Tem de existir algo de errado numa sociedade em que tudo que tem o viés pretensamente popular vira galhofa, almoço em família, piquinique de mal educados. Não passa por nenhuma teoria, não pode ser explicado facilmente, mas indiscutivelmente é um fenômeno grosseiro, constrangedor e muito humilhante. Muito. O governo oferece espetáculos populares para o povo. Incentiva a presença de porteiros, lavadeiras, domésticas e, como a esquerda bem gosta de bradar, dos excluídos da sociedade em lugares identificados como postos avançados do elitismo cultural, que é parte integrante da história do país a mais de meio milênio. Num de seus filmes, Glauber Rocha criou um personagem que fez uma pergunta extremamente significa e cuja resposta invoca meus piores temores e pesadelos: "O que vai ser desse povo quando esse povo chegar ao poder?!" Evito essa pergunta sempre que possível. Mas não hoje. É difícil acreditar, mas essa, meus caros, pode ser a armaga resposta. Você chega ao Castro Alves, às 8h50, já que os ingressos estarão sendo vendidos a partir das nove, espera um tempo interminável numa fila-dobra-quarteirão repleta de figuras, que apesar de muito exóticas e patéticas, nada se assemelham com porteiros, lavadeiras e domésticas, continua em pé durante outra eternidade esperando as portas do teatro se abrirem para duas horas depois acomodar-se numa das poltronas sob o barulho alucinante de jovens, crianças, adultos, velhos e espécies em extinção que gostam de causar. Além dos gritos de "soberana", "linda" e "diva" para a filha de Chaplin, que como boa francesa não se deu ao trabalho de aprender o português para entender esses cometários incontroláveis, a platéia, muito bem acostumada a sentar em frente a tv para se deliciar com cenas super tocantes de Manoel Carlos, Gilberto Braga e afins, não se continha diante da apresentação e levava tudo a uma bancarrota digna de país com pouca cultura de cultura: palmas fora de hora, criança chorando em momento dramática, velhinho se levantando para ir ao banheiro, pré-adolescentes eufóricos mandando beijos de uma ponta a outra do teatro, pais-classe-média acomodando os pés da prole sobre as poltronas, garotinhos adoráveis achando que estavam na Fonte Nova, gente que deixou de ver o Zorra Total pra dormir cedo, risadinhas inoportunas, celulares ligados, flashes quando a idéia era trazer a escuridão, piadas sob o roteiro, frases torpes, e coisas do tipo. Um fiasco. Sério. Saldo da manhã: 0,50 centavos pessimamente empregados, visões do inferno repleta de espíritos com cara de sono e maquiagem dormida, cansaço, tempo de espera, fila, fome, nervosismo, irritação, vergonha alheia, vontade de sair antes do começo, impaciência, comportamento agressivo, vontade de responder a frases miliotontas do tipo "será que água do bebedouro aqui custa 2 reias?!" , concentração abalada pelos "ARRASOU!" "perfeito" "maravilhoso" "que estética linda" de um grupinho de amigos que na fila de trás e, pra delírio de quem ainda acredita no poder das multidões, empurra empurra na hora da saída. Um minuto de silêncio em nome da criatividade apagada pela vulgaridade. Pêêêêêêêêêêê
4 comentários:
poxa, eu tinha ganhado convites pra ir... queria ter ido!
Se os ingressos que você ganhou foram para o espetáculo a noite, então você realmente perdeu. Porque a peça ou que quer que seja aquilo é realmente muito bonita e apreciável, mas não com aquele público.
a noite? nao era demanhã??
Pela manhã foi para os excluídos da cultura, em tese. E teve a noite tb. Muito mais caro, obviamente.
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