
contra arrogância
é pra muda
Quem segura essa marcha??


Brasilha das Trevas

“O agente Barcelar foi até a cadeira, em que eu permanecia sentado, pegou pela minha camisa, me jogou com violência no chão, e iniciou uma série de murros na cabeça e chutes. Junto com outro agente da polícia civil, me arrastou pelos cabelos até a cela, onde lesionei a coluna na barra de ferro que estava no chão. O agente bateu a porta e disse que eu era um merda e que iria apanhar mais.”

O relato de Diogo Ramalho, estudante de Letras Espanhol da Universidade de Brasília (UNB), é o próprio retrato da democracia enfraquecida. As cenas de brutalidade, descritas na agressão física, covarde e desproposital, mostram como funciona o aparato de (o) pressão das nossas vias, ditas, democráticas. No último sábado, dia 17 de abril, estudantes, trabalhadores e cidadãos e cidadãs advindos de diversas localidades se aglutinaram em Brasília com o intuito de protestar contra a eleição do sucessor de José Roberto Arruda, ex-governador, cassado no dia 10 de março. O resultado da manifestação foi a cereja do bolo no calendário de celebração dos 50 anos da capital do país: autoritarismo, pancadaria e algumas lições sobre mudar o rumo desses ventos.

Logo após a vigília lúdica, iniciada na sexta-feira, convocada pelo Movimento Fora Arruda e Toda Máfia em frente à Câmara Legislativa do Distrito Federal, o grupo ateou fogo em pneus nas ruas que davam acesso à Câmara, interditando-a por dez minutos. Com o começo da sessão, em que 10 parlamentares/suplentes dos 24 votantes foram flagrados na mesma operação que conduziu a gestão de Arruda à bancarrota, os manifestantes tentaram entrar na galeria. Conforme reza o ideal democrático, a transparência e a visibilidade pública concernente à esfera política de decisão é pedra basilar para o bom funcionamento do regime. No Brasil e, aparentemente com maior recorrência nas consolidadas democracias ocidentais, essa crença é o nosso canto da sereia.

Para se ter uma clareza da chacota montada para essa escolha, basta saber que uma das principais lideranças votantes, Geraldo Naves, havia deixado a penitenciária somente há quatro dias sem dar qualquer contraprova à sociedade sobre o envolvimento no esquemão de pagamentos/suborno de parlamentares. Chefiando essa quadrilha, estaria o próprio Arruda, repassando o dinheiro oriundo de empresas que faziam negócios com o governo: Info Educacional, Vertax, Adler e Linknet. Os deputados suspeitos de serem beneficiários do esquema são Leonardo Prudente, Rogério Ulysses, Eurides Brito, Pedro do Ovo, Rôney Nemer, e o presidente do PP no DF, Benedito Domingos. Arruda teria também se beneficiado pessoalmente, com pagamentos quinzenais de 50 mil reais, além de conseguir empregos para parentes e amigos, como seu filho, nas empresas do esquema, e de ter o apoio da empresa pública Codeplan com contribuições eleitorais e na construção de uma casa luxuosa em Brasília para si e políticos aliados, entre os quais o vice-governador, Paulo Octávio.

Arruda deixa o DEMO, mas o DEMO não deixa Arruda

Embora o ex-governador tenha sido flagrado recebendo um maço de 50 mil, num vídeo que correu o mundo chafurdando na lama o pouco que sobrou de nossa ética, a única justificativa encontrada pelo político era de que o dinheiro se destinava à compra de panetones para os pobres de Brasília. E apesar de nenhum pobre de Brasília ter se lembrado de que comeu panetones no Natal de 2006, certamente todos tiveram indigestão com essa justificativa. Mesmo após a cassação numa votação apertada no Tribunal Regional Eleitoral (4 contra 3), que, cabe destacar, se deu por desfiliação partidária (Arruda deixou o DEMO em 10 de dezembro) e não por corrupção, a celeuma sobre a chefia do governo prosseguiu. E, uma vez perdido o controle da situação, a manutenção da ordem dependia de um único comando: bater, bater e bater.

Os movimentos sociais, em profunda crise política, articularam algumas frentes de atuação encabeçada pelo espírito contestador dos jovens universitários. Não apenas tendo que enfrentar os moinhos de vento, em cenas que relembram o romance de Cervantes, a aliança entre trabalhadores e estudantes precisava e, ainda precisa, lidar com a fúria e a brutalidade da polícia criminosa. “Esses baderneiros devem ser todos viados”, “Ao invés de estarem em casa, fudendo uma mulher, estão nas ruas protestando”, “O que você tá fazendo aqui seu merda?”, e outras frases só pronunciavam por polícias militares do Brasil perfaziam o nível do diálogo travado entre a força bruta e a força participativa. Por diálogo, entenda-se massacre.

Com a praça de guerra instaurada fora da Câmara, a votação prosseguiu na paz do ar-condicionado. E, para surpresa geral da nação, o ex-membro da administração de José Roberto Arruda, Rogério Rosso (PMDB) foi eleito em primeiro turno com 13 votos dos 24 deputados que votaram na eleição indireta. Ele venceu o candidato do PT, Antonio Ibañez (PT), que teve seis votos, e o atual governador interino, Wilson Lima (PR), que teve quatro votos. Somente um deputado se absteve de votar. E, acredito que não por idealismos, mas por falta de opção mesmo. Parabéns, Brasília.