sexta-feira, 26 de junho de 2009

Eu não sei quase nada, mas desconfio de muita coisa



Guimarães Rosa é o nosso melhor escritor. Ele consegue a proeza de ser melhor do que Machado e melhor do que Clarice. Sim, é possível. O que ele escreve, as palavras escolhidas, a cadência do texto e aquele jeito tão peculiar de construir o universo das suas obras são traços de grandiosidade inequívoca. Não acredito em dom, em talento nato, porque, além de ser uma forma fácil e simplista de resumir a competência de alguém, é bem preconceituoso, embora, no caso de Guimarães poderíamos pensar em casos de excepcionalidade.

"Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração."

Conhecer outros idiomas foi a ferramenta que Guimarães usou para ser o autor com maior domínio sobre a própria língua. É de uma riqueza formidável: não só para explorar palavras, como também para construí-las, transformá-las, nos levar a imaginar um mundo a ser desbravado. Encantador.

Rosa escreveu pouco. Mas, calma, não tão pouco quanto a Emile Brontë. Em vida, Sagarana (1946), obrigatório na lista de vestibular da Fuvest-USP, Corpo de Baile (1956), Grande Sertão: Veredas (1956), Primeiras Estórias (1962), Noites do Sertão (1967). Mais outros tantos contos para periódicos e lançamentos póstumos desdobrados de outros títulos, como Manuelzão e Miguilim - primeira e maravilhosa obra que li dele. Miguilim, a propósito, ainda me deixa atormentado, esperando o dia em que eu, atravessando algum rua da metrópole, encontrarei com ele usando óculos e procurando informações sobre onde pode pernoitar.

O que me deixa realmente pasmo é, claro e mais uma vez, o nosso desprezo com esse acervo. Estou convencido de que 90% dos meus colegas de escola se formaram sem saber que o moço existiu e 9,99% marcaria a opção Prefeito de Cabaceiras do Paraguaçu caso fossem interpelados com a clássica pergunta: "Mas quem foi ele afinal?". E veja, estudei numa das melhores escolas dessa cidade, reduto da classe média pretensamente intelectualizada, formação católica, disciplina, anotações, etc. Então, por aí a gente já entende o que Guimarães Rosa representa para essa gente toda que mastiga frases de Içami Tibá e dorme com Zíbia Gasparetto debaixo do travesseiro.

Se é fato as pessoas entendem tanto de literatura quanto eu de física quântica, isso até poderia ser um sinal evidente de que precisaria controlar meus padrões de exigência e, conseqüentemente, parar de cobrar tanto de quem nada tem a oferecer. Só que não ser um especialista em física quântica ou qualquer outra coisa que as demais pessoas se consideram autoridades não me torna incapaz de saber quem foi e o que fez Galileu, Newton, Einstein, Lattes e, vejam vocês, Guimarães Rosa. Porque como ele mesmo escreveu: A cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.

Entenderam, né?



quinta-feira, 25 de junho de 2009

Coletivo de idéias

Exatamente quando escrevo as piores coisas, o blog aparece com mais visitantes. Isso me deixa inibido. Hoje mesmo seria um dia ideal pra tomar decisões. Nem vou dizer importantes, porque minhas decisões, quando eu mesmo as tomo, não podem ser importantes. Tem algum tempo que quero formar um coletivo. Estou buscando alguns amigos, conhecidos e até desafetos que possam dar alguma contribuição generosa (aceitamos pré-datado). Minha lógica torta diz que se Salvador tem muito pouco de lazer e é tremendamente cruel com quem tem R$ 1,94 na conta do Banco, então a saída viável é tentar preencher as lacunas das nossas vidas com algo que além de barato, legal e construtivo também ocupe nosso tempo ocioso. Agora mesmo, a Avenida Garibaldi parece mais a Rua São Jorge, lá de Ubaitaba - tamanho o movimento. É que geral não satisfeita com o São João, com os 6 dias de folga, com o fato da semana tentar começar na quinta, acha injusto de mais festejar um santo e largar o outro de lado. Aí comemora São Pedro também. E se Bento XVI bobear, Irmã Dulce entra no calendário intercalando o São Pedro com o Dois de Julho.
Até segunda-feira, portanto, a vida soteropolitana será esse paraíso livre de engarrafamentos e terra de ninguém.

Enquanto as coisas não voltam ao normal e me inspiro nas dezenas de mortos que os assaltos a ônibus em Salvador tem deixado, começo a pensar que o nosso coletivo tem de ser algo cheio, pleno. Tipo um Sussuarana R2 em horário de pico. Como questão básica é preciso entender que jamais iremos nos definir como marxistas mesmo sabendo que tudo aquilo que a gente vai fazer e falar é marxismo. Tampoco deixaremos esquecidos os velhos hábitos que nos fizeram jogar pedra na prefeitura e cuspir no túmulo de Malvadeza: o debate sim, mas se precisar a gente passa por cima. Apesar disso, acho que pedra chave do nosso grupo é mesmo o vale-tudo. Se hoje ninguém tiver afim de discutir política, abrimos a Vogue e falamos sobre moda. Sem vontade pra ler Foucault, ok, temos aqui um exemplar de R$ 9,90 de Harry Potter. Cansou de analisar Dogville, alguém já está trazendo um cópia de Procurando Nemo. Acha passeata demodê, vamos pedalar na Orla. Quer fazer uma loucura, certo, se inscreve num curso de jornalismo.

Pode parecer coisa de baiano pós-feriado, mas juro que a idéia é séria.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Metido


A tequila mais forte, o bolinho de queijo mais gorduroso e o acarajé mais aguado.
Um canção de letra trocada, um poema de Vinícius mal declamado e a concavidade do nariz de um ator vagabundo.
Cláudia Lete, Corpo no Chão e o medo do sinal abrir.

Há fortes indícios de que no fim ela acabará comigo.
(Válido para todas as interpretações)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mais do mesmo

Infeliz com esses últimos posts. Infeliz com esse post. Infeliz com esse título. Infeliz com o que não vou escrever e com a bobagem que colocarei aqui. Dois meses sem entrar numa livraria me fazem ver que eu não sou nada sem literatura.

Ney de novo pra dar uma trégua.

Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo

E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rosa de Hiroshima


Ney Matogrosso

Manhã

O problema dessa história de protestos pela internet é quando as pessoas realmente acham que estão sendo úteis. Acho que geral não entendeu ainda que se nem destruindo fazendas inteiras, nem invadindo o Congresso, nem jogando pedra na prefeitura está resolvendo, um click no Twitter, Orkut ou Email tem o mesmo feito que olhar para o céu e pedir a São Pedro que pare de chover. Se bem que...vai que para, né?

Recordações da época em que Maiakoviski se fazia entender.




Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam o nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles, entra
sozinho em nossa casa, souba-nos a lua,
e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.

E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Chapadoche


Daí que estavam cogitando de irmos pra Chapada Diamantina no feriadão, que vai de 2 de até 5 julho, pra comemorar meu aniversário que é dia 04. É porque a gente já entendeu que é muito obsoleto essa pagação declatória de "tudo de bom, felicidade, saúde, etc...vamos marcar hoje!" aí pensamos numa viagem. Porque não existe marcar nada no meu aniversário - tipo barzinho, tipo boate, tipo pizzaria. E a coisa mais brega que há , atualmente, é aniversário em Outback. O cúmulo do provincinianismo. Mas ir pra Chapada pra comemorar aniversário é o cúmulo do hippiesm. Não dá, impossible. E depois também, o que é ir à Chapada ver aqueles morrinhos e aquele mato e aquela chuva tensa caindo o tempo todo e aqueles sacizeiros desejando paz, amor e vida plena ao sol..... Aí, a conclusão óbvia disso tudo é: pra que mesmo existir Chapada Diamantina se já existe Bariloche? Lá é legal, não tem hippie, neva, faz sol, tem lago azul, tem montanhas mais altas e bonitas, faz frio, tem lojas e lojas de chocolate, tem segurança, tem guias...ou seja, Chapada beijos.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Mais um

Dá até pra sentir o suspiro de alívio da Anac em saber que o avião, sumido no Atlântico, é francês. E não me venham com piadas de Efeito Lost porque eu não acho graça.