Esqueçam essa pessoa prestativa, cheia de idéias e de humor ácido. É que não sou assim. Eu me construo assim. E me construo bem. Mas a verdade é que não dá pra segurar nenhum barraco mal-feito com esse fardo que paira na minha história e no meu presente. Tenho um pai que é uma droga. Que sempre foi uma droga. E que não me permite lhe dedicar minha indiferença porque ele faz questão de ser autor de crueldades e atos de cinismo que, definitivamente, me envergonham e já não me deixa dúvidas sobre os limites da pretensão e abuso de poder. Porque com um pouco de leitura e vivência, a gente aprende que autoritarismo não é só exterminar 6 milhões de judeus em campos de concentração. É também o massacre nas relações mínimas de poder. E sobre isso tenho aprendido com Foucault. Para alguma coisa tem servido estar numa realidade pobre - perceber que a saída desesperada desse mundo me leva, ao menos, a ares mais tragáveis. E tenho também, acredite ego, acredito inconsciente, uma mãe. Mas dela, eu não quero falar. De ter pena de algo ou de alguém, eu já tenho suficiente, mas da minha própria condição. E tenho também muita pena de nós cinco. Dela e das minhas, na falta de termo mais apropriado, irmãs. Fico consternado com essa situação e agora que a agonia está passando vou parar de escrever. Talvez nem tivesse a liberdade de escrever todas essas coisas. Só que esse ato arbitrário ou gratuito, como chamaria Clarice, eu não pretendo amputar como das outras vezes. Vai ficar aqui. Publicado. E, agora, eu não acredito mais que não seja possível, desculpem-me todos os escritores o clichê, virar o jogo. Mas não quero tratar disso como um jogo. Se assim fosse, estaria admitiando que todos já foram derrotados por antecipação. E eu nunca aceito perder. Nunca. Fica a provocação.
A minha vida não vai passar enquanto vejo um tango e encho a taça de vinho. Desse banquete, eu não participo.
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